Notícias Guerra Fria

Há 35 anos, um militar soviético salvava o mundo da aniquilação nuclear

O tenente-coronel Stanislav Petrov recebeu um alarme de ataque americano. Sua missão era iniciar o contra-ataque nuclear imediatamente. Sua hesitação salvou o mundo

quarta 26 setembro, 2018
O tenente-coronel e a bomba que não houve
O tenente-coronel e a bomba que não houve Foto:Domínio Público

Tenente-coronel do exército russo, Stanislav Petrov era responsável pelo Centro de Detecção de Ataques Nucleares da URSS. Aos 44 anos, ele estava em serviço na madrugada de 26 de setembro de 1983, na base Serpukhov-15, próxima a Moscou. Stanislav não costumava trabalhar à noite, mas estava ali cobrindo a folga de um colega.

A partir da base militar, o tenente-coronel gerenciava a imensa rede de radares, satélites e analistas que protegiam o território soviético contra possíveis ataques americanos. Sua função era vigiar os equipamentos e informar as autoridades sobre qualquer mudança. No caso de um ataque, a estratégia soviética era clara: o responsável tinha exatos 12 minutos para acionar o sistema de retaliação. É o tempo que levava para que um míssil americano atingisse território soviético.

Notícias Relacionadas

Em outras palavras, cabia ao tenente-coronel lançar os mísseis e começar a Terceira Guerra Mundial.

Era pouco mais de meia noite em Moscou e domingo à tarde nos Estados Unidos quando os computadores de Petrov indicaram que um míssil americano voava em sua direção a 24 000 quilômetros por hora. Os satélites de observação não conseguiam ver o suposto míssil, mas os computadores confirmaram a informação.

Petrov hesitou. Raciocinou que as máquinas podiam se enganar e interpretou o aviso como um erro: “afinal, se fosse uma guerra, os americanos não lançariam só um míssil”. Então, o registrou como um alarme falso.

Stanislav Petrov em 1999 Reprodução

Teria sido fácil se parasse por aí.  Minutos depois, o alerta soou novamente: um segundo míssil americano, e, depois, um terceiro, um quarto e um quinto. Piscava na tela do monitor, em letras vermelhas, a palavra natinats ("iniciar").

Petrov manteve-se impassível. Ele ainda acreditava que o sistema estava errado, mas não tinha outras fontes para checar a informação e confirmar suas suspeitas. Os radares terrestres só detectariam os mísseis quando estivessem visíveis na linha do horizonte - seria tarde demais.

O tenente-coronel sabia que não havia margem para dúvidas. Se ele seguisse o protocolo e alertasse seus superiores, centenas de mísseis nucleares seriam disparados em direção aos Estados Unidos e, em apenas uma hora, acabariam com a vida de milhões de pessoas, talvez chegando aos bilhões como resultado final.

Confiando em sua intuição, Petrov não comunicou nada. Se estivesse errado, o mundo cairia sobre sua cabeça, literalmente. 13 minutos se passaram. O silêncio era absoluto dentro e fora do comando militar. Logo o radar confirmou que não havia nenhum ataque. Nenhum míssil ou destruição.

Stanislav Petrov foi premiado pela Association of World Citizens Reprodução

O militar soviético tomara a decisão certa e livrou o mundo de uma Terceira Guerra Mundial. Se outro oficial estivesse em seu lugar, talvez você não estivesse aqui agora para ler isto, nem nós para escrever. 

O mundo não ficou sabendo do que aconteceu. Para não expor a falha de seu sistema de defesa, os militares soviéticos abafaram o caso, que só e tornou público 20 anos depois.

Petrov foi repreendido por não seguir o protocolo oficial e passou por longos interrogatórios, mas não foi punido – seria complicado justificar castigar alguém por salvar o mundo. Mas tampouco foi reconhecido como herói.

Em 1984, ele deixou o serviço militar e começou a trabalhar no instituto de pesquisa que havia desenvolvido o sistema de alerta de mísseis do exército soviético. Após a morte da esposa, em 1997, aposentou-se. Em 2004, a organização californiana Association of World Citizens premiou Petrov com o World Citizen Award - ele recebeu um troféu e 1 000 dólares como agradecimento por ter evitado a catástrofe. Stanislav Petrov morreu em 19 de maio de 2017, aos 77 anos.

Natália Rangel e Letícia Yazbek


Leia Mais:

Receba em Casa

Vídeos

Mais Lidas

  1. 1 Crianças que nasceram como resultado do horrível programa Há 82 anos, nazistas começavam seu repugnante programa de ...
  2. 2 Os quatro milênios da Babilônia
  3. 3 Uma tempestade chamada Pagu
  4. 4 Inquisição: A fé e fogo
  5. 5 Marginália: As alucinadas ilustrações dos livros medievais