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Notícias / Personagem

Tom Justice, o ciclista que abandonou o esporte para roubar bancos

Mesmo tendo treinado com a equipe olímpica de atletismo dos EUA, Tom decidiu usar sua bicicleta para cometer crimes

Fabio Previdelli Publicado em 29/05/2022, às 07h00

Tom Justice competindo - Divulgação/ Arquivo Pessoal
Tom Justice competindo - Divulgação/ Arquivo Pessoal

O esporte muda pessoas, muda vidas. Isso é um fato. Não é raro o caso de atletas que conseguiram tudo o que tem por meio de práticas esportivas e hoje se propõem a ajudar os mais necessitados, ou até mesmo aqueles que saíram de cenários marginalizados e conquistaram o mundo

Mesmo assim, para toda regra há uma exceção. E no caso do ciclismo, esse ponto fora da curva é Tom Justice. Este morador de Chicago teve a oportunidade de treinar com a equipe olímpica de atletismo dos Estados Unidos, mas deixou tudo por algo que lhe dava mais adrenalina que superar competidores em suas bicicletas: fugir de assaltos à bancos. 

Tom, o atleta 

Segundo matéria da BBC, Tom Justice sempre mostrou aptidão para o esporte. Aos 13 anos, descobriu o amor à primeira vista quando presenciou atletas treinando no velódromo de seu bairro, em Libertyville. O ciclismo havia tocado seu coração. 

Tom quando criança/ Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

A partir daí, foi só questão de tempo para Tom se destacar. Sua dedicação era tamanha que Justice conquistou um espaço para treinar com a equipe olímpica de atletismo dos Estados Unidos. Seu sonho havia alcançado um degrau inimaginável para muitos. 

Mas tudo mudou depois que ele se formou na faculdade. Àquela altura, não enxergava mais com o mesmo desejo o esporte. Muito pelo contrário, passou a acreditar que o treino para se tornar um atleta de nível olímpico era muito trabalhoso. Assim, desistiu de tudo e resolveu voltar para Chicago. 

Nessa fase, Tom se tornou obcecado pelo filme ‘Caindo na Real’ (1994) — principalmente pelo personagem Troy, vivido por Ethan Hawke, que representa o ideal de liberdade e desprendimento. Após largar a faculdade, Troy passa a sobreviver de subempregos, estando à margem da sociedade.

Assistia repetidamente e acho que, infelizmente, me fez internalizar uma imagem", disse à BBC. 

Tom, o assaltante

Justice havia chegado ao ponto em que nada em sua vida saiu como o imaginado, mas ainda assim ansiava por emoção, adrenalina e sucesso. É bem verdade que ele também decidiu que não seguiria um trabalho constante que pudesse lhe levar a realização de seus objetivos.  

Como alternativa, decidiu se inspirar novamente nos cinemas, agora com o clássico ‘Fogo Contra Fogo’ (1995). Desta vez, Tom resolveu encarnar a vida de Neil McCauley (Robert De Niro), um assaltante de bancos. 

Tom quando adulto/ Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

O dia 23 de outubro de 1998 ficou marcado como a data em que ele cometeu seu primeiro crime. Por sua habilidade ciclística, a fuga em cima de uma bicicleta parecia algo fácil para alguém que quase foi atleta olímpico. 

Os assaltos ocorriam aos montes. Todos da mesma maneira simplista, com Tom mostrando um bilhete para uma atendente de caixa: "Isso é um assalto. Coloque todo o dinheiro que tem na sacola."

Após o saque, ele saía tranquilamente pela porta principal, sem nenhum alarde. Sem arma. Apenas na cara e na coragem. Um fato curioso é que, com medo de ser rastreado pelo número de série das notas, ele ficava apenas com algumas cédulas e jogava todo o resto na lixeira. 

Em 2000, segundo a BBC, Justice roubou o LaSalle Bank. Entretanto, dias depois, a polícia encontrou todo o dinheiro, cerca de 4 mil dólares, em uma lixeira no parque Gilson. Vezes ou outras, ele jogava a grana do furto nas ruas de bairros mais pobres. 

Mas a adrenalina dos roubos logo deixou de ser suficiente para Tom. O ex-atleta havia sido apresentado à cocaína. Os efeitos da droga o fizeram querer experimentar outras substâncias ilícitas. É assim que o crack entra em sua vida também. Logo os roubos passaram a servir como meio de sustentar seu vício. 

O motivo pelo qual eu havia começado a fazer isso foi para a sarjeta. Ali eu era apenas uma pessoa comum e horrível que estava roubando bancos para conseguir drogas. Totalmente egoísta”, diz. 

A prisão

A vida de Tom só começou a desmoronar depois do 26º roubo à banco. Após ser parado por policiais, que pediram para averiguar o que ele levava em sua mochila, Justice fugiu por saber que o conteúdo da bolsa lhe incriminaria. 

Após uma intensa perseguição, conseguiu despistar os policiais, mas o fim de sua liberdade era apenas questão de tempo. Afinal, se viu obrigado a deixar sua bicicleta para trás — que era personalizada e tinha a cor laranja brilhante. Um exemplar único. 

A bicileta de Tom/ Crédito: Scott Crosby

"Acho que estava começando a entender que isso tudo era uma roubada, que a polícia viria atrás de mim", declarou. "A coisa não deveria ter ido por esse caminho, mas é o que acontece quando você começa usar drogas. E é um alerta quando a polícia está tentando atirar em você".

Meses depois, enquanto voltava para a casa dos pais em seu carro, foi abordado por viaturas à paisana. Preso, não só confessou seus crimes como também foi responsável por avisar seus familiares sobre sua detenção. 

Foi horrível saber que seriam eles que teriam que encarar nossos vizinhos e amigos. Eu estava incrivelmente envergonhado. E ainda sinto isso até hoje”, recorda. 

Por ter roubado algo em torno dos 129 mil dólares, algo na casa dos R$600.000, Tom Justice foi condenado a 11 anos de prisão. Ao todo foram 26 roubos em três estados diferentes dos Estados Unidos. 

Mesmo assim, não via o cárcere com maus olhos. "Isso vai ser ótimo", pensou. "Eu finalmente vou estar com a minha turma. Pessoas com a mesma mentalidade. Mas chegando lá, a realidade foi bem diferente."

Tom então caiu na real e enxergou o quanto seus atos afetavam a vida de outras pessoas, principalmente os trabalhadores que pensavam que poderiam morrer a cada nova abordagem que ele fazia. "Eu me senti muito envergonhado com isso, me senti culpado porque nunca havia parado para pensar do ponto de vista deles."

Uma nova vida

Tom Justice acabou sendo solto em 2011. Desde então, não apenas voltou com sua antiga namorada, Bari, como também passou a se dedicar ao trabalho como cuidador de idosos e doentes.

Tom junto a sua bicicleta/ Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

Devido a tudo que viveu e toda a experiência que teve, ele acredita que o cárcere mudou sua vida — para melhor, é claro. "Eu cresci como pessoa na prisão. Então, apesar de tudo, funcionou. E sou grato por isso."