Notícias » Civilizações

Transformação humana foi moldada por mudanças climáticas ao longo dos últimos 12 mil anos, aponta estudo

Mudanças ocorridas na Península Arábica ensina como os humanos superaram obstáculos para permanecerem abrigados na região

Fabio Previdelli Publicado em 08/04/2020, às 11h40

Escavação de uma antiga lareira em Jebel Oraf
Escavação de uma antiga lareira em Jebel Oraf - Palaeodeserts Project

Atualmente, a Península Ibérica é uma das regiões mais áridas do mundo, mas nem sempre foi assim, o local já passou por fases mais secas ou húmidas em diferentes tempos. Para entender melhor essas mudanças no clima, arqueólogos do Instituto Max Planck para Ciência da História Humana, em Jena, na Alemanha, fizeram o primeiro estudo sobre a interação homem/ambiente na Arábia.

Com a pesquisa, eles evidenciaram que os povos antigos se comportavam de maneira diferente às variações climáticas, tudo isso baseado na região em que eles viviam e nos recursos sociais, ambientais e tecnológicos que tinham a disposição.

Por volta de 10 mil anos atrás, a Arábia passou por um período de aumento no volume de chuvas, o que proporcionou a expansão de lagos e vegetações que foram de grande valia para os assentamos humanos na região. No entanto, nos milênios posteriores, o período de seca ocasionou drásticas mudanças no ecossistema.

Vista atual do oásis de Jubbah / Crédito: Palaeodeserts Project

 

No norte da Arábia, a existência de aquíferos rasos e praias sazonais ajudou para que a sobrevivência humana atravessasse as alterações climáticas. A presença de oásis no deserto — incluindo um na cidade de Jubbah —, sustentou a ocupação na região. Registros arqueológicos indicam que os humanos estiveram presentes no deserto vizinho de Nefud em diversos momentos durante um período de 9 mil anos.

Um abrigo de pedras de Jebel Oraf, às margens do oásis de Jubbah, que continha mais de 170 lareiras e sinais da criação de gado, corroboram com o pensamento de que o local recebeu habitações de longo prazo na região.

Segundo Maria Guagnin, coautora do estudo, “as populações pastoris ocuparam a região repetidamente ao longo de milênios, contando com a mobilidade e um amplo conhecimento da paisagem e de seus recursos para sobreviver às mudanças climáticas e às secas”.

Segundo os pesquisadores, evidências apontam que o oásis de Jubbah também abrigou pessoas durante o chamado “Milênio Negro” — um período árido que durou entre 5.900 e 5.300 anos atrás. Neste tempo, pensa-se que grande parte da Arábia ficou inabitável.

Em outros lugares ao norte da península, os antigos habitantes ergueram muros ao redor do oásis, eles também foram importantes na construção das características da paisagem para capturarem o escoamento da água, além de começarem a escavar poços.

“Em conjunto, esses achados indicam que a presença de extensos aquíferos rasos, combinados com alta mobilidade populacional, estratégias de gestão da água e transformação econômica, proporcionou oportunidades para a sobrevivência em longo prazo das populações do norte da Arábia”, explica o coautor do estudo Huw Groucutt.

A compreensão entre as mudanças climáticas regionais e as adaptações que permitem a resiliência humana pode prover importantes ensinamentos para as sociedades modernas. “Por milênios, afastar-se das regiões mais afetadas foi a principal resposta humana às severas crises climáticas”, diz o principal autor do estudo, Michael Petraglia.

Arte rupestre encontrada na região / Crédito: Palaeodeserts Project

 

“Mas, com o aumento do tamanho da população e o aumento do investimento, as opções de mobilidade humana diminuíram com o tempo. Da mesma forma, o rápido esgotamento de aquíferos nos últimos anos destaca a necessidade de soluções sustentáveis ​​para enfrentar os desafios ambientais”.

Os arqueólogos enfatizam que aderir medidas imediatas para lidar com os problemas climáticos é de suma importância para o mundo. “Às vezes, as pessoas descartam a mudança climática como algo com o qual não precisamos nos preocupar muito, porque já a encaramos antes”, observa Nicole Boivin, diretora do Departamento de Arqueologia do Instituto e coautora do estudo.

“Mas os cenários que enfrentamos agora são sem precedentes. Não apenas as mudanças climáticas causadas por seres humanos são mais imprevisíveis, mas as opções disponíveis para as sociedades hoje são muito mais limitadas do que aquelas que permitiram que nossos ancestrais resistissem às mudanças passadas.”