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Antiga casa de Guimarães Rosa em Belo Horizonte está sob ameaça de demolição

Tombada como patrimônio histórico, residência onde o escritor viveu é propriedade de construtora. Prefeitura nega e a polêmica divide opiniões

Vinícius Buono Publicado em 25/07/2019, às 16h00

Casa onde viveu Guimarães Rosa, na região centro-sul de Belo Horizonte
Casa onde viveu Guimarães Rosa, na região centro-sul de Belo Horizonte - Crédito: Reprodução

João Guimarães Rosa é considerado o maior escritor brasileiro do século 20 e um dos maiores da história da literatura brasileira como um todo. Agora, um lugar onde suas memórias ainda vivem está sob ameaça: a casa onde morou em Belo Horizonte pode ser demolida junto com outras 12 residências, todas tombadas anteriormente, para a construção de um grande empreendimento imobiliário.

As casas foram vendidas para a Construtora Canopus há quatro anos e, apesar da proteção conferida pelo status de patrimônio histórico, estavam cercadas com tapumes até ontem, quarta-feira, 24, quando a demolição foi iniciada.

O caso gerou alvoroço entre os internautas, que defendem a manutenção do patrimônio onde viveu um dos maiores nomes da nossa cultura. O movimento "Salvem a casa de Guimarães Rosa em Belo Horizonte" já contava com mais de 6 mil seguidores nas redes desde 2015, quando as casas foram adquiridas pela construtora. O sentimento foi traduzido em textos e imagens do local, permeados de decepção com a forma como lidamos com a nossa história e cultura.

A prefeitura, através da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, e a construtora negam que a casa esteja sendo demolida. Em nota, a FMC se manifestou: "O Conselho aprovou projeto de restauração elaborado pela Construtora Canopus para o local, com uma série de diretrizes que preservam e valorizam o imóvel. O projeto está sendo executado. Nenhuma casa foi demolida — todas estão sendo restauradas de acordo com projeto aprovado pelo Conselho".

João Guimarães Rosa, nascido em 1908, escreveu diversos livros tendo como cenário os sertões interioranos do centro-oeste do Brasil. Os mais famosos deles, Grande Sertão: Veredas e Sagarana, são amplamente considerados como duas das maiores obras da literatura brasileira.

Sua escrita diferenciada, com um léxico quase próprio — formado a partir do vasto conhecimento do autor sobre vários idiomas — os temas recorrentes como amor, maniqueísmo, pessoas e animais, junto com a riqueza de detalhes que costumam transformar a paisagem no personagem principal da obra, fizeram com que os livros fossem aclamados nacional e também internacionalmente.

A epígrafe de Sagarana é um resumo não só do próprio livro, mas reflete, também, os temas recorrentes na obra do autor: Bem no alto lá da serra / Passa boi, passa boiada / Passa gente ruim e boa / Passa a minha namorada.

O escritor, mineiro, morou por um tempo em Belo Horizonte. Apesar de ter se formado médico, tornou-se diplomata e passou por outros países da América Latina e da Europa. Faleceu no Rio de Janeiro em 1967, poucos dias depois de ser eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras.