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A controversa saga dos Bandeirantes: expansão do território brasileiro resultou no genocídio indígena

No século 17, os bandeirantes penetraram nos rincões do Brasil não explorado. O objetivo era caçar índios e escravizá-los. E como resultado houve a expansão do território e o maior genocídio de nossa história

Reinaldo José Lopes Publicado em 26/07/2021, às 10h00

Imagem da estátua de Borba Gato, em São Paulo
Imagem da estátua de Borba Gato, em São Paulo - Geogast via Wikimedia Commons

Abra aquele seu atlas empoeirado (ou o digitalizado) e dê uma boa olhada no mapa do Brasil. Já se perguntou por que quase todas as grandes cidades concentram-se na beirada do Atlântico, enquanto o miolo do país é quase um imenso vazio? Ou por que, apesar disso, o território avançou feito uma onda para o interior da América do Sul? Pois vamos contar aqui a trajetória dos sujeitos que foram, em grande parte, responsáveis por esse gigantismo desigual.

É a história de jornadas épica feitas por motivos deploráveis, como escravidão e genocídio. O apelido que esses homens deixaram para a posteridade você já deve ter ouvido: bandeirantes. Para facilitar, vamos chamá-los assim mesmo. Mas é bom tirar da cabeça a imagem heroica daqueles patriarcas com chapelão, pistola luzindo e botas de couro que se vê por aí.

“O curioso é que só nos últimos dez ou 20 anos se tenha passado a revisar com mais empenho tal visão tradicional, embora a crítica dela venha de longe”, afirmou o historiador Ronaldo Vainfas. Os bandeirantes do mundo real, que saíram de São Paulo para varrer o interior do Brasil nos séculos 17 e 18, eram selvagens, paradoxalmente muito parecidos com os índios, cujo cativeiro ou assassinato era seu ganha-pão.

Nos primeiros anos do contato entre indígenas e portugueses, a região onde está hoje São Paulo virou território de um tipo todo especial de gente. O patriarca dessa dinastia nada nobre é o português João Ramalho, que, no começo do século 16, embrenhou-se nas aldeias tupiniquins que se espalhavam pelo planalto paulista. Com uma mistura peculiar de jeitinho e truculência, Ramalho tornou-se genro e aliado do grande chefe tupiniquim Tibiriçá, bem como homem-chave de Portugal na região.

Com várias esposas e uma multidão de filhos mestiços, ele gozava dos mesmos privilégios de qualquer líder indígena – para horror dos jesuítas, que não se conformavam com o fato de ter de pedir a bênção ao herege europeu. O fato, porém, é que o português ajudou a garantir o apoio dos índios para fundar a capital paulista e contribuiu na luta contra tribos muito mais hostis do que os tupiniquins, os tupinambás ou tamoios, que ameaçavam autoridade da Coroa portuguesa por aqui.

Monumento às Bandeiras / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

 

No início, os europeus usaram com requinte a aliança entre índios e portugueses como Ramalho para suprir sua necessidade de escravos. Aproveitaram com primazia também o costume de todos os povos que falavam tupi de fazer cativos nas suas guerras. Só que havia, lógico, uma diferença fundamental: os tupis devoravam seus prisioneiros em um ritual elaborado, enquanto os portugueses queriam escravos para a lavoura – um processo bem mais insaciável que o canibalismo ritual. O resultado foi a desestruturação completa da sociedade indígena no planalto.

Com o tempo, mesmo os índios aliados voltaram-se contra os colonos. Acabaram escravizados, mandados para missões religiosas ou trucidados. No fim do século 16, São Paulo tinha sido esvaziada de “mão de obra” – e, ao mesmo tempo, presenciava a consolidação da casta de caçadores de índios. Boa parte deles era de mamelucos, filhos de mãe índia e pai branco, embora houvesse também portugueses. “Muitos falavam línguas nativas e adotavam práticas culturais das sociedades indígenas, como a poligamia”, descreveu o escritor João Fragoso.

Padrão tupi

Sempre descalços, os caçadores de índios usavam tanto o arco e a flecha quanto espadas, facões e armas de fogo. Suas armaduras eram couro de anta ou camisas cruas de algodão acolchoado. E, como qualquer cacique, comandavam guerreiros indígenas – seus escravos. “Eles não substituíram os caciques. Ainda assim, é intrigante como as relações de poder e reciprocidade mostram um padrão tupi”, afirmou o historiador John Manuel Monteiro.

