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Matérias / Mundo

49 anos depois, o fim da disputa entre Canadá e Dinamarca por uma ilha desabitada

O países, que pertencem a continentes diferentes, chegaram a um acordo pela ilha desabitada

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 19/06/2022, às 11h00

Ilha Hans, localizada no Ártico, entre o Canadá e a Groenlândia - Foto por Toubletap via Wikimedia Commons
Ilha Hans, localizada no Ártico, entre o Canadá e a Groenlândia - Foto por Toubletap via Wikimedia Commons

A Ilha Hans é um pedaço de terra de 1,5 quilômetros quadrados em meio ao oceano Ártico que é totalmente inabitado devido ao clima extremo e localização remota. Esse terreno improvável, contudo, foi alvo de uma disputa entre os governos da Dinamarca e do Canadá por quase meio século. 

O conflito teve início em 1973, após a determinação da fronteira marítima entre o território canadense e a Groenlândia, uma região que, embora considerada autônoma, pertence ao Reino da Dinamarca. 

Interesses políticos

O fato desses dois países terem tanto interesse em declarar a posse da ilhota deserta pode despertar estranheza, dada a aparente irrelevância do local. As motivações por trás da batalha não-militar, contudo, são de natureza geopolítica.  

Para as autoridades dinamarquesas, a importância da Ilha Hans reside no mantimento de boas relações com a Groenlândia.

Já para o governo canadense, a vitória nesta questão ajudaria em um segundo confronto, esse com os Estados Unidos, que é pelo mar de Beaufort e possui elementos maiores em jogo, uma vez que o trecho oceânico é rico em petróleo e gases naturais, conforme informações repercutidas pelo UOL. 

A disputa pela Ilha Hans, embora estendendo-se por décadas, foi marcada pela abordagem mais diplomática que combativa. Frequentemente, os governos dos países enviaram helicópteros para pousar no território, deixando para trás a bandeira de sua respectiva nação e uma garrafa de uísque de produção nacional.

Dessa forma, quando uma equipe enviada pelo "inimigo" aportasse no local, ela poderia, além de trocar a bandeira hasteada, levar a bebida adversária consigo, e deixar sua própria. Essa situação curiosa levou o confronto a ser por vezes nomeado de "guerra do uísque". 

Fotografia mostrando comandante dinamarquês na Ilha Hans em 2003 após viagem para hastear bandeira / Crédito: Divulgação/ Per Starklint/ Arquivo Pessoal

"Acho que foi a mais amigável de todas as guerras", comentou Melanie Joly, a ministra de Relações Exteriores do Canadá, em uma coletiva de imprensa após o acordo entre seu governo e o da Dinamarca. 

Conciliação 

Para resolver o problema de décadas, as nações simplesmente decidiram dividir o território entre os países, de forma que agora existe uma fronteira terrestre entre Canadá e Dinamarca, ainda que um pertença à América e outro à Europa. 

Durante a coletiva de imprensa citada, que ocorreu na província canadense de Ontário e contou com a presença do ministro de Relações Exteriores dinamarquês, até chegou a surgir a sugestão de que agora o governo do país norte-americano podia se candidatar para entrar na União Europeia, mas ela foi tratada como brincadeira, sem ser levada a sério. 

O acordo foi considerado de grande relevância ao ser contextualizado em meio à guerra iniciada pela Rússia contra a Ucrânia, em que o exército invasor busca "libertar" territórios ucranianos de "domínio nazista", conforme afirmado anteriormente por representantes do Kremlin. 

Como a segurança global está ameaçada, é mais importante do que nunca que democracias como Canadá e Dinamarca trabalhem juntas, com os povos indígenas, para resolver nossas diferenças de acordo com o direito internacional", afirmou Joly na ocasião, segundo apurado pela Reuters. 

"Vemos graves violações das normas internacionais se desenvolvendo em outra parte do mundo. Pelo contrário, mostramos como disputas antigas podem ser resolvidas pacificamente seguindo as regras", completou a diplomata.