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Carlos Lamarca: Cartas raras do Capitão Vermelho

Em correspondências trocadas com a esposa, Lamarca desejava que seus filhos fossem criados com liberdade e influências comunistas, com obras de Marx, Lenin, Trotski, Fidel Castro e no espírito de Che Guevara

Alana Sousa Publicado em 09/12/2019, às 12h00

Carlos Lamarca, guerrilheiro da luta armada contra a ditadura
Carlos Lamarca, guerrilheiro da luta armada contra a ditadura - Wikimedia Commons

Carlos Lamarca foi um dos mais intrigantes guerrilheiros da ditadura militar. Começou sua carreira como soldado do exército brasileiro, onde após a instauração do golpe passou a exercer a função de Capitão. Entretanto, após a criação do AI-5, desertou de suas obrigações militares e se tornou um dos líderes do movimento de luta armada contra o regime, VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

Lamarca é lembrado como um dos maiores símbolos de resistência contra a ditadura. Viveu muitos anos na clandestinidade, planejando ações na luta armada. Com a ajuda de Carlos Marighella, enviou a esposa, Maria Pavan e os filhos, César Pavan Lamarca e Cláudia Pavan Lamarca, para Cuba. Durante os anos em que viveram separados, até o assassinato de Lamarca, em 1971, a comunicação era feita por cartas.

Confira abaixo, na íntegra, uma das emocionantes cartas que Lamarca escreveu para os filhos.

Carlos Lamarca – 26 de Julho de 1969

Aos meus filhos

Vivo falando de vocês com meus companheiros, eles estão longe dos filhos também e falam nos filhos deles. Um só é o desejo de todos nós, é que nossos filhos sejam revolucionários. O que é um revolucionário? É toda a pessoa que ama todos os povos, ama a Humanidade, tem uma imensa capacidade de amar, ama a justiça, a Igualdade.

Mas ele tem de odiar também, odiar os que impedem que o revolucionário ame, porque é uma necessidade amar. Odiar aos que odeiam o povo, a Humanidade, a Justiça social. Odiar aos que dominam e exploram o povo, odiar aos que corrompem, ameaçam e alienam as mentes, aos que degradam a Humanidade, aos injustos, falsos, demagogos, covardes.

O revolucionário ama a Paz, faz a guerra como instrumento para ter a Paz, a Paz justa, sem exploração do homem pelo homem. O revolucionário tem que ser capaz de todos os sacrifícios pela causa, de até se separar dos seus filhos para libertar todos os filhos, de se separar dos pais porque outros pais precisam dele. Quando vocês sentirem saudades de mim, lembrem-se que aqui no Brasil existem muitas crianças que passam fome, que andam descalças, sem escolas, que sofrem e veem seus pais sofrerem.

Lembram-se quando conversei com vocês no quarto e pedi a vocês que deixassem eu lutar para acabar com isso. Eu lembro bem que a Claudinha bateu palmas e o César disse: “Muito bem, papai”. Combinamos que tínhamos de ficar longe um do outro, e que guardaríamos no coração a esperança de nos encontrarmos novamente.

Vocês são felizes porque a mãe e o pai são revolucionários e vocês têm de ser também. Amem muito a mamãe, eu não posso beijá-la, todos os dias beijem duas vezes a ela, uma vez por mim. Tenho tantas saudades de vocês mas não choro, não beijo fotografias, encho o peito de ar e pego firme no meu trabalho. Penso em vocês e em todas as crianças, então ganho forças para lutar.

Quando sentirem saudades, então estudem mais, perguntem tudo que não entenderem, perguntem sempre o porquê das coisas — perguntar e pensar — ver se é certo, se não for, falem, discutam — ver se é justo, se não for, lutem para mudar. Sejam disciplinados, façam somente o que for certo, justo. Ser disciplinado não é ser obediente, quem obedece tudo sem pensar não presta.

Como vai o treinamento de tiro? Não se esqueçam de colocar algodão no ouvido, e também de olhar sempre pra mira e puxar o gatilho bem devagar. Já mandaram consertar a pistola de ar comprimido? Espero que pratiquem corrida, natação e todos os jogos. Alimente-se bem, vocês que tanto gostam de frutas devem estar satisfeitos, aí ninguém passa fome, não tem mendigos, aqui… Aí comem abacate na salada, com sal e azeite; gostaram?

