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Caçada da Era do Gelo reconstruída em detalhes

Pegadas revelaram em incríveis detalhes do passo-a-passo da matança de preguiça gigante na Era do Gelo

quinta 26 abril, 2018
Fera ferida
Fera ferida Foto:Alex McClelland, Bournemouth University

O White Sands National Monument ("Monumento Nacional das Areias Brancas"), no Novo México, é (surpresa) famoso por suas dunas brancas, feitas de gipsita, a pedra que dá origem ao gesso. E bombas atômicas: foi na vizinha Base Aérea de Hollman que aconteceu o teste Trinity, o primeiro da História, menos de um mês antes de Hiroshima. 

Em abril passado, o arqueólogo ambiental Matthew Bennett, da Borneumouth University (Reino Unido), estudava pegadas de preguiça gigante deixadas nas pedras brancas, descobertas em 2008. E notou uma diferente: uma pegada grande de preguiça com outra menor dentro — humana. 

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Preguiças gigantes evoluíram na América do Sul, particularmente no Brasil, e colonizaram o resto do continente. O Megatherium, que existia por aqui, pesava 4 toneladas, o tamanho de um elefante indiano. As que viviam nos Estados Unidos estavam mais para o tamanho de um urso, como mostra a ilustração na abertura.

Bennet considerou as possibilidades. Se a preguiça tivesse pisado por cima da pegada humana, ela sumiria. Se o humano tivesse pisado na pegada da preguiça muito tempo depois dela ter sido feita, a depressão viraria uma poça, deixando outro tipo de marca. O que havia ali é um humano pisando na pegada fresca do animal. O que quer dizer que estava perseguindo-o.

E, logo o ficou claro, continuando a fazer a mesmo nas pegadas seguintes, por um caminho. Até que ele terminou, em marcas bem diferentes, em arco. “Círculos de bracejamento”, como Bennett descreve, demonstrando que o animal havia se levantado para se defender com as patas da frente. E não era uma defesa frágil: preguiças gigantes tinham unhas enormes e afiadas. 

O outros pés humanos surgiram por trás das marcas do bicho, mas esses pisavam de outra forma: na ponta dos pés. A conclusão é que esse era o verdadeiro caçador. “Era alguém se aproximando furtivamente para aplicar o golpe final enquanto a preguiça estava sendo distraída?”, pergunta-se Bennet, ao jornal do Serviço Nacional de Parques dos EUA. “Acreditamos que sim. Era um trabalho em família e vimos muitas evidências de pegadas de crianças e grupos nos bordas da playa*. Montando o quebra-cabeças, podemos ver como a preguiça foi mantida na playa pela horda de pessoas e distraída por um caçador perseguindo-a por trás, enquanto outro se esgueirou para dar o golpe de misericórdia quando o animal se virou.”

O resultado foi publicado ontem num estudo. Mas algo não foi respondido: por que pisar dentro das pegadas? Uma possibiliadade levantada no próprio estudo é que fosse uma brincadeira, talvezs de adolescentes. Mas não é considerada muito forte pelos próprios cientistas. “É difícil excluir essa possibilidade”, afirma à Atlantic. “Mas acho que é muito improvável. Esses eram animais apavorantes. Eles tinham garras como as do Wolverine. Eu não iria querer enfrentar uma delas mano-a-mano. Seria tolice assumir esse risco.”

Os cientistas também não sabem se a caçada deu certo. Não há qualquer indício do corpo do animal. Mas não quer dizer que não morreu: ela pode ter sido atingida mas ter vivido para fugir mais um pouco, ter sido comida em outro lugar, ou simplesmente não ter deixado qualquer indício fóssil. 

As garras “do Wolverine” não salvaram as preguiças gigantes da extinção. Há uma grande discussão se a razão de sua queda, que começou ao fim da Idade do Gelo (há 11 500 anos) foi pelo clima ou pela chegada dos humanos à América (que, pelo registro mais aceito, começou há 13 mil e estava em andamento então).

Fábio Marton


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