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22 anos depois, investigador relembra um dos sequestros relâmpagos mais chocantes do país

O assassinato de Lúcia Soares Rodrigues só foi resolvido após a participação do investigador Robson Feitosa

Fabio Previdelli Publicado em 11/07/2021, às 10h00

A administradora de empresas Lúcia Soares Rodrigues
A administradora de empresas Lúcia Soares Rodrigues - Arquivo Pessoal/ Robson Feitosa

Em 1999, a administradora de empresas Lúcia Soares Rodrigues, de 29 anos, foi encontrada morta no trajeto que faria para encontrar seu pai, um grande empresário do ramo da comunicação e tecnologia, Marco Aurélio Rodrigues.

Lúcia havia sido vítima de um crime que crescia naquela época: o sequestro relâmpago. “Estamos falando de período em que existia um número muito grande de crimes do chamado, vulgarmente, por sequestros relâmpagos — que eram roubos praticados por jovens entre uma média de idade de 18 a 25 anos”, explica o investigador Robson Feitosa em entrevista exclusiva à equipe do site Aventuras na História.

Ex-chefe do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) em São Paulo, Robson explica que esses crimes ocorriam, normalmente, no final do dia, por volta das 18 horas até às 22 horas.

“Os criminosos pegavam vítimas do sexo feminino, ou casais, preferencialmente em carros pequenos — sempre mecânicos, por causa da falta de prática dos delinquentes em dirigir carros automáticos”. 

Usando-as de reféns, eles as levavam até postos de autoatendimento e faziam saques de cartões de crédito. “Em alguns casos, raros, eles abusavam sexualmente das mulheres, mas os crimes não tinham esse fim”, explica Feitosa. Lúcia foi uma dessas exceções. 

O crime que chocou o Brasil 

Em 30 de junho de 1999, Lúcia fora encontrar seu pai quando acabou sendo abordada por três criminosos. Dois deles entraram no veículo e a obrigaram a fazer uma ligação para o pai, dizendo que se atrasaria.

“Inventaram uma história de cobertura, dizendo que o pneu do carro tinha furado e que teria passado num borracheiro”, revela o investigador, hoje aposentado, após mais de 34 anos de carreira. Ele ajudou nas investigações de grandes crimes que chocaram a sociedade brasileira, como o caso Von Richthofen

Lúcia foi abordada na região do Shopping Continental, em Osasco. De lá, o trio a levou até perto de onde um deles morava na época. “Lá eles deixam o carro quente e vão para Raposo, na região de um supermercado”, conta Robson

O investigador Robson Feitosa/ Crédito: Arquivo Pessoal

 

Na Raposo, entraram no estacionamento do mercado e fizeram saques com o veículo de Lúcia e tudo mais. Ela era mantida como refém. Em dado momento, como não tinham mais como tirar dinheiro, Rodrigues os pressionou.

“Olha eu vou encontrar com o meu pai, ele está esperando. Se vocês não me liberarem logo, a polícia logo será alertada”, relembrou o investigador.

Esse registro foi dito por um dos envolvidos, que foi capturado pouco depois (falaremos sobre isso mais abaixo).  

Assustados, os criminosos deixam o supermercado, ainda com ela feita de refém, e voltam para a Rodovia Raposo Tavares — sentido Cotia. Metros à frente, eles optaram por uma pequena estrada à direita, perto de um posto de uma unidade do Corpo de Bombeiros.  

“Entram nessa estrada, uma estrada com bastante matagal, local ermo, e estacionam o veículo; a Lúcia desce com um deles, que é o Allan, e ele a leva um pouco mais distante de onde os outros dois ficaram com o veículo”, conta Feitosa. “Lá, ele pratica o crime de estupro, enquanto os outros dois estão ali pegando os objetos do veículo e da bolsa; dando continuidade ao roubo”.  

Cerca de 15/20 minutos depois, Feitosa conta que Allan cometeu um deslize, dando oportunidade para a refém fugir. “Ela percebendo isso, apavorada, foge com medo do que pode vir a acontecer”. É então que Allan desce do carro e dispara dois tiros fatais contra a mulher. Ali começava um jogo de gato e rato em busca de culpados.  

Perseguição de cinema 

Enquanto ainda buscava por pistas, Robson lembra que presenciou um crime parecido em uma de suas rondas com a polícia.

“Apesar de ainda não ter informações, nós não podíamos deixar acontecer novamente. Apesar de sermos uma polícia investigativa, nós tínhamos também que fazer a preventiva naquela região. Até para ver se aqueles criminosos que estavam ali tinham algum envolvimento com o crime da Lúcia”.  