Como vai o jogo de botão? Você, César, tem ensinado aos meninos? Seguem junto 29 bolinhas de cortiça, que fiz treinando a paciência, que eu tinha pouco, é preciso ser paciente, sem ser passivo, claro.

E você Claudinha, continua fazendo discursos? Como eu gostava, você vai ser uma grande agitadora.

Cuidem bem dos dentes para que possam mastigar bem. Não se esqueçam de cantar e dançar. O César gosta muito de desenhar e a Cláudia de pintar, procurem praticar bastante, procurem criar, não imitem ninguém.

Não chamem ninguém de senhor porque ninguém é senhor de ninguém. Mas ouçam os mais velhos e procurem fazer coisas melhor que eles, porque tudo que é novo é superior ao velho. Respeitem os mais velhos mas exijam que respeitem vocês — exijam mesmo.

Contei para os companheiros que o Cesinha usava nome de guerra e eles acharam engraçado. Já usei o nome César mas tive de mudar.

Não sei como acabar essa carta porque é como se estivesse conversando com vocês. Espero receber uma carta de vocês, se não for possível, continuarei pensando muito em vocês.

A maior alegria que vocês podem me dar é aproveitar muito o estudo, preparando-se para fazer a Revolução em qualquer país. Muitos beijos para a minha esposa querida e meus filhos, com todo amor, cheio de saudades.


Em outra correspondência o guerrilheiro escreveu para a esposa, Maria Pavan. A qual era apaixonado, e dedicou os últimos dias da sua vida na carta. O casal ficou junto de 1959 até a morte do Capitão em 1971.

Carlos Lamarca em treinamento / Crédito: Wikimedia Commons

 

Confira a carta apaixonada, na íntegra, abaixo.

Minha querida esposa

O meu pensamento vive voltado para essa ilha, constantemente, mas o dia de hoje se reveste de especial atenção, de meditação, o pensamento que aflora é iniciar - cumpre iniciar a luta. Ainda não recebi noticias.

A organização a que pertenço, a VANGUARDA ARMADA REVOLUCIONÁRIA- PALMARES ( VAR-PALMARES), que nasceu da fusão da Vanguarda Popular Revolucionária com o Comando de Libertação Nacional, não tem canal de comunicação com a ilha, só quem tem é o Marighela. Aí pensam que ele é o líder e o comandante da Revolução no Brasil. É engano, primeiro porque não tem qualidades para isso, é egoísta, personalista e desleal, e segundo porque a Organização dele (não tem nome — usa-se o nome dele) é mal estruturada; muitos militantes dele estão passando para a nossa organização.

A concepção brasileira da luta é a seguinte: quem imprime a luta no campo são as cidades. O fundamental é a luta no campo, mas, se ela iniciar e for derrotada no campo, a Organização bem estruturada nas grandes cidades, dentro de pouco tempo, pode reiniciar. A nossa Organização é a única que esta bem estruturada nas grandes cidades e já começamos organizar no campo. Antes não havia nada e nenhuma Organização sozinha poderia levar o processo a frente — agora vamos.

Muitas dificuldades nós vencemos, muitas outras encontraremos ainda pela frente, mas o fervor revolucionário e principalmente o exemplo do povo cubano nos impulsiona a frente. Na semana passada resolvemos o problema do dinheiro por dois anos.

Atacamos mais um quartel e pegamos mais armas, mas ainda precisamos de muita coisa. Não temos apoio nenhum do exterior, tudo temos de conseguir com muito sacrifício. Na semana passada caíram dois companheiros em São Paulo e nesta um no Rio. Estamos jogando um preço alto, mas não desanimamos — muita água vai rolar.

O imperialismo jogara sua ultima cartada na América latina aqui no Brasil e jogara tudo para não perder. Sabemos disso e temos por isso muita responsabilidade — não podemos errar.

Uma Organização esta apressada para começar de qualquer maneira para projetar um nome. A Revolução esta acima de qualquer nome — a propaganda de um nome não vai levar a Revolução à frente mas sim as ações consequentes, sem aventureirismo romântico da pequena burguesia.

Planejamos tudo e tudo faremos cientificamente, conscientes da nossa responsabilidade perante os povos e a História.

Diante de tantos problemas, conforta-me a certeza que vocês estão bem. Antes da ação no quartel, o sargento Vinditi e a esposa, Vanda (da cera), nos delataram no quartel, não acreditaram.

