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Uma artista única: Há 10 anos, o mundo se despedia de Amy Winehouse

No dia que marca uma década sem a talentosa cantora de voz rouca e corajosa, conversamos com Pablo Miyazawa, jornalista e editor contribuinte da Rolling Stone Brasil

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 23/07/2021, às 00h00

Amy Winehouse em apresentação de 2007 em Londres, Inglaterra
Amy Winehouse em apresentação de 2007 em Londres, Inglaterra - Getty Images

Ouvir ‘Back to Black’ é se deparar com uma voz rouca, triste e honesta. Por trás da maquiagem exagerada, cabelo de colmeia e tatuagens espalhadas pelo corpo, havia uma figura franca — como ela já revelava em seu disco de estreia, ‘Frank’, de 2003 — que não tinha medo de expor seus demônios.

Com elogios da crítica, uma legião de admiradores e o sucesso de vendas, Amy Winehouse não demorou a se tornar um ícone do R&B, que teve um suspiro com o lançamento de seu segundo álbum, e do jazz, que a acompanhava desde a influência do pai e ficou explícito em ‘Frank’. 

“Eu acho que a Amy Winehouse surgiu em um momento em que havia uma carência de personagens no rock. E quando eu falo rock eu quero dizer não exatamente o gênero musical, mas tudo que envolve ele: a atitude, a personalidade dos artistas que fazem o rock”, diz Pablo Miyazawa, jornalista e editor contribuinte da Rolling Stone Brasil. 

“Nesse caso, a Amy preencheu uma lacuna que estava vaga de artistas que parecem viver de corpo e alma a ideia por trás da filosofia roqueira, do sexo, drogas e rock’n’roll, a rebeldia e a sinceridade, e a fragilidade da pessoa”, continua Miyazawa

Amy durante aparição pública/ Crédito: Getty Images

 

A voz única

Ao longo da carreira, o estilo único, acompanhado de referências de peso que evocavam o passado de uma maneira refrescante, acabou se confundindo com a vida pessoal conturbada da cantora. Entre um relacionamento complicado desde o início, drogas e álcool, a menina que encontrou refúgio na música começou a se perder.

Como explica o jornalista, Amy não era só uma artista talentosa, "ela também expunha todas essas questões internas, os demônios que tinha, por meio da música e fora do ambiente musical". "E acho que isso que contou bastante", opina. 

"Se fosse só uma super cantora de soul, com uma voz poderosa, como ela era, talvez não chamaria tanto atenção como chamou. Mas o fato dela ter essa personalidade sem freio, digamos assim, explosiva e imprevisível, fazia com que o interesse em torno dela fosse maior ainda, não apenas na música, mas também no lado pessoal", afirma Pablo.

Amy foi creditada como uma das melhores artistas reveladas no Reino Unido em 2004 já na sua estreia; poucos anos depois, vendeu cerca de 10 milhões de cópias em todo o mundo de ‘Back to Black’. Os fãs esperavam um terceiro álbum que nunca veio e o sucesso e assédio da mídia pareciam sufocantes.

O talento e a explosão

"Amy era muito virtuosa, como artista, como cantora, sabia fazer qualquer coisa com a voz, conseguiu reviver um estilo musical que fazia muito tempo que não se reinventava, o soul dos anos 1960, não apenas com suas características físicas, a maneira como se vestia, se portava e a voz , mas também um pouco na maneira como encarava a vida, de uma maneira apaixonante, sofrida, à flor da pele", explica o jornalista.

A imagem pública da artista mesclava o talento potente de uma estrela, internações em clínicas de reabilitação, aparições com machucados e o casamento controverso com Blake Fielder-Civil. A britânica estava cada vez mais debilitada mental e fisicamente, e o mundo parecia assistir sua ruína de camarote. 

Amy foi eternizada, hoje, por suas qualidades artísticas. Mas Miyazawa ressalta que, em vida, ela era mais conhecida por seu lado "negativo", com os escândalos e superexposição da mídia. Ele aponta que esses são "dois aspectos complementares que fazem a Amy ser o que é hoje e fizeram ela ser dez anos atrás, quando morreu". 

"É um pacote completo que não tem muitos precedentes na música moderna recente, não existe um personagem tão interessante quanto ela", enfatiza. 

Quando a notícia da morte veio, em 23 de julho de 2011, há exatos 10 anos, não foi de total surpresa. Entrando nas estatísticas dos artistas que morreram aos 27 anos, Amy deixou saudade no momento em que deu adeus — ouvir ‘Back to Black’ é, também, nostálgico e aflora a lamentação para uma musicista talentosa que faleceu cedo demais.

