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20 anos após os atentados de 11 de setembro, a volta do Talibã ao Afeganistão

A saída das tropas norte-americanas abriu espaço para as ofensivas do grupo extremista

Raphaela de Campos Mello Publicado em 11/09/2021, às 06h00

Apoiadores do Talibã em 2001
Apoiadores do Talibã em 2001 - Getty Images

Por 20 anos o Afeganistão sofreu as consequências do 11 de setembro de 2001 como nenhum outro país do mundo. 

No entanto, em 1º de julho deste ano, as tropas dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN abandonaram a base aérea de Bagram, a mais importante – e última ativa – usada pelo Exército norte-americano no Afeganistão.

O aeroporto foi oficialmente entregue ao Ministério da Defesa afegão. Com isso, encerram-se efetivamente as principais operações militares no país. A mensagem óbvia que o atual presidente dos Estados Unidos enviou ao mundo é a de que a guerra mais longa travada pelos EUA no exterior chegou ao fim.

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 “A retirada dos exércitos do Afeganistão é uma promessa de campanha de Biden, uma promessa que se voltava a uma resistência cada vez maior nos EUA quanto ao envio de jovens para uma guerra que poucos entendiam, ou que parecia não ter fim e que já havia custado 2 trilhões de dólares”, pontua Vinícius Liebel, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Apesar de este ser um desfecho histórico, o acadêmico se mantém reticente em relação às intenções norte-americanas.

“Isso está longe de significar que os interesses dos Estados Unidos na região não serão defendidos, ou que o país não irá mais utilizar a violência contra outros povos. Pelo contrário, o país continua com uma política agressiva em defesa de seus interesses, tendo o maior poderio bélico do mundo e disposto a utilizá-lo”, ele afirma.

A volta do Talibã

A saída dos norte-americanos, em contrapartida, abriu espaço para as ofensivas do Talibã, oficialmente considerado como organização terrorista pela Rússia, União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos e Cazaquistão.

Desde 1º de maio, quando os Estados Unidos começaram a fechar algumas bases e transferir outras para o Exército afegão, distritos rurais foram subjugados pelo grupo jihadista.

Ataques também foram registrados em diversas províncias no norte e no sul. Além disso, o grupo extremista passou a controlar áreas de fronteira, como nas divisas com Irã, Paquistão e Tajiquistão.

O controle total pelo grupo fundamentalista ocorreu no último mês de agosto. O Presidente Ghanideixou o país depois que oTalibã conquistou quase o poder total em Cabul, em uma ofensiva que derrubou cidade após cidade em todo país.

Em suas próprias palavras, reveladas através de um comunicado no Facebook, o mandatário explicou que a decisão foi motivada pelo fato que Cabul seria tomada pelo caos numa possível recusa, afinal “incontáveis patriotas seriam martirizados e a cidade de Cabul seria destruída”.

"O Talibã venceu... E agora é responsável pela honra, propriedade e autopreservação de seus compatriotas", explica o comunicado.

"Agora eles enfrentam um novo teste histórico. Ou preservam o nome e a honra do Afeganistão ou dão prioridade a outros lugares e redes", diz.

A volta oficial

Em uma conferência com representantes de veículos internacionais, o grupo extremista apresentou uma postura 'moderada' em relação aos princípios que os tornaram mundialmente conhecidos durante o final do século 20.

Argumentando maior cooperação para a garantia dos direitos sociais, a instituição diz rever alguns de seus valores, fator avaliado cuidadosamente por Alcides Eduardo dos Reis Peron, professor do curso de Relações Internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e pesquisador de pós Doutorado no Departamento de Sociologia da USP.

"O Talibã é reflexivo; pensou ao longo do tempo e está tentando ganhar legitimidade internacional a partir do momento em que instaurar um governo em Cabul, ainda que não obedeça regras de instituições internacionais. O ponto é que, nesse processo de escalada, é natural que eles assumam um conjunto de narrativas mais abertas e sofisticadas em relação ao Talibã dos anos 1980 e 1990 e, portanto, eles irão afirmar que não vão cometer violências”, diz ele.

Contudo, o educador enalteceu um breve adendo que pode sinalizar a marca da instituição: “Eles colocaram uma nota de rodapé, que poucos deram atenção, afirmando que irão respeitar as mulheres e tudo, mas irão exigir o reconhecimento internacional dos dogmas internos do grupo. Pode ser que exista certas liberdades em termos de vestimentas ou fatores que não fere seu conjunto doutrinário, mas não acredito que a mulher se tornará um elemento de protagonismo”.

Críticas

Antes da tomada total pelo grupo extremista, o agravamento da situação levou autoridades afegãs a criticarem a retirada repentina das tropas norte-americanas, mesmo tendo havido, no ano passado, um consenso entre os americanos e o grupo.

O Talibã no palácio presidencial, em Cabul

 

Nessa negociação foi selada a promessa de que o grupo extremista e o governo local firmariam um acordo de paz. Esses episódios acendem o temor de uma guerra civil com a volta do Taleban, que governou o Afeganistão de 1996 até a intervenção dos EUA em 2001.

Violência desmedida

O levante, que se autointitulava um Emirado Islâmico do Afeganistão, impôs um regime de violência desmedida, sobretudo, contra outros grupos religiosos, crianças e mulheres. Massacres em que corpos apodreciam ao relento eram comuns, assim como ataques a instituições culturais.

Em 12 de agosto de 1998, os extremistas islâmicos incendiaram uma das mais belas bibliotecas públicas do Afeganistão contendo 55 mil livros. Manuscritos datados de dez séculos viraram cinzas. Eles também destruíram os Budas de Bamiyan (Patrimônio da Humanidade), intactos durante 1500 anos.

Como está claro, o mundo 20 anos após os atentados de 11 de setembro frustra o sonho de uma América imbatível em todos os aspectos, sem qualquer ameaça de ser desbancada em sua hegemonia.

“Não só a ideia de Guerra ao Terror perdeu força por ser, virtualmente, uma guerra sem fim, já que o terror não tem rosto nem fronteiras, mas a própria potência dos EUA decresceu nas décadas que se seguiram. Hoje já se fala em uma tentativa de acomodar o país em um mundo multipolar, sem que isso leve a uma queda definitiva do império. Rússia, China, Europa e mesmo potências regionais, como Índia e África do Sul ganham espaço nesse tabuleiro global”, situa Vinícius Liebel.

Num cenário de intensa competitividade política, econômica e militar, continuar desperdiçando dinheiro, armamentos e soldados numa guerra envelhecida e desgastada realmente só colocaria os EUA numa posição desvantajosa. Sendo assim, o 11 de setembro finalmente termina quando uma nova ordem mundial passa a preocupar os Estados Unidos muito mais do que possíveis atentados terroristas.


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