Ninjas: os antissamurais

Mestres na camuflagem e na improvisação, eles eram contratados para atividades típicas de guerrilha na luta pelo poder entre clãs rivais

Daniel Leb Sasaki Publicado em 30/11/2016, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Ninja subindo as paredes de um castelo, gravura do século 19
Ninja subindo as paredes de um castelo, gravura do século 19 - Katsushika Hokusai, 1817

Em 1185, teve início no Japão um período histórico conhecido como xogunato, no qual o imperador tinha uma função decorativa e o poder de fato estava nas mãos de um general supremo, o xogum. Esse regime militar durou quase 700 anos e marcou a ascensão da elite guerreira do país, os samurais. Foi durante esse período que surgiu também um outro grupo de guerreiros, praticamente à margem da sociedade: os ninjas. Ao contrário dos samurais, que se orgulhavam de ser os guardiões dos senhores feudais e seguiam o bushidô – código que estabelecia normas rígidas de conduta, moral e honra –, os ninjas agiam à sombra e tinham suas próprias regras. Na luta pelo poder entre clãs rivais, eles eram contratados para atividades típicas de guerrilha, como espionagem, sabotagem e assassinato. Ganharam, por isso, a fama de mercenários.

Trata-se de uma fama injusta, segundo Fernando Cardoso, instrutor da Bujinkan Honbu Dojo, escola de São Paulo que ensina o ninjutsu, a arte marcial baseada nas técnicas desenvolvidas pelos ninjas. “Como em qualquer sociedade, no Japão existiam maus elementos dos dois lados. Cometiam crimes de todo tipo, mas eram uma minoria”, afirma Cardoso. “Os ninjas eram os rebeldes de sua época, uma força de resistência ao governo, que oprimia os clãs.”

Mais do que treinamento para a luta, o ninjutsu incorpora rituais de cultura e fé, com elementos do budismo e xintoísmo. Mas pouco se conhece sobre as regras e preceitos dos ninjas, pois os detalhes são até hoje mantidos em segredo. Sabe-se que os adeptos dedicavam pelo menos oito horas diárias à preparação para a guerra. “Existem descrições do treinamento, mas isso é muito bem guardado”, afirma Cardoso. Segundo ele, os Torah Maki (ou “documentos do tigre”, que contêm detalhes da história, linhagem e técnicas) estão nas mãos de Masaaki Hatsumi, mestre japonês treinado pelo último ninja de verdade.

Sujeito oculto

A palavra ninja significa, literalmente, “aquele que se oculta”. Ela reflete uma das principais habilidades desses guerreiros: agir furtivamente. Para isso, eram importantes o disfarce e a camuflagem. As vestimentas pretas, usadas em trabalhos noturnos, ou brancas, em missões na neve, garantiam virtual “invisibilidade”. Mas havia muitas outras técnicas para se esconder. Ele podia ficar durante horas ou dias num determinado local, comendo pouco, à espera de sua presa.

Os trajes do dia-a-dia também eram importantes para a segurança pessoal. Os ninjas não usavam uniforme porque, se fossem capturados, seriam imediatamente reconhecidos. Suas roupas conferiam-lhes anonimato, rapidez e leveza de movimento na hora de lutar. “Os ninjas também eram ótimos ilusionistas. Na época, as pessoas acreditavam em coisas inexplicáveis que hoje são facilmente entendidas à luz da ciência”, diz Cardoso.

Duas das principais vantagens dos ninjas eram a criatividade e a improvisação. Ao contrário dos samurais, que portavam espadas, os ninjas lutavam com o que tinham à mão. Um bom exemplo é a foice utilizada pelos camponeses na colheita de arroz. Acrescentando uma corrente a ela, o instrumento de trabalho transformou-se numa arma letal chamada kusari gama. Um simples bastão de madeira deu origem ao boken, uma poderosa espada. E as estrelas de arremesso, também usadas na luta corpo-a-corpo, eram chamadas de shuriken. Alguns ninjas explodiam bombas de gás para facilitar suas fugas. Outros usavam uma espécie de luva com garras nas palmas, para facilitar as escaladas.

Muitas dessas armas aparecem hoje com freqüência em filmes, livros, quadrinhos e jogos de computador. Nessas histórias, em geral, os ninjas são retratados com poderes quase mágicos. Mas, na vida real, eles sumiram do mapa. À medida que o Japão se abriu para a influência do Ocidente, a demanda por seus serviços foi desaparecendo. “Da Era Meiji (1868-1912) para cá, os ninjas foram esquecidos porque não serviam mais para o governo”, comenta Cardoso. Os últimos registros de atividade ninja datam da Segunda Guerra Mundial.

 

Para saber mais

Livro

The Way of the Ninja: Secret Techniques, Masaaki Hatsumi, Oxford University Press, 2004

O mais conhecido mestre ninja da atualidade explica a essência de sua arte marcial.