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Restos de animais revelam passado singular de antiga cidade maia

Entre o consumo de mexilhões, perus e tartarugas, Ceibal, que fazia trocas com outros locais, mostrou-se especial em alguns aspectos

André Nogueira Publicado em 14/05/2020, às 10h05

Ceibal
Ceibal - Instituto de Pesquisa Tropical do Museu Smithsonian

Um novo estudo partiu de uma rica coleção de mais de 35 mil ossos de um assentamento maia para compreender a trajetória da cidade de Ceibal, às margens do rio Pasión. No entanto, a pesquisa comandada por Ashley Sharpe, do Instituto de Pesquisa Tropical do Smithsonian, focou nas evidências de vida animal no sítio, não humana.

A riqueza do patrimônio zooarqueológico de Ceibal possibilitou a compreensão da relação entre homem e animal no mundo socioeconômico local. A pesquisa revelou que no sítio prevalecem ossos e conchas de maneira mais corriqueira que outros núcleos da região. Através de um método de separação das amostras por água, captou-se uma série de ossos, que foram identificados por espécie.

Cascas de mexilhão / Crédito: Instituto de Pesquisa Tropical do Smithsonian

 

"Os avanços na análise e interpretação foram possíveis graças a métodos rigorosos de recuperação da fauna", afirma Mary Pohl (Universidade Estadual da Flórida) sobre o estudo, ao Smithsonian Magazine.  

Como maior parte dos registros ocorreu em regiões residenciais de Ceibal, a vida dos bichos é claramente associada a ocupação humana, como o uso de mexilhões e caracóis como alimento há 2 mil anos, inclusive em banquetes funerários - pesquisadores se depararam com um homem enterrado ao lado de uma série de carapaças.

Depois desse período, notam-se mudanças, com a diminuição dos vestígios de mexilhões e aumento de ossos de peixes, veados e tartarugas, indicando mudanças de dieta. Inclusive, existe o caso de uma tartaruga que não era natural da região, provando que Ceibal tinha conexões comerciais com outros núcleos do atual México.

Osso / Crédito: Instituto de Pesquisa Tropical do Smithsonian

 

"Certas espécies marinhas, geralmente conchas para contas, aparecem apenas em determinados momentos, quase como modismos temporários", observa Sharpe.

As mudanças nos padrões zooarqueológicos colaboram na compreensão das mudanças da própria sociedade. "Em sociedades como os maias, onde temos muito poucos registros escritos, quaisquer pistas sobre eventos na história são incrivelmente valiosas".

Entre os exemplos colocados pela pesquisadora, o peru é relevante: também importado de outra região, ele elucida a circulação de animais e seu uso para alimentação, que não é tradicional na América do Norte, onde se usam as penas.