O começo do fim

A cantora já dava indícios de que a rotina eletrizante de uma estrela da música não estava indo conforme os trilhos em 2007, quando os cancelamentos de apresentações se tornaram frequentes, somados ao desgaste emocional do retorno com Blake

Juntos, os dois ainda foram internados em uma clínica de reabilitação em 2008, o que impossibilitou a presença da cantora na cerimônia do Grammy, na edição em que foi premiada em seis categorias. No limite, o hiato foi anunciado e Amy começou um tratamento contra o alcoolismo.

"A Amy é resultado de muitos acontecimentos rolando simultaneamente, como o talento dela, o momento da música, a maneira como ela tratou a música e também a maneira como a mídia enxerga as personalidades e tenta extrair tudo que elas têm. E no caso de uma pessoa com uma personalidade tão grandiosa, explosiva e sincera como a Amy Winehouse, era um prato cheio para os tabloides e os paparazzi", opina Pablo.

Ela retornaria aos palcos no começo de 2011, quando realizou cinco shows no Brasil que, segundo o The Guardian, "deram um vislumbre tentador do talento que havia sido obscurecido por muitos anos”. Esforçando-se para não deixar a imagem negativa de desestabilidade emocional com o uso de drogas dominar seu nome em toda a indústria, Amy tentou.

Amy durante apresentação /Crédito: Getty Images

 

Mas os problemas ficavam cada vez mais explícitos e não davam descanso à cantora. Depois do sucesso em terras brasileiras, uma turnê de 12 shows na Europa foi marcada após uma “avaliação de reabilitação" na Priory Clinic, em Londres. Na época, uma nota foi divulgada, que escrevia que a artista estava "ansiosa para fazer shows em toda a Europa neste verão e está ansiosa para ir".

O último suspiro

No começo da turnê, uma apresentação em um festival de música em Belgrado, na Sérvia, mostrou o estado de Winehouse; uma hora atrasada, sem conseguir lembrar as letras das músicas e claramente bêbada, a britânica não conseguiu cativar o público e recebeu vaias de mais de 20 mil pessoas presentes.

Levada para o hotel às pressas, a intérprete de ‘Rehab’ teve todos os shows cancelados na Europa. Um comunicado do empresário da artista, repercutido alguns dias depois da triste apresentação, informava que ela teria "o tempo que fosse preciso" para melhorar e, assim, voltar aos palcos e aos estúdios, que tanto a esperavam. 

O show da Sérvia entraria para a história como o último da lendária Amy Winehouse, mas que não mostrou nem metade do talento que a cantora tinha dentro dela. Pouco mais de um mês depois, em 23 de julho de 2011, ela foi encontrada sem vida em seu apartamento em Londres por um segurança. 

Aos 27 anos, a artista foi levada por uma intoxicação causada pelo excesso de álcool, um problema contra o qual batalhou durante grande parte de sua vida. Mesmo que tenha sido honesta em suas composições, Amy não conseguiu controlar seus demônios pessoais, que terminaram por encerrar sua vida cedo demais.

Pai de Amy ao lado de uma estátua em homenagem à filha /Crédito: Getty Images

 

Agora, um de seus melhores amigos, Tyler James, lançará um livro intitulado ‘Minha Amy’, que promete mudar a visão pública de que a falecida amiga era uma viciada sem salvação. James acredita que se estivesse viva, Winehouse teria largado a música e o vício. 

Para Miyazawa, o futuro de Amy na indústria da música, caso ela ainda estivesse viva, é incerto. "Eu não acredito que a Amy Winehouse teria se aposentado, mas é difícil dizer com certeza que ela teria sobrevivido com os anos", avalia.

"Existia um comportamento autodestrutivo que só era reforçado pela maneira como a mídia a enxergava e colocava ela sempre nos holofotes pelos motivos errados", diz Pablo. "Porque fazer música, ela continuava fazendo; ela continuava cantando, ainda que tivesse apresentações ruins, conseguia mostrar o que tinha de melhor. Então eu acredito que estaríamos diante de uma sucessão de altos e baixos. Ao longo dos anos ela continuaria indo ao fundo do poço e voltando com um disco maravilhoso. Resta saber até quando Amy aguentaria esse ritmo. Mas eu não acho que ela deixaria de cantar", completa.


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