'Torre de Pisa' de Mosul é demolida pelo Estado Islâmico

Mesquita icônica tinha mais de 800 anos; mas entidade terrorista culpa os EUA pela destruição

Thiago Lincolins Publicado em 22/06/2017, às 12h53 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

O 'corcunda' em 2016, já não em seu auge
O 'corcunda' em 2016, já não em seu auge - Wikimedia Commons

A mesquita Al-Nuri, em Mosul, era tão icônica que deu à cidade o seu apelido em árabe: al-Hadba, "o corcunda". É assim que os habitantes carinhosamente se referiam a um de seus minaretes, de 45 metros, que, já no século 14, nos relatos do viajante Ibn Batuta, era inclinado como hoje. Havia até uma lenda para explicar a inclinação: o profeta Maomé teria passado voando por ali em sua viagem ao Céu, fazendo a torre se curvar em respeito. 

Em tempos recentes, porém, ela ganhou fama por uma razão muito menos simpática. A mesquita foi onde Abu Bakr al-Baghdadi líder do Daesh - o infame Estado Islâmico - fez em 2014 sua única aparição televisionada, afirmando que era o "Califa" - isto é, o líder de todos os islâmicos do mundo. 

Ontem, após 841 anos de existência, ela deixou de ser. Isto é o que sobrou dela, em foto aérea do Exército do Iraque:

A mesquita em destroços após o bombardeio / Reuters

O Estado Islâmico não é estranho à destruição de patrimônio histórico, colecionando um grande currículo que incluiu a tentativa de dinamitar as ruínas da civilização de Palmira, na Síria, e diversas mesquitas xiitas. Pode soar estranho eles destruírem uma mesquita com supostamente tanto significado para eles próprios, mas o caso é que, dentro do radicalismo salafita, apreciar um prédio histórico pode ser visto como uma forma de idolatria (mais detalhes no link abaixo). 

+ Por que fundamentalistas islâmicos destroem mesquitas?

Mas esta, eles não assumem. Em um comunicado oficial, culparam os Estados Unidos pela destruição da mesquita e seu minarete. Imediatamente os militares dos EUA negaram. "Nós não atacamos essa área", diz o coronel das Forças Armadas dos EUA John Dorrian, à Reuters. 

De acordo com o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, a destruição da mesquita pelo Daesh é uma declaração oficial de derrota. Desde novembro do ano passado, o governo do Iraque e a organização terrorista travam a Batalha de Mosul, pelo controle da cidade. Que, pelas informações que chegam, o Estado Islâmico está perdendo. 

A tristeza dos iraquianos se deve principalmente porque na próxima semana, dia 25 ou 26, acontece o Eid al-Fitr, festival que marca o fim do Ramadã (o mês de jejum muçulmano), a mesquita tem extrema importância na celebração.  "Este é um crime contra o povo de Mosul e todo o Iraque, é um exemplo de por que essa brutal organização deve ser aniquilada", diz Joseph Martin, general do exército das forças armadas dos Estados Unidos, à Al Jazeera.