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O mistério dos tambores falantes africanos

Neste dia, em 1842, um explorador britânico descobriu um insólito meio de comunicação, que deixou os europeus perplexos

quinta 24 maio, 2018
Tambores falantes são reais
Tambores falantes são reais Foto:Shutterstock

Em 24 de maio de 1842, o capitão inglês William Allen comandava um vapor próximo à foz do Rio Níger, na atual Nigéria. Era o final da catastrófica expedição organizada pelo parlamentar Foxwell Buxton com o nobre propósito de convencer os chefes tribais a pararem de vender escravos - e o não tão nobre assim de mapear a região para exploração e início de acordos comerciais. Um terço da tripulação europeia havia padecido, quase todos por doenças tropicais. Em sua cabine, Allen fazia perguntas sobre o rio a um navegador nativo, a quem, sem conseguir pronunciar o nome original, apelidou de “Glasgow”. Ouviu-se então o som dos tambores, o que costumava ser enervante para os europeus. Eles não só achavam a música rústica e desconcertante como sabiam, desde os primeiros contatos com os povos da região - pelos portugueses no século 15 -, que podiam ser usados como um chamado de guerra.

Glasgow ficou emudecido ao ouvir a música. Abordado pelo capitão, ele respondeu num inglês quebrado: “You no hear my son speak?” (algo como “Você não escuta meu filho falar?”). Perplexos, os ingleses disseram não ouvir voz nenhuma. Glasgow continuou: “Drum speak me, tell me come up deck” (“tambor fala mim, diz mim subir ao deque”). Surpreso, o capitão foi ao convés e deixou o africano na cabine, descobrindo que a música vinha de uma canoa ao lado do navio. Pediu então a seus intérpretes que dissessem ao nativo na canoa para transmitir mais mensagens. Glasgow entendeu e repetiu tudo perfeitamente.

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Mistério por um século

Logo a notícia do “telégrafo da selva” correria por toda a Europa. “Esses europeus falavam da 'mente nativa' e descreviam os africanos como 'primitivos' e 'animísticos'. Ainda assim, acabaram vendo que eles haviam atingido um antigo sonho de qualquer cultura humana. Ali estava um sistema de mensagens que era mais rápido que qualquer mensageiro a cavalo”, afirma o americano James Gleick, autor de A Informação. É bem verdade que os europeus tinham ouvido esses tambores pela primeira vez quase quatro séculos antes. E igualmente tinham escutado inúmeras vezes os nativos dizerem que aqueles instrumentos “falavam”. A questão é que ninguém tinha se dado conta de sua real capacidade. "Frequentemente, ficamos surpresos ao descobrir que o som do trompete é tão bem entendido em nossas evoluções militares; mas quão pequeno é isso perto do resultado atingido por esses selvagens sem educação”, registrou o capitão William Allen.

A descoberta corresponde ao início da era do imperialismo tardio, a “Corrida pela África”, na qual as potências europeias dominaram todo o continente, exceto por Etiópia e Libéria. Logo, milhares de missionários, comerciantes e militares tomaram contato com os diversos povos da África Ocidental, como os do Congo e Camarões, que faziam uso dos tambores. Entre 1823 e 1874, os ingleses sofreram diversas derrotas para o Império Ashanti, de Gana - porque era quase impossível surpreendê-los diante da comunicação via tum-tum-tum. Em 1885, a notícia da derrocada inglesa em Cartum, no Sudão, já era comentada um dia depois no outro lado do continente, em Serra Leoa. Em 1901, missionários e oficiais ficaram admirados com africanos em áreas remotas prestando suas condolências pela morte da rainha Vitória, poucos dias depois do ocorrido.

Iorubá e os "tambores falantes" Wikimedia Commons

Mas o “código” dos tambores permaneceu um mistério. Não que os nativos fizessem segredo. Quase todos conseguiam entender as mensagens sem dificuldade e, ao serem questionados, prontamente explicavam o que eles “falavam”.

Tambores tagarelas

E não só falavam. Eram bem eloquentes. Em 1935, o missionário Roger T. Clarke registrou um anúncio de um funeral por tambores, no Congo Belga:

De manhã, ao amanhecer, não queremos reuniões para o trabalho, queremos um encontro de música na beira do rio. Homens que moram em Bolenge, não saiam para a floresta, não saiam para pescar. Nós queremos um encontro no rio, de manhã, ao amanhecer.

Clarke esteve próximo de decifrar aquela prévia rudimentar de mensagem instantânea. Para ele, não se tratava de transmissão de sílabas, mas do tom da linguagem. O tom é bem limitado nos idiomas ocidentais. Quando fazemos uma pergunta (“há um leão no arbusto?”) mudamos a frequência (isto é, falamos mais fino) e pronunciamos de modo diferente de uma afirmação (“há um leão no arbusto”). Em línguas como o mandarim, cantonês e as da família nígero-congolesa, da África Ocidental, o tom é usado para diferenciar palavras formadas pelas mesmas sílabas. No lokele, do Congo, a frase “alambaka boli” pode significar “ele olhava da beira do rio” ou “ele fervia sua sogra”, conforme a tonalidade.

Uma mensagem assim, convenhamos, é ambígua demais para fazer sentido. Por isso, Clarke foi recebido com ceticismo. Foi preciso alguém tonar-se “nativo” para finalmente entender o mistério. O missionário inglês John F. Carrington chegou ao Congo Belga em 1938 e passou a viver entre os lokeles. Ele se tornou tão proficiente naquela linguagem - e nos tambores - que os locais passaram a dizer que Carrington só podia ser um deles encarnado num branco por acidente. A partir de 1944, o missionário publicou os primeiros livros definitivos sobre os instrumentos falantes, corroborando a tese de Clarke. As mensagens funcionam, sim, graças ao tom, mas com um adendo importante: elas precisam ser prolixas, verborrágicas. O recado “venha para cá”, em lokele, era transmitido assim:

Faça seus pés voltarem pelo caminho que vieram, faça suas pernas voltarem pelo caminho que vieram, plante seus pés e pernas abaixo, na vila que pertence a nós.
Tambores eram usados como forma de comunicação Wikimedia Commons

Os tamboristas usavam frases feitas, quase sempre muito rebuscadas, para evitar a imprecisão. Uma palavra quase sempre era acompanhada de uma frase decorada. Os tambores “são uma forma de literatura, não música”, afirma a antropóloga Ruth Finnegan, da Open University (Reino Unido). Um gênero bastante peculiar, “frequentemente subestimado”, de acordo com a pesquisadora. E bastante efusivo.

Por mais de um século, os ocidentais ouviam as batidas e sabiam que queriam dizer algo, porém não conseguiam notar o óbvio: que elas transmitiam a língua falada diretamente. Não existia, portanto, um “código”. Vindos de uma cultura na qual o tom não é importante no falar e a escrita é a principal forma de comunicação a distância - sem contar que tinham inventado um código percussivo próprio, o morse -, os europeus estavam surdos diante da simplicidade eficiente do método milenar africano.

Pena que tenham entendido tão tarde. “Logo havia pessoas para quem o caminho da tecnologia das comunicações saltou direto do tambor ao telefone celular”, afirma James Gleick. Hoje, a maioria dos habitantes da África Ocidental não entende mais os tambores, e é difícil encontrar jovens dispostos a manter viva a tradição.

Saiba mais

A Informação, James Gleick, Companhia das Letras, 2013.

Oral Literature in Africa, Ruth Finnegan, Open Book Publishers, 2012.

Fábio Marton


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