No jornal saiu que eu sou comunista, a culpa é sua. Você é a mulher misteriosa, culpada de tudo. Sabe por que eles dizem isso? Porque você não se misturava com as vagabundas esposas dos oficiais. A delação de Vanda impede que você venha para cá. Não venha porque eles estão apelando para tudo, torturam até crianças para que os pais falem. Espero que você compreenda as dificuldades que aí existem e procure se adaptar. Aí se vive com dignidade, não há mendigos famintos batendo nas portas, não há exploração do homem pelo homem.

Muitas são as saudades de você e dos nossos filhos, lembro-me de tantas coisas com uma dor no peito. Quando paro quieto e só, relembro dos sorrisos, das brincadeiras, dos passeios, de todo que era tão normal e agora é tão significativo. Quanta saudade, quanta saudade tem de sentir um revolucionário, quanto sacrifício precisa fazer além de sacrificar a esposa e os filhos.

Aqui muitos estão também assim e pior porque estão pertos e não podem se ver. O amor a esposa e aos filhos fica guardado e todo amor a humanidade se expande, transformando-se em energia para a causa revolucionaria. A vontade que explode é de apressar tudo e tudo jogar de uma só vez — mas isso tem de ser dominado, a inteligência tudo deve guiar.

O erro significa a morte e a morte de um indivíduo não pode ser comparada com a causa que não morre mas sofre refluxos. Perdemos o direito de morrer até que a morte seja um exemplo. Temos de, a cada momento, corrigir nossos defeitos de formação e quando começarmos a fazer isto, quanto esta sociedade capitalista imunda nos magoa e descobrimos um novo ser dentro de nós mesmos. Compare as crianças cubanas com as crianças daqui. Alegre-se com a alegria desse povo — um dia toda a América Latina sorrirá.

Invejo vocês que aí estão mas meu lugar é aqui. Falam no meu nome com extraordinária esperança. O nosso povo já foi traído por seus falsos líderes e, embora eu não tenha esta pretensão, sou uma esperança para o povo. A nossa Organização transformará esta esperança em realidade e não eu. O Che dizia "Não há libertadores, os povos libertam-se por si mesmos". A organização, como vanguarda desse povo, vai fazer com que o povo se liberte, custe o que custar.

Gostaria de rever vocês, de tocar-lhes com as mãos, de beijar, de ficar quieto abraçado a vocês nem que fosse por um minuto. Gostaria de vê-los sorrir, correr, falar, andar, pular e me contar tudo dessa ilha e desse povo. O pensamento flui para junto de vocês a todo momento, pensando em vocês também ganho forças.

Relembre sempre os momentos bons que convivemos, você me prometeu estudar, comece logo e não pare. Aprenda o método do ensino daí, observe tudo, estude marxismo diariamente e pergunte tudo que desconhecer.

Já fiz três cartas ao meu pai. O pessoal está com medo de ser preso mas nenhum parente nosso foi incomodado, embora estejam sendo vigiados e isto não deixa de ser pressão psicológica. Todos ficaram muito chocados mas agora acalmaram. Estão preocupados com você e as crianças. Na declaração a um jornal o pai perguntou por você e pelos netos, escrevi para eles que vocês estão aí estão bem, com as crianças na escola e você também estudando.

Falei que estou orgulhoso de você, que confio em você como mãe e mulher, que você evoluirá muito agora que está livre da prisão que era uma cozinha, um tanque, um jardim e uma casa para cuidar. Agora vejo você bem superior, desenvolvendo as suas qualidades.

Espero ansiosamente notícias de vocês para transmitir a eles. Diga ás crianças para escreverem para os avós que encaminharei, quero que escrevam em espanhol também. Veja na escola se é possível eles estudarem francês, estou sentindo falta e estudando também.

Vai ser difícil escrever para vocês novamente, tentarei constantemente, mas não se alarmem, não se preocupem.

Nosso amor está perpetuado nos nossos filhos, é preciso que eles sejam criados com liberdade, sem agressões, que eles pratiquem a defesa de seus pontos de vista, que façam respeitar suas opiniões, que amem o povo, que estudem a vida de Marx—Lênin—Engels—Trotski—Mao—Fidel—Ho Min—Giap—Boumediene e que sejam criados no espirito do Che.


Os relatos foram retirados do site Memórias da Ditadura, lançado em 2014 pelo governo Dilma Rousseff, para honrar as vítimas da ditadura e preservar a dolorosa memória dos anos de chumbo.


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