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Na pré-história, primos não eram escolhidos como parceiros

Pesquisa que contou com uma ferramenta computacional revelou um curioso dado sobre os nossos antepassados pré-históricos

Joana Freitas, arqueóloga Publicado em 24/10/2021, às 10h00

Cena do filme A Guerra do Fogo
Cena do filme A Guerra do Fogo - Divulgação

Segundo estudos recentes, que contou com uma nova ferramenta computacional que analisa DNA em busca de relações de parentesco, ficou claro que os nossos antepassados pré-históricos raramente escolhiam os seus primos como parceiros.

Deve fazer-se ressalva que esta prática é bastante comum na atualidade e que os casamentos entre primos de vários graus representam mais de 10% das uniões.

Esta ferramenta funciona detectando extensões de DNA que são idênticas nas duas cópias de DNA, uma herdada da mãe e outra do pai.

Quanto mais estreitamente relacionados estiverem os pais, mais longos e mais abundantes serão estes segmentos idênticos.

O estudo

Os Investigadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva localizado na Alemanha e da Universidade de Chicago decidiram reanalisar dados de DNA de humanos antigos que viveram nos últimos 45.000 anos. Tinham por objetivo descobrir o quão comum eram as relações parentais nas escolhas para procriar entre os nossos antepassados.

Tendo por base comparativa os dados atuais, os resultados foram surpreendentes: a percentagem é bastante inferior ao que ocorre hoje em dia.

Durante este estudo foram analisadas amostras pertencentes a 1.785 indivíduos. Destes, apenas 54 apresentaram evidências de que os seus pais eram primos. Traduzindo para percentagem, apenas 3% em contraponto com os 10% verificados na atualidade.

Espaço temporal

Outro dado a ter em conta é o espaço temporal, uma vez que estes 54 indivíduos não pertencem todos ao mesmo período, indicando que os acasalamentos entre primos eram esporádicos nas populações antigas estudadas.

Nomeadamente, entre populações mais recentes como os caçadores-coletores que viveram há mais de 10.000 anos, tais uniões foram a exceção.


Joana Freitas é formada em história na vertente de arqueologia pela faculdade de letras da Universidade do Porto e tem por áreas de maior interesse a evolução humana e a pré-história. Fora do campo de formação tem como disciplinas preferidas a antropologia e a paleontologia que no fundo complementam a sua formação de base.

Gosta de conhecer outros lugares, principalmente as suas pessoas, ler e escrever. Embora tenha participado em diversas escavações de vários períodos históricos de diversos países, o local arqueológico que mais marcou o seu percurso e onde esteve presente em várias campanhas diferentes foi castanheiro do vento, um recinto pré-histórico em Vila Nova de foz Côa, em Portugal.