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Tebas: estátua do escravizado que comprou a alforria será inaugurada em São Paulo

Tebas foi um grande e famoso arquiteto da cidade. A impressionante ação que levanta o monumento faz parte do projeto Vozes Contra o Racismo

Giovanna de Matteo Publicado em 27/10/2020, às 12h48

A Matriz da Sé, década de 1860, no livro 'Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata'
A Matriz da Sé, década de 1860, no livro 'Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata' - Divulgação / Militão Augusto de Azevedo

"Esse monumento simboliza uma nova postura do poder público para com as memórias apagadas na cidade que são essenciais de atenção e reconhecimento". Essa foi a nota divulgada por uma secretária da gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), a respeito da decisão que levantará uma estátua de Tebas na cidade de São Paulo.

A decisão foi bem vista dado aos diversos ataques no mundo todo às estátuas que homenageiam colonizadores, bandeirantes, escravocratas e figuras ligadas ao racismo. São Paulo, por sua vez, sai á frente inaugurando um monumento que remete a história de Joaquim Pinto de Oliveira, um homem escravizado do século 18, mais conhecido como Tebas, que comprou sua liberdade ao trabalhar como arquiteto.

A obra é de autoria do artista plástico de Minas Gerais Lumumba Afroindígena, com ajuda da arquiteta Francine Moura. A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo custeou a arte com um valor de R$171 mil. A peça será entregue no dia 20 de novembro, em ato de homenagem ao Dia da Consciência Negra.

Apesar disso, a inauguração oficial só será realizada no dia 5 de dezembro, durante a sexta edição do projeto Jornada do Patrimônio. Segundo a prefeitura, o evento tem o objetivo de relembrar as memórias da capital paulista.

A estátua produzida através de materiais como inox, ferro e concreto ficará exposta na Praça Clóvis bevilaqua, localizada entre as Igrejas da Sé e do Carmo, que sofreram intervenções do arquiteto. Os trabalhos de Tebas nos dois templos o renderam dinheiro suficiente para conseguir sua alforria.

Ele viveu entre 1721 e 1811 e foi trazido de Santos para o centro. Seu primeiro senhor foi o pedreiro português Bento de Oliveira Lima. Foi com ele que seus trabalhos com a arte da cantaria ficaram conhecidos, sendo muito requisitado para fazer as fachadas das Igrejas Católicas.

O monumento mostrar a importância dele para a cidade, além de resgatar a memória do sucesso desse homem e retratar o apagamento de sua história. O seu apelido, Tebas, já demonstra seu talento: significa "alguém de grande habilidade", em quimbundo, língua falada pela etnia africana bantu. Ainda em março de 2018, ele recebeu oficialmente o título de arquiteto pelo sindicato estadual.

A obra também adentra ao projeto Vozes Contra o Racismo, que reúne ações antirracistas na cidade metropolitana. O programa teve início em julho deste ano com um incentivo a artistas que enfeitaram a capital com grafites, filmes, fotografias e projeções sobre preconceito.

"Trata-se de uma pauta internacional que objetiva valorizar personalidades negras apagadas da memória social e uma forma de enfrentamento do racismo estrutural que existe no Brasil e no mundo", disse a secretária citada no começo do texto.