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Dos palácios até a mesa de jantar: A origem dos pronomes 'tu' e 'você'

Heranças do galego-português, os termos passaram por grandes mudanças antes de se tornarem os que conhecemos hoje

Maria Carolina Cristianini Publicado em 15/10/2018, às 10h00 - Atualizado em 13/06/2021, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa de dicionário
Imagem meramente ilustrativa de dicionário - Divulgação/ Pixabay/ StockSnap

Muito além de representarem diferentes fomas de se dirigir a alguém, os termos 'tu' e 'você' já se tornaram traços culturais das regiões brasileiras. Nesse sentido, registros das formas de tratamento 'tu' e 'vós', ambas com origem no latim, aparecem antes da língua portuguesa, no indioma galego-português, em textos do início do século 13.

Naquela época, os termos eram as duas únicas formas de se referir à segunda pessoa. Especialistas apontam, contudo, que o termo 'tu' era mais informal, usado dentro das famílias, enquanto 'vós', mais respeitoso, era utilizado no tratamento da realeza.

Foi só por volta de 1500, depois da separação entre português e galego, que modificações começaram a aparecer em 'vós', como 'vossa graça', 'vossa excelência' e 'vossa mercê'. Pelo uso mais frequente, 'vossa mercê' se tornou alvo de mais modificações fonéticas e semânticas. Assim, percorreu os seguintes estágios: 'vossa mercê' à 'vossemecê' à 'vosmecê' e, por fim, à 'você'. 

Já no fim do século 17, 'você' aparece nas conversas em família, abandonando a origem respeitosa — que fica por conta de expressões como 'vossa excelência' ou 'senhor'.

No Brasil, segundo o linguista Paul Teyssier, em 'História da Língua Portuguesa', “o vós desapareceu, mas o tu sobrevive apenas no extremo Sul e em áreas não suficientemente delimitadas do Norte”. Hipóteses para tal falam em afirmação de valores regionais — e, em Santa Catarina, da influência açoriana.

Sem qualquer variação desde sua origem, o 'tu' vem do latim idêntico. É provável que tenha surgido no protoindo-europeu, falado há cerca de 5 mil anos, de onde também veio, entre outros idiomas, o sânscrito.

Basta conhecer o significado do famoso 'namastê' para constatar semelhanças entre o latim e o sânscrito demonstradas pelo 'tu'. O termo é formado pela junção de 'namah' e 'te' — 'namah' quer dizer “inclinar a cabeça” ou “curvar-se” e 'te' é um primo do latim 'tu'.

Veja a seguir a divisão do Brasil, através da pesquisa do Atlas Linguístico do Brasil:

Crédito: Divulgação/ Marilia Filgueiras

Algumas curiosidades no Atlas: catarinenses e maranhenses empatam em segundo lugar uso do 'tu'. Amostras analisadas em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro indicam o uso apenas do 'você', enquanto Porto Alegre é a capital que mais usa o 'tu', sendo que a cada 10 habitantes da região, 6 preferem o pronome. 


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