Crônica - Nando e a ditadura

A perseguição do irmão de zico pelo governo militar no Brasil e em Portugal

José Renato Santiago Publicado em 08/07/2016, às 08h46 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Família Coimbra completa: os pais, José Antunes e dona Matilde, e os filhos, Tonico, Edu, Antunes, Zico e Nando
Família Coimbra completa: os pais, José Antunes e dona Matilde, e os filhos, Tonico, Edu, Antunes, Zico e Nando - divulg.
Em janeiro de 1964, o presidente João Goulart instituiu oficialmente o Programa Nacional de Alfabetização, PNA. Ao usar o método para alfabetização de adulto desenvolvido por Paulo Freire, o Ministério da Educação e Cultura buscava a erradicação do analfabetismo no país. A seleção e o treinamento dos profissionais para o programa aconteceram entre o final de 1963 e os primeiros meses de 1964. 
Os irmãos Maria José e Nando e a prima Cecília passaram três meses em treinamento para ministrar as aulas que aconteceriam em colégios públicos do Rio de Janeiro. Além do amor pelos estudos, o futebol era outra paixão daquela família de origem portuguesa, que já contava com o próprio Nando atuando nas categorias de base do Fluminense, e seus irmãos, Antunes, também no tricolor carioca, e Edu, no América. O irmão mais novo, que ainda não tinha 10 anos, se chamava Arthur, o Zico, que viria a ser o maior jogador da história do Flamengo. 
O presidente Ranieri Mazzilli revogou o decreto de João Goulart. Em 13 de maio o Ministério da Educação divulgou pela imprensa que o material utilizado na campanha de alfabetização tinha caráter subversivo. 
Os coordenadores e professores que tiveram ligação com o PNA foram considerados subversivos e eram acompanhados de perto pelo regime militar. Zezé voltou a ser professora primária. Nando se concentrou novamente no futebol. Ainda como juvenil do Fluminense, em 1966, recebeu o convite para atuar no Santos de Vitória. Após algumas partidas como titular, com a chegada de um novo técnico na equipe, um oficial do Exército, foi afastado do time. Voltou ao Rio de Janeiro e atuou com os irmãos Antunes e Edu no América. Três irmãos na mesma equipe pareceu não ser do agrado do técnico Evaristo de Macedo, que autorizou seu empréstimo ao Madureira. O começo no tricolor suburbano foi promissor, até que o presidente do clube, Carlinho Maracanã, o afastou sem explicações. Sabedor da perseguição política que se aventava, Nando achou necessário “mudar de ares”, para seguir a carreira. Em 1968, foi contratado pelo Ceará, e fez boas atuações. Seu futebol chamou a atenção da equipe portuguesa do Belenenses. Com a promessa de receber o dobro do salário da equipe cearense, Nando partiu para Lisboa. Ao chegar, descobriu que fora enganado e que o clube lhe pagaria menos da metade do combinado. Cabe lembrar que Portugal vivia a ditadura de Salazar, desde 1932 chefe de Estado, e o presidente do país, o Almirante Américo Tomás, era torcedor fanático do Belenenses, clube que presidira em 1944. 
Dias depois, Nando recebeu no seu hotel a visita de duas pessoas que se identificaram como membros da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a Pide, organismo autônomo da Polícia Judiciária do governo local. Após ser interrogado e informado sobre a necessidade de entregar os seus documentos, os visitantes o alertaram que tinham conhecimento sobre sua atuação no PNA em 1964. No dia seguinte, recebeu mais uma ameaça, desta vez do diretor da equipe portuguesa. Caso ele não aceitasse assinar o contrato, por ser filho de português poderia ser obrigado a se alistar no Exército do país, e enviado para as frentes militares que combatiam em Angola e outras colônias africanas.
Nando conseguiu ajuda e retornou ao Brasil. Com o susto deixou o futebol meio de lado. Também ficou em silêncio, para não atrapalhar a carreira do irmão Edu, que fora artilheiro do torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969 (o campeonato nacional daquela época), e que deveria ser convocado para a Copa do Mundo de 1970, e do irmão caçula, Zico, que, ainda nas categorias de base do Flamengo, encantava a todos com seu futebol.
A não convocação de Edu para a Copa do México foi recebida com grande tristeza por toda a família, mas nada comparável ao choque com a prisão da prima, Cecília, e de seu marido, José Novaes. Nando e um primo médico foram visitar a tia, que passara mal ao saber da prisão da filha. Todos, com exceção da tia, foram presos por agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, Dops, que os levaram ao DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de inteligência e repressão subordinado ao Exército brasileiro. Foram encapuzados para interrogatório e sofreram ameaças. Foram liberados, mas fichados como subversivos, o que dificultou a volta de Nando ao futebol.
Em 1971, o jogador foi convidado a atuar na equipe portuguesa do Gil Vicente, mas não podia sair do país. Seu pai teve a oportunidade de falar com o então presidente do Conselho Nacional de Desportos, o general Sizeno Sarmento, que se sensibilizou. Graças ao militar, sua ficha voltou a ser limpa, e ele atuou no Gil Vicente. Porém, lesões sucessivas acabaram por antecipar o fim da sua carreira, aos 26 anos. Em dezembro de 2010, a Comissão de Anistia, instalada pelo Ministério da Justiça, reconheceu que Nando foi um perseguido político da ditadura brasileira, e se tornou o primeiro jogador de futebol a ser anistiado no país.