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Empresas ajudaram a manter a Ditadura Civil-Militar no Brasil entre 1960 e 1980

Relatório da CNV aponta pelo menos 50 empresas que teriam sido cúmplices da repressão

André Nogueira Publicado em 28/03/2019, às 10h30

Greve espontânea de trabalhadores da Volkswagen durante a ditadura
Greve espontânea de trabalhadores da Volkswagen durante a ditadura - Reprodução

A Ditadura Militar só foi possível pois havia certa capilaridade de suas ideias na sociedade, angariando apoio de grupos específicos para manter o regime de coerção política e desigualdade econômica que pretendiam. Um desses principais grupos de apoio foi a classe proprietária industrial, cuja participação na Ditadura foi tão central no projeto de desenvolvimento nacional do período que hoje os historiadores preferem determinar a época como Ditadura Civil-Militar brasileira. 

A Comissão Nacional da Verdade, nos últimos 5 anos, vem reconstituindo esses circuitos econômicos em que se encontram estes empresários colaboracionistas e, com isso, contribui na elucidação do momento histórico tratado, possibilitando a melhor compreensão do processo e seus agentes. 

O relatório aponta a colaboração de empresários à ditadura, somando pelo menos 53 empresas nacionais e estrangeiras que mantinham contato com o governo para denunciar possíveis associações dos trabalhadores com a esquerda. Entre as empresas, se destacam Volkswagen, Johnson & Johnson, Esso, Pirelli, Texaco, e outras.

Os momentos de demissão em massa eram tensas e envolviam a polícia / Divulgação

 

Havia um sistema de vigilância fabril pelo controle das massas operárias. Há relatos de trabalhadores indicados à repressão por portar um jornal considerado subversivo para o governo. Uniões laborais e associação com movimentos de oposição eram controlados ao máximo para que a ditadura tivesse controle sobre os trabalhadores. Para tudo isso, se ativava a vigilância interna da empresa.

Um exemplo dessa colaboração é a General Motors. A empresa norte-americana instalada no Brasil teria fornecido para o DEOPS de SP protetores auriculares para o treino de tiro dos policiais da repressão. Também forneceu boa parte do maquinário automotivo dos policiais. Os modelos Opalas e Chevettes, que levavam os agentes do Estado para as manifestações populares com o objetivo de reprimi-las, teriam vindo de tal consórcio.

Há, ainda, relatos de fábricas que permitiam o uso de seus porões como espaço para sessões de tortura. Em geral, é visto que essa complacência empresarial com os governos fazia parte do cotidiano desses ambientes em uma época tão conturbada.