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43 anos sem João Goulart: como morreu o ex-presidente?

O gaúcho derrubado pelo Golpe de 1964 morreu, oficialmente, de ataque cardíaco. Porém, teorias apontam que ele teria sido envenenado

Jânio de Oliveira Freime Publicado em 06/12/2019, às 07h00 - Atualizado às 09h00

Jango com suas roupas de estancieiro em seu rancho
Jango com suas roupas de estancieiro em seu rancho - Getty Images

João Belchior Goulart foi um dos presidentes mais marcantes de nossa História. Nascido em São Borja, no ano de 1919, era filho de estancieiros açorianos que fizeram a vida com gado. Como político, se destacou ao se aproximar do conterrâneo Getúlio Vargas, chegando a ser seu mais destacado Ministro do Trabalho, antes de ser vice-presidente de JK e Jânio e, então, presidente da República.

Como presidente, se aliou às camadas mais baixas, como operários, camponeses, marinheiros e desempregados em nome da Bandeira Unificadora, projeto que tinha como questão principal as Reformas de Base (agrária, eleitoral, fiscal, política, educacional, etc.), que eram ameaças ao poder econômico hegemônico das elites, fator que conduziu seu governo ao trágico fim que foi o Golpe Militar de 1964. O evento obrigou Jango a se exilar no Uruguai e na Argentina, onde faleceu, sendo o único presidente brasileiro a morrer no exterior.

A morte de Jango é circundada por polêmicas agravadas. O gaúcho morreu oficialmente de ataque cardíaco, em Mercedes, Argentina, em 1976. No entanto, desde o episódio, a versão apresentada é contestada por amigos, familiares e aliados.

Jango no Rio Grande do Sul / Crédito: Domínio Público

 

Há a versão de que ele teria sido morto na Operação Condor, por medo do governo brasileiro de um possível retorno da liderança trabalhista. A polêmica se tornou mais acalorada em 2008, quando a Folha de S. Paulo publicou a matéria em que o ex-agente uruguaio Mario Neira Barreiro afirmou que Jango foi envenenado a ordem de Sergio Fleury.

Essa é a tese de Christopher Goulart, advogado e neto do presidente. Essa hipótese vai ao encontro do respaldo documental divulgado em Montevidéu por Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, que indicam que Jango não estava mais em condição de asilo no Uruguai e que poderia ter sido abordado na Argentina para que fosse impedido seu retorno ao Brasil.

Porém, é difícil concluir com maior certeza sobre o tema, pois os arquivos do governo e do Exército brasileiro não são abertos para averiguação. E, na época dessa divulgação, a família Goulart não havia permitido uma autópsia do corpo do gaúcho.

João Goulart, derrubado em 1964, e John Kennedy, um relevante responsável pelos golpes na América Latina / Crédito: Getty Images

 

Porém, Krischke aponta uma série de indícios a favor dessa versão: desde o assassinato de Zelmar Michelini, Héctor Gutiérrez Ruiz e diversos outros líderes da esquerda latinoamericanas no mesmo ano, a morte mal explicada de JK e a eleição de Carter nos EUA, nascendo a necessidade de limpar a oposição para uma possível abertura politica na América Latina.

Porém, essa versão não é completamente aceita, pois é de impossível provação. Por exemplo, Miro Teixeira, político veementemente brizolista, afirmou que “não há como afirmar, peremptoriamente, que João Goulart foi assassinado.”

Moniz Bandeira, historiador renomado, também não crê na teoria do envenenamento. Segundo ele, a família do ex-presidente estaria em busca de indenizações indevidas, que faltam provas para as acusações e que Jango poderia muito bem ter morrido em um ataque cardíaco, dado seu histórico de saúde e sua falta de cuidado com o corpo.

Em 2014, finalmente, foi realizada uma autópsia nos restos mortais de Jango, que hoje repousam em São Borja. Testes de diversas substâncias foram realizados, mas a conclusão do estudo foi infeliz: inconclusivo. Não foram encontrados traços de veneno no corpo, mas ainda é impossível descartar a hipótese, segundo os peritos. Depois de quatro décadas da morte do desterrado, uma análise desse porte é bastante difícil.

Jango com seu cunhado e aliado político, Leonel Brizola / Crédito: Domínio Público

 

"Do ponto de vista científico, as duas opções se mantêm. É importante a continuidade de investigação por outros meios", afirmou Jorge Perez, perito cubano que acompanhou a investigação ao lado da família Goulart. O tema, que se tornou de atenção internacional, ainda move debates fervorosos. Não é possível afirmar como João Goulart morreu, apenas que é plenamente plausível que ele, grande alvo da Ditadura Militar, ter sido vítima das execuções aprovadas por Geisel.


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