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3 jogos, classificação para a Copa e 5 mil mortes: Honduras x El Salvador, a Guerra do Futebol

Partida que valia vaga na Copa de 70 foi marcada por rivalidade política entre os dois países — o que culminou em uma guerra de quatro dias entre as nações

Fabio Previdelli Publicado em 12/11/2020, às 08h00

Seleção de El Salvador
Seleção de El Salvador - Divulgação/ YouTube/ Football Geeks

Quem acompanha o futebol nas Américas já está habituado quando dizem que tal partida será uma verdadeira Guerra. A expressão se diz respeito a um jogo truncado, cheio de faltas, marcado mais por jogadores do que pela técnica em si. Muitas dessas “guerras” acontecem em partidas decisivas ou em confrontos entre equipes rivais.  

Contudo, uma delas, em 1969, terminou, de fato, em uma guerra. Na ocasião, Honduras e El Salvador se enfrentariam em busca de uma vaga na Copa do Mundo de 1970, no México. Entretanto, a briga política entre os países ultrapassou a barreira das quatro linhas e foi direto ao campo de futebol.   

Um dos lances da partida / Crédito: Divulgação/ YouTube/ Football Geeks

 

17 dias após o terceiro confronto e classificação de um dos países, um Guerra estourou entre os dois vizinhos. O conflito, que aconteceu entre a manhã do dia 14 e a noite do dia 18 de julho de 1969, ficou conhecido como a Guerra das 100 horas, ou a Guerra do Futebol.  

Eliminatórias 

No meio daquele ano, as eliminatórias da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) chegava à semifinais. Como o México, país que sediaria a Copa de 1970, já estava classificado para o mundial, sobrara apenas mais uma vaga para a Confederação, que seria destinada ao campeão do continente.  

Assim, Honduras e El Salvador, que já haviam enfrentando problemas externos, se enfrentariam nas semifinais do torneio. Para o duelo, entretanto, os torcedores incorporaram todo clima de animosidade política entre os países e fizeram uma verdadeira guerra em campo.  

Na primeira partida, em Tegucigalpa, Honduras, os visitantes foram derrotados pela vantagem mínima: 1x0. Além da disputa dentro de campo, o jogo ficou marcado pelo panelaço e foguetório que a torcida local fez em frente à concentração dos salvadorenhos na noite anterior.  

Um dos gols do jogo / Crédito: Divulgação/ YouTube/ Football Geeks

 

No jogo de volta, os hondurenhos receberam a gentileza de volta, só que, desta vez, o hotel da delegação foi apedrejado e, até mesmo ratos mortos e bombas foram jogados no saguão do local. A ameaça de invasão foi tamanha que os atletas de Honduras tiveram que se refugiar na casa de compatriotas que viviam em El Salvador.  

Já no dia do jogo, no estádio Flor Branca, as torcidas dos dois países brigaram antes, durante a após o jogo. A confusão ocasionou a morte de dois hondurenhos. Visivelmente abalados, os jogadores de Honduras foram derrotados por 3 a 0. 

Com o empate em número de vitórias, um jogo de desempate foi marcado para um campo neutro. A partida seria disputada em 27 de junho, no México. Um dia antes da decisão, o governo de Honduras anunciou que rompera relações diplomáticas com El Salvador.  

Dentro de campo, o jogo foi o mais disputado entre os três, com El Salvador vencendo por 3 a 2 com um gol na prorrogação da partida. “Sabíamos da repercussão que aquela derrota teria. Fizemos de tudo pela classificação, mas infelizmente não foi possível”, contou à AFP, que foi repercutida pelo El País, o ex-capitão de Honduras, Tonín Mendoza

A Guerra e o verdadeiro motivo 

17 dias após a classificação de El Salvador, uma guerra entre os dois vizinhos se instaurou. Apesar da hostilidade entre as nações existir de fato dentro de campo, não foi o âmbito esportivo que provocou o conflito, muito pelo contrário, o que aconteceu em campo era só uma extensão do que vinha correndo entre os dois países ao longo dos anos.  

Ao longo da década de 1960, três pontos cruciais explicam a rixa entre eles: 1º) a organização de um mercado de livre circulação entre países da América Central que inundou Honduras de produtos industrializados de outros países, em especial El Salvador, o que causou prejuízo à balança comercial; 2º) um problema de fronteiras entre os dois países que constantemente virava alvo de pequenos embates e incursões militares ilegais; e 3º) problemas de crise migratória, com salvadorenhos cruzando em massa a fronteira até Honduras, ocupando terras pouco povoadas.  

“A guerra não teve nada a ver com a gente. Tanto que nós somos amigos até hoje. Claro que quando os derrotamos, eles ficaram frustrados, choraram. E nós os consolamos, abraçamos. Como tem que ser quando se trata de irmãos”, contou o ex-zagueiro salvadorenho Salvador Mariona em entrevista ao Globo Esporte.  

Ao longo das 100 horas de conflito, mais de 5 mil pessoas morreram, sendo a maioria civis. O conflito só cessou quando a Organização dos Estados Americanos (OEA) interveio e negocio o cessar-fogo.  

Um lance do jogo / Crédito: Divulgação/ YouTube/ Football Geeks

 

Assim como nos campos, o governo de El Salvador comemorou a vitória no conflito, sendo elogiados pela atuação dos militares nos frontes. Entretanto, isso só serviu para uma ascenção militar no país que, mais tarde, sofreu a implantação de regimes ditatoriais que culminaram em umas das mais longas e sangrentas guerras civis das Américas.  

Já Honduras rompeu seus acordos comerciais não só com os rivais, mas com todos os países que compunham o Mercado Comum Centroamericano (Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica), o que levou à dissolução da integração regional, acarretando na expulsão em massa de camponeses vindos de El Salvador.  

“Os jogos entre Honduras e El Salvador pelas Eliminatórias foram somente a gota d’água que fez o copo transbordar”, afirma o historiador hondurenho Jorge Amaya em entrevista ao El País. “Nenhum povo seria tão estúpido a ponto de entrar em guerra por causa do resultado de uma partida”. 


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