Testeira

O impressionante barco de 4.000 anos escavado na antiga Uruque

Descoberta feita no em antiga cidade chama atenção

Joana Freitas, arqueóloga* Publicado em 09/04/2022, às 08h00

Registro da curiosa descoberta
Registro da curiosa descoberta - Julia Nador, Deutsches Archäologisches Institut

Arqueólogos de uma equipe internacional formada por alemães e iraquianos, através da Missão Iraquiana Alemã da Junta Estatal de Antiguidades e do Departamento de Oriente do Instituto Arqueológico Alemão - representando o Ministério das Antiguidades iraquiano e do Instituto Arqueológico Alemão (DAI), escavaram e recuperaram um barco que tem cerca de 4.000 anos de idade.

O achado foi feito fora da antiga cidade de Uruque, hoje Iraque, e estava sob ameaça de erosão e também sujeito à pressão do tráfego de automóveis que passava muito perto do local onde o barco foi encontrado.

O barco foi redescoberto pela primeira vez já no ano de 2018 na zona arqueológica em torno de Uruk-Warka durante um programa de documentação sistemática dos muitos restos de canais, campos agrícolas, povoados e locais de produção que floresciam nesta região há cerca de 1.000 anos antes da construção do barco.

Nessa altura, a capital da Suméria era a maior cidade do mundo com cerca de 80.000 habitantes na sua área metropolitana.

Uruque desempenhou um papel preeminente na urbanização inicial da Suméria em meados do quarto milênio a.C., surgindo como um importante centro populacional até ser abandonada pouco antes ou depois da conquista islâmica de 633-638 d.C.

Em 2018, o local foi fotogrametricamente documentado e já nessa altura foi revelado que as bordas da embarcação tinham sido acometidas pela erosão. Os arqueólogos passaram a monitorizar as condições deste achado até ao mês passado, altura em que se iniciaram as escavações.

O barco em questão foi construído recorrendo a material orgânico (juncos, folhas de palma e madeira) e foi completamente coberto com betume, uma substância criada através da destilação de petróleo bruto, que é conhecida pelas propriedades impermeabilizantes e adesivas.

A embarcação tem 7m de comprimento e 1,4m de largura. Não é mais espesso do que 1 cm em muitos locais. Os restos orgânicos desapareceram e são apenas visíveis como impressões no betume. Muito provavelmente o barco naufragou nas margens de um rio e ficou enterrado em camadas de sedimentos.

Durante os trabalhos de escavação e recuperação, o barco foi coberto com uma concha de argila e gesso para estabilização podendo assim ser recuperado quase por completo.

Seguindo a lei iraquiana das antiguidades, o barco foi levado para o Museu do Iraque em Bagdade para estudo científico e conservação. Está prevista a exposição do barco e a disponibilização dos conhecimentos sobre a sua construção e contexto.


Joana Freitas é formada em história na vertente de arqueologia pela faculdade de letras da Universidade do Porto e tem por áreas de maior interesse a evolução humana e a pré-história. Fora do campo de formação tem como disciplinas preferidas a antropologia e a paleontologia que no fundo complementam a sua formação de base.

Gosta de conhecer outros lugares, principalmente as suas gentes, ler e escrever. Embora tenha participado em diversas escavações de vários períodos históricos de diversos países, o local arqueológico que mais marcou o seu percurso e onde esteve presente em várias campanhas diferentes foi castanheiro do vento, um recinto pré-histórico em Vila Nova de foz Côa, em Portugal.