O livro do FBI que desmoralizou os Panteras Negras

Cheio de ilustrações deturpadas, o livro apresentava os negros como heróis que intimidavam policiais brancos

quarta 6 junho, 2018
Uma das insólitas ilustrações feitas pelo FBI para denegrir os Panteras Negras
Uma das insólitas ilustrações feitas pelo FBI para denegrir os Panteras Negras Foto:Domínio publico

Em 1968, a circulação de um livro insólito causou polêmica nos Estados Unidos. As famílias de classe média foram surpreendidas por Black Panther Coloring Book ("O Livro de Colorir dos Panteras Negras") e suas páginas com ilustrações de policiais – representados como porcos – sendo atacados por homens negros que portavam facas e armas de fogo. No entanto, tudo não passou de uma tentativa do FBI de desmoralizar o partido dos Panteras Negras, uma organização maoísta para defesa do direito dos negros.

Os afro-americanos que moravam na América do Norte não viviam em boas condições. Sofriam com a gritante desigualdade econômica e social. As cidades onde moravam eram caracterizadas pela pobreza e falta de serviços públicos. O desemprego e, principalmente, a violência fizeram eclodir revoltas urbanas em 1960 e, consequentemente, o uso da violência policial para "impor a ordem".

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Defesa dos negros 

Nesse contexto e com o trágico assassinato de Malcolm X em 1965, os alunos Huey Newton e Bobby Seale, do Colégio Merritt Junior, em Oakland, fundaram o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa em outubro de 1966.

Encurtando o nome para apenas Panteras Negras, tinham como principal objetivo garantir os direitos da população negra. Assim, patrulhavam os guetos para proteger os moradores da violência e da opressão exercida por policiais. O movimento se espalhou nos EUA e, quanto mais crescia, mais o governo os enxergava como uma ameaça.

Os membros do partido Reprodução

Constantes tiroteios com a polícia e conflitos internos resultaram em escândalos e, principalmente, na perseguição pelo FBI. Edgar Hoover, então diretor do serviço de inteligência, descreveu o partido como "a maior ameaça à segurança interna do país".

Programa polêmico 

Hoover liderou um controverso programa de contrainteligência, caracterizado por táticas ilegais para derrubar os líderes dos Panteras Negras, manchar a reputação do partido e, ao mesmo tempo, incriminar seus membros. Dentre as tentativas surgiu o tétrico livro de colorir.

As páginas mostram pessoas negras que vieram da África para a América atacando e matando policiais com facas enormes. Nas páginas seguintes, as ilustrações ficaram ainda piores.

Foram desenhadas crianças negras apontando armas de fogo para os guardas. Enviado para as famílias dos EUA e com a falsa autoria do Panteras Negras, o livro causou uma verdadeira indignação. Essa e outras táticas do programa só foram consideradas ilegais em 1975, após as investigações da Comissão Church.

Confira algumas das ilustrações:

" Isto é um porco. Ele tenta controlar as pessoas negras" Domímio público

"O homem branco queria as riquezas do homem negro. Eles vieram com armas e forças e as levaram" Domímio público

"Nat Turner, um escravo forte, mostra ao homem negro que ele não deve temer o proprietário branco dos escravos" Domímio público

"O único porco bom é um porco morto" Domímio público

"Irmãos negros estão cansados dos homens brancos em comunidades negras" Domímio público

"Irmãos e irmãs lidam com o dono branco da loja que rouba pessoas negras" Domímio público

"O porco esta com medo das crianças negras porque elas são guerreiras corajosas" Domímio público

"O porco está fugindo das pessoas negras"  "Corra, porco, corra" Domímio público

"O poder vem através do cano de uma arma" Domímio público
Thiago Lincolins


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