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5 perguntas bacanas para fazer ao seu professor de História

A História é uma disciplina dinâmica feita mais de perguntas do que de respostas. Conheça 5 questões instigantes para gerar um bom debate em sala de aula

André Nogueira Publicado em 01/04/2019, às 11h33

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Reprodução

A sala de aula não pode se restringir a alunos quietos que ouvem e anotam o que o professor fala, sem que haja o engajamento do aluno para entender e raciocinar o conteúdo para que ele, não sendo só uma informação decorada para a prova, possibilite um conhecimento para se utilizar na vida.

Uma das melhores maneiras de se fazer isso é através de questionamentos, possibilitando debates que exigem do aluno raciocínio crítico e análise das informações, coisas essenciais para o conhecimento histórico. Diferentemente do que é apresentado normalmente na escola, em História se faz mais perguntas e se questiona mais o que é tido como “certo” do que se decoram verdades absolutas.

Conheça então 5 perguntas capciosas para gerar debate em sala e possibilite que seu professor guie os alunos para conhecimentos novos!

*É sempre bom lembrar algumas coisas: as mudanças de perspectiva em relação aos eventos citados aqui não envolvem a ideia de que os professores de História estão mentindo ou enganando seus alunos, mas sim estão seguindo currículos e convenções estabelecidas para a escola, ou seja, alguns fatos que poderão ser contestados com essas perguntas podem, mesmo assim, aparecer em provas nacionais que exigem o conteúdo mais tradicional de História, não sendo culpa do professor. Ao mesmo tempo, se o seu professor não souber responder alguma dessas perguntas, isso não provaria nenhuma incapacidade dele. Estas perguntas servem para abrir debates e gerar reflexões, não sendo obrigação de ninguém ter respostas prontas para elas.

1) Por que os famosos mapas sobre as invasões bárbaras ao Império Romano remetem a mapas criados na Alemanha dos anos 1930?

Esses mapas são bastante famosos. É comum vermos mapas do Império Romano em que os arredores são compostos por outros Estados, associados aos “povos germânicos”, que invadiriam o território romano e acabariam com seu império. Porém, hoje em dia sabemos que os tidos “povos germânicos” da Europa não possuíam nenhuma coesão indenitária, muito menos um Estado e não permaneciam necessariamente no mesmo lugar.

Seria impossível, na Antiguidade, estabelecer as fronteiras entre os povos chamados de “bárbaros” pelos romanos e a configuração desses mapas não é um fato estabelecido pela realidade, mas é uma convenção histórica sobre o assunto estabelecida e generalizada, principalmente, durante a expansão da arqueologia alemã entre os anos 1930 e 1940.

Por que razão será nesse lugar e nessa época que se produzirá esse material que associava cada povo a um Estado, uma identidade e à vitória contra os latinos?

Mapa tradicional de povos germânicos (Wikimedia Commons)

 

2) Jango era realmente comunista?

Em 1964, quando os militares deram um golpe de Estado contra João Goulart, uma das justificativas para o ato era o suposto fato de que Jango era um comunista, associado à ideologia marxista. Porém, quando vemos as propostas e o passado deste político, observamos algumas inconsistências.

Jango vinha de uma família de latifundiários gaúchos e propunha, em suas Reformas de Base, que cada trabalhador brasileiro tivesse a sua casa e seus bens e que cada camponês pudesse ter a posse e a propriedade de seu pedaço de terra para poder produzir e integrar à economia brasileira, que faria negócios com qualquer país do mundo (dos EUA à China comunista). Porém, a proposta comunista e marxista para a economia envolvia a abolição da propriedade privada e a coletivização de todos os meios de produção, fazendo da proposta de Jango inconsistente à uma visão marxista de economia.

Como isso se encaixa, então? Jango era realmente um comunista, mesmo defendendo a propriedade privada?

Jango em visita diplomática aos EUA (Wikimedia Commons)

 

3) Por que, a partir do século XV, dizemos que começou o período do "Renascimento"?

É comum associarmos ao século XV o momento de retorno das sociedades europeias às referências clássicas gregas e romanas, colocando que o momento é o reascender da filosofia e da racionalidade, em contraposição à Idade Média, momento de irracionalidades e uma única referência filosófica que seria o cânone cristão.

Porém, se voltarmos aos séculos medievais, vemos, por exemplo, pensadores cristãos que se baseiam na filosofia clássica para desenvolver seus escritos. É o caso, por exemplo, de São Tomás de Aquino, que remete toda sua filosofia a Aristóteles. Desde Santo Agostinho de Hipona, há toda uma corrente filosófica e teológica autoproclamada neoplatonista, em referência pouco duvidável a Platão, filósofo grego. O movimento de retorno a Platão na idade média foi de tamanha relevância que a proposta filosófica vai desencadear até em uma guerra, a conhecida Querela Iconoclasta de Bizâncio.

Sendo assim, por que dizemos que é só no século XV que existe um retorno aos clássicos greco-romanos na filosofia e na Arte?

Execução de monges medievais por iconoclastas (Wikimedia Commons)

 

4) Como fazer uma História dos índios no Brasil antes da chegada dos portugueses?

Estamos muito acostumados a pensar a História a partir de uma perspectiva europeia, em que se discutem os reis, os impérios e as políticas institucionais. Ao mesmo tempo, quando pensamos em documentos históricos para reconstituir o passado, estamos praticamente viciados em pensar em documentos escritos, tratados, termos de posse e, no máximo, pinturas e imagens.

Porém, quando migramos nosso olhar para os índios na América, e principalmente no Brasil, não vemos esse tipo de documento, pois os indígenas não utilizavam a escrita como forma de perpetuação das informações e, também, não se associavam politicamente a partir da noção de rei ou mesmo de Estado (na verdade, segundo certa antropologia ligada a Pierre Clastres, seriam sociedades contra o Estado).

Dessa forma, fica a dúvida: como é feita a história indígena? Que tipo de documento é utilizado? No que consiste uma história indígena?

Pintura do povo apiaka, do MT (reprodução)

 

5) O que é História na prática?

História é uma disciplina, por enquanto, obrigatória na escola. Estamos acostumados a ouvir esse termo: História. Porém, quando ouvimos ou falamos sobre elas, é comum pensarmos em uma série de verdades sobre o passado que já são tidas como certezas às estabelecidas de eventos que já passaram e não têm como ser mudadas.

A partir dessa perspectiva, não haveria razão pela qual estudar esse assunto e pesquisar, porém há ainda hoje importantes pesquisas em História e o estudo dela ainda é fundamental para vivermos em sociedade. Sendo assim, fica uma dúvida bastante relevante: Para além do passado em si, o que é a História como disciplina ou ciência? O que faz um historiador? No que consiste uma pesquisa séria de História e por que “História” não é sinônimo de “passado”?

Clio, musa da História (Wikimedia Commons)