Matérias » Crime

139 feridos: O homem que usava bombas de pregos para atacar minorias

Os atentados orquestrados por David Copeland feriram diversos negros e homossexuais

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 30/04/2022, às 08h00

Fotografia tirada de David Copeland quando foi preso
Fotografia tirada de David Copeland quando foi preso - Divulgação/ Governo da Inglaterra

Em abril de 1999, três horríveis atentados foram realizados na cidade de Londres com poucos dias de distância entre si.

Todos eles se deram em locais que concentravam comunidades constituídas de minorias, como pessoas de cor e homossexuais, e todos faziam o uso de bombas de pregos, uma arma assustadora que atirava os objetos para todos os lados em alta velocidade. 

O culpado viria a ser identificado como David Copeland, um jovem de 22 anos e seguidor fiel de ideologias da extrema-direita. Ele havia se juntado ao Movimento Nacional Socialista, um partido londrino de convicções políticas extremistas, em 1998, por volta de um ano antes de começar sua trajetória criminosa. 

Copeland possuía inclusive uma bandeira nazista pendurada na parede de seu quarto, acreditava na eugenia e relatou em tribunal que queria "incitar uma guerra racial" com suas explosões, de acordo com informações repercutidas pelo The Guardian nos anos 2000. 

O terrorista, a despeito de seus esforços de "espalhar ressentimento e ódio por todo o país", não iniciou guerra nenhuma, apenas provocou tristeza e luto, sendo responsável por 3 mortes e 139 feridos. 

Início da destruição

Conforme a polícia descobriria mais tarde, David havia passado meses pesquisando técnicas na internet para construir bombas caseiras, segundo relembrado pelo portal A&E em uma matéria de 2021. 

Quando o criminoso finalmente se sentia preparado para colocar em prática seus atos odiosos, comprou pregos, despertadores antigos (que cumpriram a função de temporizadores dos explosivos) e fogos de artifícios. As autoridades estimam que ele tenha colocado ao menos 1.500 pregos em cada dispositivo. 

O primeiro ataque ocorreu no mercado ao ar livre em Brixton, durante uma tarde de sábado, quando o local estava cheio de pessoas fazendo compras. Vale destacar que Brixton é conhecida por ser lar da comunidade negra londrina. 

A presença de pessoas brancas na região, inclusive, havia surpreendido David, segundo relatado por ele à polícia. "Ele não se importou em machucá-los. Ele disse à polícia: 'Se eles querem morar lá, é com eles'", relatou Nigel Sweeney, o promotor do caso, em depoimento ao tribunal que julgaria o jovem. 

Em entrevista à BBC, uma sobrevivente do episódio, contou como foi estar presente no local: 

"Lembro-me de ouvir uma explosão alta e ensurdecedora, como uma enorme rajada de vento que arrebentou todas as janelas", contou Sandra Mills ao veículo. Ela teria congelado no lugar devido ao pânico. 

"Depois do que pareceu uma eternidade de silêncio, vi um homem ferido caído na estrada coberta de vidro. Corri em seu socorro e vi que ele tinha pregos alojados nas pernas", contou a mulher. 

O ocorrido deixou 48 vítimas, incluindo um bebê de um ano que acabou com um prego alojado em seu crânio. Surpreendentemente, ninguém morreu. 

Sobrevivente do primeiro ataque entrevistado em docusérie da Netflix / Crédito: Divulgação/ Youtube/ Netflix

Os próximos alvos

O segundo atentado, ocorrido uma semana mais tarde, se deu em outro mercado, dessa vez Brick Lane, portanto mirando na comunidade asiática, uma vez que a região abriga várias famílias de Bangladesh.  

Esse episódio foi menos letal que o primeiro, deixando 13 feridos. Isso pois um transeunte encontrou a sacola contendo o dispositivo explosivo montado por Copeland

Sem saber do que se tratava, o homem deixou o item no porta-malas de seu carro. Ele estava no meio do caminho para uma delegacia polícia, onde pretendia relatar o que era encarado por ele como um simples objeto perdido quando a bomba de pregos detonou, destruindo seu veículo. 

O porta-malas serviu para diminuir consideravelmente os danos causados pela explosão, porém cacos de vidros ainda foram propulsionados pela rua, atingindo 13 pessoas. 

Neste ponto, a polícia britânica já sabia estar lidando com um criminoso com motivações racistas, e concentrava todos os seus recursos em seguir o rastro do terrorista. Eles foram capazes de localizar imagens do agressor através de câmeras de segurança de Brick Lane, uma informação que foi divulgada pelo rádio, chegando até Copeland.

Isso fez com que apressasse seu próximo ataque, que se tornaria o pior de todos. O jovem de extrema-direita se hospedou em um hotel, e depois dirigiu-se ao Admiral Duncan, um bar LGBTQ+. 

 "Ele colocou a sacola no balcão e conversou com um dos clientes, fingindo estar esperando um amigo gay. Ninguém percebeu que ele havia deixado a sacola (...) Havia pelo menos 70 pessoas no bar. O efeito de uma explosão em um espaço tão confinado foi devastador", contou Nigel Sweeney, de acordo com o The Guardian. 

Foi neste atentado que o ódio de David levou à morte de três pessoas. Outras cinco precisaram passar por amputações de braços e pernas. Por volta de 70 ficaram feridos. 

"Foi pessoal. O réu disse à polícia que era muito homofóbico. Ele odiava gays e disse que seu ódio se originava da maneira como seus pais o tratavam quando criança. Ele considerava os gays como degenerados pervertidos que não serviam à sociedade e deveriam ser condenados à morte", explicou Sweeney ainda. 

Nos anos 2000, Copeland foi sentenciado a seis penas perpétuas, com um mínimo de 50 anos de prisão antes que tenha permissão de buscar a liberdade condicional. 

Em 2021, a Netflix lançou um documentário a respeito do perturbador caso do terrorista nazista sob o nome "Nail Bomber: Manhunt". Confira abaixo o trailer: