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A crueldade de Edward Colston, a polêmica figura que foi alvo de protestos na Inglaterra

O inglês usou de sua riqueza para investir em Bristol, cidade natal, mas às custas da exploração de escravos

Caio Tortamano Publicado em 08/06/2020, às 17h07

A estátua de Edward Colston sendo levada ao rio por manifestantes
A estátua de Edward Colston sendo levada ao rio por manifestantes - Wikimedia Commons

Depois da brutal morte de George Floyd nos Estados Unidos, uma onda de protestos antirracistas estourou ao redor mundo todo, pedindo o fim da brutalidade policial para com a população negra e do racismo estrutural.

Tendo surtido efeito na Inglaterra, revoltosos manifestantes marcharam até a estátua do comerciante de escravos, Edward Colston, decididos a retirá-lo de lá a força. Com apoio popular, centenas de pessoas participaram do episódio, que consistiu em jogar a estátua no rio Avon. Depois de ter sido derrubada, uma petição pede que o local coloque uma estátua de Paul Stephenson, um jovem negro que foi um dos líderes do boicote aos ônibus da cidade de Bristol.

A ação atraiu atenção da mídia, que resgatou o papel brutal de pessoas como Colston no tráfico de escravos vindos da África. 

Antes de tudo

Nascido em Bristol, Colston era filho do poderoso comerciante William Colston. Sua família rapidamente se mudou para Londres com o objetivo de prosperar ainda mais. Aos 36 anos de idade, Edward começou a negociar sozinho, criando importantes e fortes relações mercantis com a Espanha, Portugal, Itália e na África.

Entre seus itens mais vendidos estavam tecidos, óleo, vinhos de diferentes tipos de frutas. Porém, com os negócios ficando cada vez maiores, o inglês ingressou na Royal African Company em 1680, que era responsável pelo comércio de riquezas vindas da costa oeste africana. Mercadorias como ouro, prata, marfim e, principalmente, escravos, estavam entre seus maiores produtos e — consequentemente — representavam os maiores ganhos.

Gravura de Edward Colston / Crédito: Wikimedia Commons

 

Durante esse período na Royal African Corporation, estima-se que Colston tenha feito parte de um negócio genocida que retirou mais de 84 mil africanos de seus países para serem comprados nas Bahamas e na América. Estima-se que 19 mil tenham morrido somente durante o trajeto cruel.

Bristol

Em 1682, sua família voltou a morar na cidade onde nasceu. Foi justamente nesse período que foi perguntado se poderia fazer um empréstimo para o governo de Bristol. Ao aceitar, se tornou membro da Sociedade de Comerciantes da cidade, que servia como uma instituição de caridade para a estrutura do local.

Com o dinheiro que conseguiu diante do comércio de metais preciosos e de escravos, Edward investiu em obras de "caridade" por toda a cidade, como na construção e reforma de escolas, abrigos para pobres, hospitais e igrejas. Algumas dessas instituições, inclusive, perduram até hoje e estão em plena atividade.

Por todas essas contribuições que fez para a sua cidade natal, Edward Colston foi nomeado como o maior benfeitor da história de Bristol, tendo gasto aproximadamente mais de 70 mil libras em obras de caridade durante sua vida.

Morreu aos 84 anos, em outubro de 1721 com o status de herói local. Entretanto, demorou para que a natureza de sua riqueza viesse à tona e fosse alvo de um importante debate.

Controvérsia

Para ser mais exato, foi durante a década de 1990 que o papel de Colston no tráfico de escravos passou a ser relembrado. As críticas, logicamente, cresceram paralelamente ao descontentamento da população local com o espaço dado para um comerciante de caráter condenável.

Estátua de Colston em Bristol / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 2018, uma petição formalizada pela política Thangam Debbonaire solicitava que a estátua fosse retirada do The Centre — praça central do município. Algumas intervenções artísticas foram feitas no local, como uma bola de ferro atrelada ao pé do britânico que simbolizava uma corrente, representando as vidas que ele escravizou.

Membros do Partido Conservador e da Sociedade mercante (da qual Edward fazia parte) apagaram de seus registros históricos o papel do comerciante como conservador e apontaram a natureza seletiva de sua filantropia — que somente se estendia para os ingleses de sua cidade.


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