Há 13 mil anos, um funeral das cavernas

Através de pedrinhas, arqueólogos acreditam ter conseguido explicar um rito final do Paleolítico

Redação AH Publicado em 09/02/2017, às 17h45 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Na Idade da Pedra já haviam rituais para rememorar a dor pela perda dos entes queridos
Na Idade da Pedra já haviam rituais para rememorar a dor pela perda dos entes queridos - Shutterstock

Os mortos eram trazidos até uma caverna especial, designada como cemitério. Então, com pedrinhas redondas, trazidas da praia, recebiam desenhos em tinta ocre (um pigmento natural vindo de pedras). As pedras então eram partidas, e uma parte das metades era levada pelos entes queridos, ou talvez um sacerdote. Assim as pessoas se despediam no Paleolítico, há 13 mil anos, na Itália.

A cena pode ser recriada por meio de um estudo das universidades de Gênova, Montreal e do Estado do Arizona. Arqueólogos observaram 29 fragmentos de pedra na caverna de Arene Candidte, na Ligúria, Itália. Desde os anos 1940, sabe-se que ela era usada como necrópole, tendo sido encontrados restos de 20 adultos e crianças. Mas ninguém tinha notado as pedrinhas: manchadas de ocre, que não foi usado para pintar as paredes, elas estavam partidas. Mas não foi possível localizar nenhuma outra metade delas.

Os arqueólogos informam que é o primeiro caso de destruição ritual conhecido, superando em 5 mil anos o achado posterior - no Neolítico, depois do domínio da agricultura. 

Eles também têm um palpite sobre o significado do ritual. Segundo Julien Riel-Salvatore, que coordenou as escavações, a ideia era "matar" as ferramentas, "descarregá-las de seu poder simbólico". Quanto às metades levadas embora, "talvez eles significassem uma ligação com um morto", diz o arqueólogo. "Da mesma maneira que as pessoas hoje dividem as partes de um amuleto de amizade ou deixam um objeto na tumba de um ente querido. É o mesmo tipo de conexão emocional."

Segundo o arqueólogo, há uma lição para os seus colegas a ser tirada do achado. "Historicamente, os arqueólogos não olhavam para estes objetos - se eles os vissem no sítio, falavam 'ah, é uma pedra comum' e as jogavam com o resto do sedimento", comenta. "Precisamos começar a prestar atenção a essas coisinhas que são frequentemente classificadas como pedras. Uma coisa que parece ser natural pode ter um importante sentido artificial."