Durante um dos dias de operação, Feitosa fazia uma ronda pela região da Rodovia quando se deparou com um veículo onde se encontrava Daniele Rocha e mais três rapazes.

“Eles pararam, literalmente, lado a lado conosco, no momento em que eu olho para o veículo e percebo que a moça estava assustada e abaixou a cabeça, nós pedimos para que eles parassem. Sinalizamos e demos um toque de sirene para que o carro parasse”, recorda. “Foi então que o criminoso simulou que iria parar e logo em seguida ele disparou, saiu em alta velocidade”. 

Apesar do horário de alto fluxo de veículos na Raposo Tavares, a intensa perseguição se alongou por cerca de cinco quilômetros. “Quando o carro sai para pegar o retorno, o motorista se perde e bate num veículo e vai parar numa ilha — numa pequena ilha existente na rotatória”, conta o investigador.  

Robson ao lado de Daniele/ Crédito: Arquivo Pessoal/ Robson Feitosa

 

Após uma perigosa troca de tiros, um dos envolvidos acaba baleado e outro é rendido. O terceiro rapaz, que estava no carro, era um amigo de Daniele — também vítima do sequestro.

“Essas vítimas foram levadas até o 75ª Distrito Policial, foi feito o socorro daquele que estava baleado na troca de tiros — ele veio a falecer — e o outro preso confessou o crime, mas não eram as pessoas envolvidas com o crime da Lúcia”, explica Feitosa

As peças se encaixam 

Com o passar dos dias, o Departamento de Investigação da Polícia Civil descobre que mais de dez saques com o cartão de Lúcia foram feitos pelo bando. Os crimes eram divididos entre o Rio de Janeiro e a região de Osasco.  

“Nós chegamos até o supermercado, em Osasco, por causa do saque, e observamos que existiam câmeras por lá”, explica Robson, que conta que teve ajuda de outros departamentos da polícia na operação. “Com a ajuda do DEIC, que na época era DEPATRI, nos passaram a estatística de como era o modus operandi dos criminosos que cometiam esse tipo de crime”.  
Imagens de uma das câmeras de segurança/ Crédito: Arquivo Pessoal/ Robson Feitosa

 

“Com a fita de vídeo que aquele supermercado nos forneceu, trabalhamos buscando a tecnologia da época. Assim, produzimos fotografias das pessoas que foram até a entrada do estacionamento do shopping e as imagens do autoatendimento, onde os saques foram feitos. Com essas imagens, nós levamos para os colegas do DEPATRI”, completa.  

A partir daí, iniciou-se um trabalho do Instituto de Identificação para procurar potenciais suspeitos com aquela faixa etária e que possuíam aquelas características. “Nesse comparativo de informações, recebemos dados de quem poderia ser o responsável pelo crime”, recorda.  

Com esse comparativo, chegaram em dois supostos envolvidos: Michael Camilo dos Santos e Cláudio de Souza Luiz, ambos com 18 anos na época.

“Procurando mais informações sobre eles, descobrimos que eles não eram ‘simples jovens’ que estudavam ou trabalhavam em algum lugar comum. Eles até estavam matriculados à noite, em escolas públicas da região, mas faltavam muito e poderiam estar envolvidos em atividades suspeitas”, diz Feitosa

A confissão 

Logo que foram detidos, os jovens confessaram o crime e, além disso, ainda deram informações sobre um terceiro envolvido: Allan Luiz Martins, também com 18 anos. A princípio, o trio tentou se esquivar e alegou que não houve o crime que envolvesse a violação sexual. 

Segundo explica o investigador, isso não passava de uma 'tática'. “Dentro dos presídios, os criminosos eles não aceitam. Existe, entre aspas, um código de ética dentro das prisões que não aceitam estupradores, pessoas que fazem violência sexual e tudo mais”.  

Allan Luiz Martins/ Crédito: Arquivo Pessoal/ Robson Feitosa

 

Quando questionados, diz Robson, eles desconversavam sobre o assunto com alegações como: “se aconteceu, eu não vi, eu estava dentro do carro”; ou outro falava: "olha, você está dizendo que fui eu, mas não fui eu”.  

Em imagens, que a equipe do Aventuras teve acesso, feitas por Robson, Allan confessa o assassinato e o abuso de Lúcia.

“Eu tirei a vítima para fora do carro, levei ela pra longe do carro e estuprei a vítima”, fala em um trecho. 

“Nisso, eu levei ela até o carro. Foi aí que houve o disparo. Disparei duas vezes contra ela”, continua. Perguntado sobre o que o motivou a cometer o crime, Allan é econômico nas palavras: “Tava (sic) com medo”.


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