Esses paulistas sabiam exatamente o que fazer para dar um jeito na escassez de escravos. Ao sul e a oeste de sua vila, os atuais Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul abrigavam tribos guaranis, que falavam uma língua muito próxima do tupi. De quebra, os guaranis também tinham fama de ser agricultores de mão-cheia – e muitos estavam sendo reunidos em missões pelos jesuítas, o que fazia deles alvos fáceis.

A região virou assim reduto de caça. Os bandeirantes encarnavam os nossos “foras da lei”. As tais áreas de, digamos, atuação nem pertenciam ao território português definido pelo Tratado de Tordesilhas, que repartiu a América do Sul entre Portugal e Espanha. A rigor, também não era permitido escravizar índios se não fosse na chamada guerra justa, para revidar uma agressão, por exemplo, muito menos índios que estavam sendo cristianizados.

Milícia com bandeiras e tambores

Durante o século 17, o sucesso das expedições ao sul e ao oeste de São Paulo fez com que as empreitadas virassem grandes operações. Em 1628, por exemplo, paulistas e soldados tupis prepararam-se para invadir as missões do Guairá, hoje oeste do Paraná. Seu líder era Antônio Raposo Tavares, um dos primeiros bandeirantes a virarem sinônimo de destruição.

O bandeirante Raposo Tavares / Crédito: Museu Paulista/Domínio Público via Wikimedia Commons

 

Sobre a expedição, escreveu na época o vigário Pedro Homem Albernaz, do Rio de Janeiro: “E assim para estas entradas levantam capitães e oficiais de milícia com bandeiras e tambores”. Havia mais: quatro companhias, cada uma com seu capitão, e a de Tavares estava dividida em unidades de vanguarda e retaguarda. Estima-se que 2 mil índios e 900 bandeirantes tenham participado do evento.

A estratégia era simples e eficaz. Cercavam as aldeias ou missões e persuadiam sua população a “acompanhar” a expedição de volta a São Paulo. Para evitar fugas, os invasores carregavam grande quantidade de correntes. Quem ousava resistir tinha a aldeia incendiada, mas os jesuítas relatam que velhos, crianças e doentes podiam sofrer destino ainda pior: na viagem de volta, os homens de Raposo Tavares jogavam-nos para os cães, para não atrapalharem a caminhada de cerca de 60 dias.

Ao longo dos anos, os guaranis viraram o tipo mais comum de escravo em São Paulo, aproveitados principalmente para cultivar os latifúndios de trigo dos bandeirantes. Tanto é assim que o termo “carijó”, usado pelos paulistas para se referir a esse povo, virou sinônimo genérico de “escravo”.

O avanço dos sertanistas acabou sendo barrado por índios e jesuítas bem armados, na chamada Batalha de Mbororé, em 1640. Mas o estrago já estava feito: as missões mais próximas de São Paulo nunca se reergueram. Os bandeirantes, Raposo Tavares entre eles, por sua vez, tinham virado vítimas do próprio sucesso. Perderam a grande fonte de escravos ao sul e, como a vida dos índios guaranis nas fazendas não era exatamente como numa colônia de férias, precisavam constantemente repor sua mão de obra. É por isso que, depois da derrota de M'Bororé, as expedições embrenharam-se cada vez mais no Brasil central, onde tribos bem menos dóceis que os guaranis – e de língua e costumes desconhecidos – estavam à espera deles.

O que se viu daí para a frente foi uma guerra.

O grupo de Raposo Tavares, por exemplo, resolveu tentar a sorte nas missões jesuíticas do Itatim, ao longo do Rio Paraguai. Tomaram uma sova e, na tentativa de fugir, penetraram na região norte da colônia. Perseguidos pelos paiaguás – um feroz grupo de índios canoeiros –, a turba entrou no Rio Madeira e foi parar no Amazonas, chegando a Belém do Pará em 1651, três anos e dois meses depois de deixar São Paulo.

