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60 anos de mentira: o assobio que matou Emmett Louis Till, um garoto negro dos EUA

Aos 14 anos, o garoto foi brutalmente assassinado em um caso extremo de fake news

Penélope Coelho Publicado em 18/04/2020, às 09h00

Emmett Louis Till em 1954
Emmett Louis Till em 1954 - Wikimedia Commons

No verão de 1955, o jovem Emmett Louis Till foi passar as férias com seu tio, na pacata cidade de Money, Mississipi. Antes de partir, sua mãe Mamie Till Bradley, alertou o filho dizendo que Chicago (cidade onde eles moravam) e Mississippi eram dois mundos diferentes. Assim, a mulher pediu para que Till se comportasse na frente dos brancos no sul.

As estatísticas sobre linchamentos nos EUA começaram a ser coletadas em 1882. Desde então, mais de 500 afro-americanos foram mortos dessa maneira somente no Mississippi.

As tensões raciais aumentaram após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de acabar com a segregação na educação pública. Muitos brancos detestaram essa decisão e o clima nas cidades do sul estava cada vez mais pesado.

Emmett garantiu que havia entendido o recado da mãe. Mal sabia o garoto que, após uma ida ao mercado em Money, na companhia de seus amigos, na tarde de 24 de agosto daquele ano, sua vida seria brutalmente interrompida.

Fatídico encontro 

Em 24 de agosto, ele e o primo Curtis Jones fugiram da igreja onde o tio-avô, Mose Wright, estava pregando e se juntaram a alguns garotos locais para irem até mercado Bryant comprar doces. A mercearia era do casal Roy Bryant, de 24 anos e de Carolyn Bryant, 21 anos. Carolyn, que estava sozinha na loja naquele dia, afirmou que Till havia assobiado para ela e que quando saiu mandou tchau de um jeito "despojado demais".

Carolyn Bryant contou para as pessoas da cidade sobre o acontecido na loja e os boatos se espalharam rapidamente. Tudo piorou quando isso chegou aos ouvidos de Roy Bryant, um homem violento e impaciente.

Aparentemente, as piadas do menino, engraçadas em Chicago, norte dos EUA, não tinham a mesma conotação no Mississipi, um lugar marcado pela segregação e preconceito racial. 

Brutalidade

O assassinato ocorreu no dia 28 de agosto, quando Bryant e seu irmão, JW Milam, pegaram o carro, ao lado de sua esposa Carolyn, com o intuito de ensinar uma lição ao menino. Quando Carolyn identificou Emmett, os homens o colocaram na parte traseira de uma caminhonete e o levaram para uma cidade vizinha, onde mataram o garoto friamente.

Mamie Till no funeral de Emmett / Crédito Wikimedia Commons

 

Após ser espancado, arrancaram-lhe um olho e em seguida atiraram. Em seguida, jogaram o corpo do garoto no rio em outra cidade ao norte de Money. Emmett foi dado como desaparecido, até que, três dias após o sequestro, seu corpo foi encontrado extremamente desfigurado boiando no rio Tallahatchie.

Os irmãos Bryant alegaram que aquele não era o corpo de Emmett e que as acusações eram equivocadas, no entanto, o garoto usava um anel que tinha ganhado de sua mãe um dia antes da viagem. Assim seu corpo foi identificado. Roy e JW, acusados pelo desaparecimento do menino, foram presos no início de setembro. Mas a justiça não duraria muito tempo.

Em 23 de setembro, numa sessão de apenas uma hora, o júri absolveu os acusados. Essa decisão gerou revolta, deixando diversos cidadãos negros indignados, provocando o aumento significativo do Movimento pelos Direitos Civis, principalmente em jovens.

A verdade veio à tona

60 anos depois do crime brutal, Carolyn  Bryant apareceu na mídia dizendo que a história que ela tinha contado em 1955, era uma mentira. No livro O Sangue de Emmett Till, o autor Timothy Tyson, um estudioso da pesquisa da Universidade Duke, revela que em 2007, Carolyn, aos 72 anos, admitiu que ela havia inventado seu testemunho, e que Till nunca se insinuou para ela. Porém, convenientemente afirmou que não se lembrava de mais detalhes daquela tarde de agosto.

A história de Till se tornou símbolo de resistência e luta para o movimento americano. Seu nome está em marcos espalhado por vários locais do Mississipi, para que o povo americano nunca se esqueça de tamanha injustiça. A morte influenciou para sempre a história de luta do movimento negro.


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