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Os primeiros humanos hibernavam?

Um dos mais relevantes sítios arqueológicos do mundo foi alvo de uma curiosa descoberta

Joana Freitas, arqueóloga Publicado em 26/09/2021, às 10h00 - Atualizado às 18h58

Imagem meramente ilustrativa da reprodução de um neandertal
Imagem meramente ilustrativa da reprodução de um neandertal - Imagem de sgrunden por Pixabay

Muitos animais usam essa estratégia com a chegada de invernos rigorosos, embora apenas seja possível entre os homeotérmicos, em outras palavras, os que possuem temperatura corporal constante. Os humanos se encaixam nesta classificação, entretanto, não manifestam atualmente essa capacidade.

Contudo, ossadas encontradas em Atapuerca, sítio arqueológico de relevância mundial localizado no norte de Espanha, podem contar uma história bem diferente, como divulgado em 2020.

Em uma das cavernas do complexo, Sima de los Huesos, foram encontrados vestígios de ossadas com mais de 400 mil anos que se admitem pertencer aos primeiros neandertais e aos seus predecessores, contendo características peculiares.

Padrões de lesões

Após análise, as ossadas apresentavam padrões de lesões e outros danos idênticos aos encontrados em animais que hibernam. As marcas estão associadas a doenças causadas pela carência de vitamina D, como a osteodistrofia renal ou raquitismo.

Sabemos que para a sintetização da vitamina D é necessária exposição solar e, as ossadas desses antecessores sugerem que eles passavam longos períodos em ambientes escuros e possivelmente hibernando. Assim alterando, portanto, o seu metabolismo. Esta queda da atividade metabólica dos hominídeos tinha como consequência interrupções sazonais no crescimento ósseo, algo que foi observado.

Em um artigo publicado na revista L’Anthropologie, Juan-Luis Arsuaga (que liderou os estudos) afirma que os nossos antepassados conseguiam entrar em “estados metabólicos que lhes permitiam sobreviver longos períodos em condições geladas, com fornecimento limitado de alimentos e reservas suficientes de gordura corporal”.

Escassez de alimento

Esta hipótese pode, em primeira análise, ser um pouco ficcional, no entanto, na realidade existem diversos dados que corraboram com a tese.

A escassez de alimento pode ter sido o fator chave que criou a necessidade de hibernar pois, a Península Ibérica era extremamente agreste e nos períodos marcados pelo frio seria quase impossível ter acesso a alimento em quantidade suficiente para suprir as necessidades.

Hoje em dia, temos povos que vivem em ambientes igualmente hostis, contudo, o acesso a alimentos como o peixe está garantido.

Estas descobertas irão certamente suscitar muita discussão. No caso de serem provadas irão alterar, mais uma vez a história da nossa evolução.


Joana Freitas é formada em história na vertente de arqueologia pela faculdade de letras da Universidade do Porto e tem por áreas de maior interesse a evolução humana e a pré-história. Fora do campo de formação tem como disciplinas preferidas a antropologia e a paleontologia que no fundo complementam a sua formação de base.

Gosta de conhecer outros lugares, principalmente as suas pessoas, ler e escrever. Embora tenha participado em diversas escavações de vários períodos históricos de diversos países, o local arqueológico que mais marcou o seu percurso e onde esteve presente em várias campanhas diferentes foi castanheiro do vento, um recinto pré-histórico em Vila Nova de foz Côa, em Portugal.