“Os que restavam mais pareciam desenterrados que vivos”, relatou o jesuíta e escritor padre Antonio Vieira. Para caçar índios, os sertanistas precisavam sempre de um bom pretexto, e procurar ouro, prata e outras pedras preciosas passou a ser a desculpa perfeita. Na segunda metade do século 17, no entanto, os bandeirantes começaram, de fato, a se aproximar dos metais preciosos.

A bandeira de Fernão Dias Paes, que partiu em 1674 de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, foi a primeira a se dirigir para o sertão de Minas Gerais. Fernão Dias fundou vários arraiais na região e escravizou tribos. Ao morrer, em 1681, acreditava ter achado uma jazida de esmeraldas – mas tudo indica que se tratava, na verdade, de turmalinas, pedras verdes de valor muito menor. Na trilha dele, outros aventureiros acabariam descobrindo o ouro de Minas.

Diabo velho

Destino bem melhor tiveram os “Anhangueras” – apelido dado a Bartolomeu Bueno da Silva, pai e filho, que exploraram o interior de Goiás no fim do século 17 e começo do século 18. Conta-se que o patriarca da família ganhou o apelido num truque genial. “Anhanguera” quer dizer “diabo velho” em tupi, e se referiria ao fato de Bueno da Silva ter dominado uma tribo ameaçando tocar fogo em suas fontes d’água. Como? Mostrando a eles uma vasilha cheia de cachaça e queimando o líquido.

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Pintura de Domingos Jorge Velho / Crédito: Museu Paulista/Domínio Público via Wikimedia Commons

Diz-se que a tribo teria não só se submetido, mas também dado ao bandeirante enfeites de ouro, além de indicar onde haviam achado o metal. Mas o genitor não conseguiu organizar a exploração, sendo sucedido por seu filho em 1720. Depois de quase morrer de fome, ele encontrou ouro no Rio Vermelho e foi nomeado capitão-mor pelo rei de Portugal.

Sertanistas paulistas

A fama de assassinos dos bandeirantes correu a colônia. E, quando os senhores da região nordeste, com rebanhos de gado em expansão, entraram em conflito com os índios tapuias, veio a ideia: por que não chamar os colonos de São Paulo para resolver o problema? “Foi nesse momento que os sertanistas tornaram-se ‘paulistas’, termo que não aparece na primeira metade do século 17. As autoridades coloniais contaram com a experiência militar deles, não apenas em guerras como também em recrutamento de aliados indígenas”, explicou Monteiro.

A figura emblemática nessa “guerra dos bárbaros”, como ficou conhecida, é a de Domingos Jorge Velho, que lutou em quase todo o Nordeste a partir de 1671. Sobre os índios que capturou, ele disse: “E se depois nos servimos deles para as nossas lavouras, nenhuma injustiça lhes fazemos, pois tanto é para os sustentarmos a eles e a seus filhos como a nós e aos nossos (...) antes se lhes faz um irremunerável serviço em os ensinar a saberem lavrar, plantar, colher e trabalhar para seu sustento, coisa que antes que os brancos lho ensinem, eles não sabem fazer”.

Apesar de soar estranha, a carta do bandeirante fazia parte do contexto da época. É fato que, apesar das críticas dos jesuítas, os colonos aprovavam os fins – e muitas vezes os métodos – dos paulistas. Quase ninguém discutia que escravizar índios e negros era uma necessidade. “A visão de mundo dos colonos vinha de uma sociedade em que a hierarquia era natural. Da mesma forma que existia céu, mar e ar, existiam escravos, camponeses e senhores”, disse Fragoso.

O sucesso de Jorge Velho em enfrentar e destruir tribos rebeldes como os cariris e janduís foi tão grande que o governo o chamou para comandar os ataques contra o Quilombo de Palmares. Ele e seus homens sofreram diversas derrotas, mas, com reforços de milhares de soldados, conseguiram acabar com o reduto africano em 1694.

Conforme o século 18 avançava, a descoberta do ouro e o afluxo de imigrantes portugueses, junto com os massacres das décadas anteriores, efetivamente puseram fim ao modo de vida bandeirante. Sem a fonte de escravos, muitos tornaram-se fazendeiros ou latifundiários de gado não muito prósperos. Seu único legado, além do crescimento do território do Brasil, foi um imenso vazio populacional no interior do continente – o vazio do genocídio.


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