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Talibã contradiz discurso e reprime manifestação com violência

O protesto começou quando a bandeira do Afeganistão foi substituída pela do grupo em Jalalabad

Luíza Feniar Migliosi Publicado em 18/08/2021, às 10h01

Protesto em Jalalabad
Protesto em Jalalabad - Divulgação/Youtube

Uma manifestação foi violentamente reprimida pelo Talibã na cidade de Jalalabad, no Afeganistão, nesta quarta-feira, 18. Os combatentes do grupo dispararam tiros contra a multidão e bateram nos manifestantes, segundo o G1.

O protesto começou porque o Talibã retirou a bandeira do Afeganistão de um monumento no centro da cidade e colocou a sua própria. Pelo menos duas pessoas morreram e 12 ficaram feridas, segundo o portal de notícias Al Jazeera.

De acordo com o jornal The New York Times, centenas de manifestantes decidiram protestar contra a mudança na principal rua comercial da cidade. Carregando a bandeira do Afeganistão em meio a gritos e assovios, os talibãs dispararam para o alto com o intuito de dispersar a multidão. Como a estratégia não deu certo, eles começaram a agredir as pessoas que participavam do ato.

A cidade de Jalalabad fica próxima a fronteira do Afeganistão com o Paquistão, sendo um importante local de comércio. A cidade foi tomada pelo Talibã há quatro dias sem muita luta, já que os líderes locais fizeram um acordo com os extremistas. A cidade de Khost, no sul do país, também foi sede de protestos.

Em uma entrevista coletiva na terça-feira, 17, um porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, disse que eles não queriam transformar o Afeganistão em “um campo de batalha”. Porém, a resposta à manifestação mostra que a atitude moderada ficou apenas no discurso.

Caos no Afeganistão

O caos ocorrido no Afeganistão tem como consequência a retirada das tropas norte-americanas do país, através de um 'acordo de paz' iniciado por Donald Trump em 2020. Após o ato concretizado por Joe Biden, atual presidente dos EUA, o Talibã começou a avançar no país. 

O ato que representou de fato a tomada de poder se deu no último domingo, 15, quando os representantes do grupo extremista tomaram o palácio presidencial, localizado em Cabul. Isso ocorreu após o presidente do país, Ashraf Ghani, deixou o país em decorrência dos últimos acontecimentos. 

Joe Biden informou que não se arrepende de ter retirado as tropas do local. "Eu mantenho com firmeza minha posição", disse o presidente durante pronunciamento exibido pela Casa Branca na última segunda-feira, 16. "Os EUA não podem participar e morrer em uma guerra em que nem o próprio Afeganistão está disposto a lutar", explica Biden

O domínio 

Durante 1996 e 2001, o Talibã governou o Afeganistão, antes de ser derrubado por uma campanha liderada pelos EUA após os ataques no 11 de setembro. 

Durante este período, jovens foram proibidas de frequentar as escolas e as mulheres proibidas de andar em público sozinhas, apenas acompanhadas de homens e cobrindo o corpo inteiro. Além disso, não podiam trabalhar, estudar ou serem tratadas por médicos do sexo oposto. Aquelas que se recusavam a seguir as ordens eram castigadas e executadas.

No domingo, a ativista paquistanesa e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, também compartilhou suas preocupações no Twitter.

"Nós assistimos em completo choque o Talibã assumindo o controle do Afeganistão. Estou profundamente preocupada com as mulheres, as minorias e os defensores dos direitos humanos. Os poderes globais, regionais e locais devem pedir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis", disse a jovem ativista.

Em 2012, Malala se tornou um símbolo em defesa dos direitos humanos depois que sobreviveu a um tiro na cabeça disparado por um atirador do Talibã no Paquistão.