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A saga de Anatoly Dyatlov, o homem culpado pelo desastre de Chernobyl

Após Dyatlov tomar decisões controversas na tragédia, que ocasionou mais de 90 mil mortes, ele se disse alvo de "mentiras sem vergonha"

Vanessa Centamori Publicado em 16/07/2020, às 17h18

Zona após o Acidente Nuclear de Chernobyl/ Anatoly Dyatlov em entrevista de 1994
Zona após o Acidente Nuclear de Chernobyl/ Anatoly Dyatlov em entrevista de 1994 - Wikimedia Commons/Divulgação/Youtube

4 mil mortos, fora outros 93 mil que sofreram de câncer ao redor do mundo. Esses são os números aproximados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e da Academia Nacional de Ciências de Belarus para o Acidente Nuclear de Chernobyl, que aconteceu na madrugada de 25 para 26 de abril de 1986. 

Os capítulos posteriores à tragédia constaram com uma investigação do governo soviético, que julgou um total de seis pessoas. Dessas, três foram condenadas à prisão: Viktor Bryukhanov, diretor da fábrica; Nikolai Fomin, engenheiro-chefe e Anatoly Dyatlov, o número dois do engenheiro-chefe.

Sala de controle da Usina de Chernobyl /Crédito: Wikimedia Commons 

 

Dyatlov, por sua vez, foi quem carregou a maior culpa, sobretudo porque era o funcionário de maior patente, e quem estava no comando da supervisão do reator número 4 — aquele que explodiu e iniciou o desastre que marcou a História.

Mas o que será que ocorreu naquela terrível noite?

Um teste falho 

Anatoly Dyatlov se mudou para a cidade ucraniana de Pripyat em 1973 e já tinha experiência de 14 anos com reatores navais. Ele comandava as unidades número 3 e 4. No entanto, naquela noite de 1986, as autoridades russas disseram que ele não seguiu as as precauções básicas de segurança.

Mas, não teria sido só negligência, mas também inevitabilidade. Os cofres de segurança dos reatores não eram os mais adequados para impedir a saída de radiação e o treinamento das equipes era falho.

Moscou deu ordens para que Dyatlov fizesse um experimento que acabou causando o desastre. O russo, que era um chefe durão bem detestado, mandou que seus subordinados fizessem o teste. Ele consistia em verificar se o reator poderia funcionar com a eletricidade que as próprias turbinas geravam, mesmo quando a energia era cortada.

A Usina de Chernobyl antes do desastre /Crédito: Wikimedia Commons 

 

Isso era importante, pois, se desse certo, o equipamento poderia funcionar mesmo quando ocorressem falhas de eletricidade. Porém, tudo deu errado: após um erro do jovem engenheiro Leonid Toptunov e falhas nos equipamentos, logo depois das 12h, Dyatlov mesmo assim insistiu em continuar com o experimento, deixando protocolos de lado. 

 

O desastre

Segundo o relato do  vice-engenheiro-chefe, tudo estava bem na sala de controle até o momento em que o reator 4 explodiu, às 1h24 da manhã. Ninguém desconfiou que havia algo de errado até então, tanto que Dyatlov pensava que apenas um tanque de gasolina havia estourado no telhado no prédio quando as falhas começaram. 

Porém, gesso e poeira caíram sobre as máquinas na sala de controle. E os computadores indicaram que o vapor no reator não estava mais girando. As turbinas de água fria também não mais operavam. Dyatlov começou a entrar em pânico: a potência do reator estava aumentando, em vez de diminuir. 

"Eu pensei que meus olhos estavam saindo das minhas órbitas", contou ele, segundo o site All That is Interesting. “Não havia como explicar isso. Ficou claro que este não foi um acidente normal, mas algo muito mais terrível. Foi uma catástrofe".

Quando o núcleo do reator explodiu, grafite vazou no ar livre. Milhares de partículas radioativas escaparam. A usina se abriu toda e a explosão produziu o equivalente a mais de 10 das bombas atômicas lançadas em Hiroshima

A destruição deixada na usina nuclear após a explosão do reator 4 / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Luta por vida

Anatoly Dyatlov percebeu que seus operadores, Viktor Proskuryakov e Aleksandr Kudyavtsev, tinham desaparecido após ele ter dado ordens para abaixar hastes do reator.

Quando Dyatlov foi até o salão das turbinas dar uma olhada, ele viu chamas, um telhado destruído, água derramando em máquinas e curtos-circuitos produzindo sons. E pior: os seus dois homens estavam mortos, manchados de marrom. 

Nesse meio tempo, bombeiros de Pripyat chegaram ao resgate dos feridos pela explosão, muitos profissionais dos quais morreram mais tarde. Dyatlov, às 4h da manhã, entregou informações de computador ao diretor da fábrica, Viktor Bryukhanov, com quem discutiu o ocorrido. Já era tarde. 

O vice-engenheiro-chefe, em sua luta pela vida, foi afetado por um nível de radiação que causa a morte de 50% das pessoas em 30 dias. Todavia, ele sobreviveu, embora mal conseguisse andar sem se cansar até mesmo alguns anos após a explosão. Também teve vômitos contínuos devido à radiação, sendo tratado em um hospital em Moscou.

Imagem da região da mata próxima à Usina Nuclear de Chernobyl /Crédito: Wikimedia Commons 

 

Julgamento e defesa 

Ao lado do diretor Bryukhanov e seu superior, Nikolai Fomin, o vice-engenheiro-chefe foi julgado por não seguir as normas de segurança. Dyatlov ganhou 10 anos de prisão, mas cumpriu apenas 5, pois foi libertado por uma anistia geral, concedida aos funcionários de Chernobyl, em 1990. 

O russo comentou a culpa que levou pelo desastre em 1992, ao jornal The Washington Post. Em entrevista, ele afirmou que foi apontado como "bode expiatório" e despedaçado por "mentiras sem vergonha". "Não tenho a menor dúvida de que os projetistas do reator descobriram a verdadeira causa do acidente imediatamente, mas depois fizeram tudo para empurrar a culpa para os operadores", criticou. 

No entanto, Dyatlov também falhou naquela madrugada catastrófica, como se sabe, violando as precauções de segurança. Na época, quando mandou os dois funcionários abaixarem as hastes do reator, o equipamento já havia explodido. Por isso que o chefe se deparou com os cadáveres sem vida.

Mandar os funcionários até a morte foi uma decisão que ele lamentou amargamente."Quando eles correram para o corredor, percebi que era uma coisa estúpida de fazer", admitiu Dyatlov. "Se as barras não tivessem caído por eletricidade ou gravidade, não haveria maneira de derrubá-las manualmente". 

Embora Dyatlov tenha cometido erros, ao que tudo indica, não apenas um só homem foi responsável pelo desastre. A Associação Nuclear Mundial concluiu, mais tarde, que o incidente em Chernobyl foi o resultado de "um projeto de reator defeituoso que foi operado com pessoal inadequado". 

Além disso, grande parte dos trabalhadores da usina também não sabiam da responsabilidade que era operá-la. "Se eu soubesse o que sei agora sobre que tipo de monstro era esse reator, nunca teria ido trabalhar em Chernobyl", ressaltou Anatoly Dyatlov. “E não só eu. Ninguém teria trabalhado lá."


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