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80 minutos debaixo da água gelada: a desventura de Anna Bågenholm

Enquanto praticava esqui em uma montanha na Noruega, a radiologista sofreu um acidente traumático que parou seu coração

Pamela Malva Publicado em 23/07/2020, às 14h50

Anna Bågenholm durante entrevista sobre o acidente
Anna Bågenholm durante entrevista sobre o acidente - Divulgação/Youtube/BBC

O corpo humano, em toda a sua complexidade, é uma das máquinas mais misteriosas da natureza. Ainda que saibamos muita coisa sobre os órgãos e sobre o funcionamento geral do sistema, muitos comportamentos são considerados verdadeiros mistérios.

Em momentos de crise, por exemplo, quando exposto à condições extremas, o corpo trabalha de uma forma singular. Nessas situações, o nosso próprio sistema encontra soluções únicas, pouco entendidas pela ciência.

Foi esse o caso de Anna Bågenholm, uma radiologista de 29 anos, que passou por um episódio traumático. Na ocasião, o corpo da mulher foi forçado ao seu limite e, mesmo assim, teve de encontrar uma forma de sobreviver.

Fotografia de Anna Bågenholm / Crédito: Divulgação/Youtube

 

 Neve escorregadia

Em maio de 1999, Anna Bågenholm e seus amigos, todos médicos, saíram em busca de uma aventura cheia de adrenalina. Com esquis nas mãos, os jovens subiram até o topo das montanhas de Kjolen, na Noruega.

As condições climáticas estavam favoráveis para o esporte e tudo parecia correr da forma planejada. Toda a situação, no entanto, saiu do controle quando Anna desceu uma ladeira, seus esquis descontrolados, e caiu de cabeça em um rio congelado.

Presa entre duas pedras de gelo enormes, a mulher não conseguiu sair sozinha e ficou submersa na água congelante. Seu amigos tentaram puxar suas pernas, a fim de trazê-la para a superfície, mas os esforços foram em vão.

Anna Bågenholm durante entrevista coletiva em 2000 / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Terror glacial

Enquanto os amigos de Anna buscavam ajuda e ligavam para a emergência, a correnteza do riacho puxava a jovem para dentro da água cortante. Com sorte, ela encontrou uma bolsa de ar sob o gelo e conseguiu respirar por algum tempo.

Em 40 minutos de puro desespero, ela parou de se mexer. Imerso em um lago frio e impiedoso, o corpo de Anna estava no limite e seus movimentos diminuíram em um cenário que parecia trágico. No final, a médica ficou 80 minutos debaixo da água.

Quando o socorro chegou, a jovem já não estava mais respirando e seu coração parecia ter parado de bater. Desacordada, Anna foi levada às pressas para o Hospital Universitário do Norte da Noruega, em Tromsø.

Imagem meramente ilustrativa do modelo de helicóptero que levou Anna para o hospital / Crédito: Wikimedia Commons

 

Choque térmico

Logo que a mulher foi colocada na cama do hospital, inconsciente, os médicos ficaram surpresos ao perceber que ela tinha uma temperatura corporal de 13,7 ºC. Aquela era uma condição sem precedentes: nenhum corpo jamais passou pela mesma situação.

Frente à paciente fria, completamente branca e sem pulso, a médica Mads Gilbert esperava pelo melhor. No geral, a expectativa era que o choque da água gelada tivesse feito o cérebro de Anna desacelerar, protegendo-a de danos maiores.

Ainda sem sinais de vida, a jovem foi conectada a diversos aparelhos, que fizeram com que o sangue voltasse a circular por suas veias, agora oxigenado. Em questão de poucas horas, o corpo de Anna começou a esquentar, atingindo uma temperatura aceitável.

Anna Bågenholm em entrevista / Crédito: Divulgação/Youtube/BBC

 

Recuperação inesperada

Na tarde do dia seguinte à internação, quase 24 horas depois do acidente, o coração da paciente voltou a bombear sangue por conta própria. Para os médicos, foi uma conquista inacreditável. Para os familiares e amigos, foi um verdadeiro milagre.

Ainda que os eletrocardiogramas de Anna já indicassem um forte batimento cardíaco, a jovem demorou para acordar. Nesse sentido, ela apenas abriu os olhos depois de 12 dias internada, sob os cuidados incansáveis da equipe médica.

A recuperação foi lenta, já que os nervos da radiologista foram bastante danificados pela água congelante, mas Anna voltou a se movimentar sem sequelas em pouco mais de um ano. Apesar dos pesares, ela estava bem e sua vida não estava mais em risco.

Imagem de Anna Bågenholm em 2000 / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Grandes mudanças

O caso drástico de Anna — que teve seu coração parado por horas — fez com que muitos médicos mudassem a forma de enxergar mortes por hipotermia. Antes da jovem, nenhum paciente do hospital norueguês havia sobrevivido às condições extremas.

Entre 1999 e 2013, todavia, graças à recuperação de Anna, nove em cada 24 pacientes da instituição sobreviveram à paradas cardíacas hipotérmicas. Agora, os especialistas até mesmo induzem a hipotermia em pacientes, para usar a desaceleração do cérebro a favor da recuperação completa.

Anos depois do acidente e de seu tratamento, Anna Bågenholm está totalmente recuperada e vive uma vida normal com amigos e família. A única diferença é que, agora, ela trabalha no mesmo hospital que salvou sua vida, na Noruega.


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