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Samanta Smith: A menina que tentou acabar com a Guerra Fria

Estudante de 10 anos dos EUA escreveu carta para o líder da União Soviética. Há 35 anos, ela obteve a resposta. E se tornou uma celebridade mundial

quarta 25 abril, 2018
Samantha recebeu uma resposta escrita pelo próprio Yuri Andropov
Samantha recebeu uma resposta escrita pelo próprio Yuri Andropov Foto:Reprodução

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Era novembro de 1982 quando a Samantha Smith, aos dez anos de idade, viu uma edição da revista Time que trazia na capa Yuri Andropov, recém-nomeado Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética — o premiê, o líder do país. A matéria traçava uma imagem negativa falava sobre as expectativas quanto às ameaças que sua ascensão ao poder representava aos Estados Unidos.

Ao ler sobre o clima de tensão entre Estados Unidos e União Soviética, Samantha perguntou à mãe, Jane Smith: “Se as pessoas estão com tanto medo dele, por que alguém não escreve uma carta para ele, perguntando se ele vai provocar uma guerra ou não?”. E Jane respondeu: “Por que você não faz isso?”.

A história de Samantha foi muito divulgada pela mídia mundial Reprodução

Então, Samantha escreveu a Andropov:

Prezado Sr. Andropov,

Meu nome é Samantha Smith. Tenho dez anos de idade. Parabéns pelo seu novo emprego. Eu estou preocupada sobre a Rússia e os Estados Unidos estarem se preparando para iniciarem uma guerra nuclear. O senhor votará para que haja uma guerra ou não? Se não, por favor diga-me como o senhor vai ajudar a não haver uma guerra. O senhor não precisa responder esta pergunta, mas eu gostaria de saber por que o senhor quer conquistar o mundo ou pelo menos nosso país. Deus fez o mundo para nós vivermos juntos em paz e não para brigarmos.

Sinceramente,

Samantha Smith

A carta de Samantha foi publicada no jornal soviético Pravda, mas a garota não recebeu nenhuma resposta. Ela decidiu, então, escrever uma segunda carta, desta vez a Anatoly Dobrynin, embaixador da União Soviética nos Estados Unidos, perguntando quando teria uma resposta e dizendo: “Acho que minhas perguntas foram boas e não deveria importar se eu só tenho 10 anos”.

Em 26 de abril de 1983, Samantha o carteiro bateu à porta dos Smith. Era uma carta da União Soviética. Escrita em russo e acompanhada por uma tradução em inglês:

Sua pergunta é a mais importante de todas aquelas que colocam o homem a pensar. Eu vou responder-lhe de forma séria e honesta.

Sim, Samantha, nós da União Soviética estamos fazendo de tudo para que não haja guerra na Terra. Isso é o que todos soviéticos querem. Isso é o que o grande fundador do nosso estado, Vladimir Lenin, nos ensinou. Os soviéticos sabem bem que a guerra é uma coisa terrível.

[...]

Na América e no nosso país existem armas nucleares, armas terríveis que podem matar milhões de pessoas em um instante. Mas nós não queremos que elas sejam utilizadas. Essa é precisamente a razão pela qual a União Soviética solenemente declarou por todo o mundo que nunca, nunca, irá utilizar primeiro as armas nucleares contra qualquer país. Em termos gerais, nós propomos interromper a produção delas e ainda a proceder à supressão de todo o seu estoque existente na Terra.

[...]

Nós queremos a paz para nós mesmos e para todos os povos do planeta. Para os nossos filhos e para você, Samantha. Eu convido você, se seus pais a permitirem, para vir ao nosso país, nesta melhor época, o verão. Você terá informações sobre o nosso país, encontrará com seus contemporâneos, visitará um acampamento internacional para crianças, o Artek, que fica perto do mar. E verá por si própria: que, na União Soviética, toda mundo é a favor da paz e amizade entre os povos.

Obrigado pela sua carta. Eu desejo-lhe as maiores felicidades na sua vida.

Y. Andropov

Da noite para o dia, Samantha se tornou uma celebridade. Ela foi entrevistada pelos âncoras Johnny Carson e Ted Koppel, entre os mais famosos do país. E não sem polêmica: enquanto muitos celebravam sua iniciativa, céticos afirmavam que estava sendo usada pelos soviéticos. O assédio da imprensa se tornou tão incômodo que a família decidiu dar um tempo do país, aceitando o convite soviético. Em 7 de julho de 1983, Samantha e seus pais desembarcavam em Moscou. Ela visitou a capital e Leningrado (São Petersburgo), e ficou hospedada em um dos principais acampamentos infantis soviéticos, o Artek.

Samantha passou duas semanas na Rússia com a famíliaYuryi Abramochkin

No acampamento, Samantha escolheu ficar em um dormitório com outras nove meninas. Ela fez amizade com as crianças soviéticas e afirmou ter aprendido muito sobre a cultura do país. Em uma conferência de imprensa em Moscou, Samantha declarou que “os russos são quase como nós”.

A garota norte-americana no acampamento com crianças soviéticas Vladimir Mashatin

Ao retornar aos Estados Unidos, em 22 de julho, Samantha ela foi recebida com um tapete vermelho e uma limusine. Pelo mundo todo, ela foi celebrada um símbolo de paz durante a Guerra Fria. Ela se tornou “Embaixadora da Boa Vontade”, a mais jovem diplomata da História.

Ao voltar da Rússia, Samantha foi recebida com presentes e flores Reprodução

Em dezembro do mesmo ano, Samantha foi convidada para ir ao Japão. Acompanhada pela mãe, ela se reuniu com o então primeiro-ministro Yasuhiro Nakasone e participou do Simpósio Internacional Infantil, em Kobe. Em 1984, estrelou um especial sobre política produzido pelo Disney Channel, em que cobriu a campanha presidencial e entrevistou vários candidatos.

Samantha atuou na série de televisão Agente de Alto Risco (Lime Street), ao lado do ator Robert Wagner, em 1985, e no mesmo ano escreveu o livro Viagem à União Soviética, contando sobre sua experiência no país.

E quem quer um final feliz — ou não sair traumatizado pela crueldade da vida — pode parar por aqui.

Samantha Smith ficou conhecida como a embaixadora mais jovem dos Estados Unidos Reprodução

Em 25 de agosto de 1985, Samantha e seu pai, Arthur Smith, estavam num voo de rotina, voltando para casa após gravar um segmento de Lime Street. Estavam num aviãzinho Beech 99, com outros quatro passageiros e dois na tripulação. Ao se aproximar do aeroporto, a aeronave não conseguiu se alinhar. Atingiu o solo antes da cabeceira da pista. Ninguém sobreviveu.

O ator Robert Wagner e a mãe Jane Smith a caminho de uma cerimônia em memória de Samantha e Arthur Reprodução

No funeral em Augusta, Maine, Samantha foi velada por mais de 1.000 pessoas. Ao saber do acidente, o líder soviético Mikhail Gorbachev (que sucedera Andropov após sua morte, em 9 de fevereiro de 1984, por falência renal) enviou uma mensagem à família Smith, afirmando que “todos na União Soviética que conheceram Samantha Smith sempre se lembrarão da imagem da garota americana que, como milhões de jovens soviéticos, sonhou com a paz e a amizade entre os povos dos Estados Unidos e da União Soviética”.

Letícia Yazbek

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