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A emocionante história de superação do maestro João Carlos Martins: 'A música venceu na minha vida'

Com exclusividade ao site AH, o artista, que já acumulou mais de 6 mil apresentações, revelou momentos marcantes de sua carreira

Pamela Malva Publicado em 23/05/2021, às 08h00 - Atualizado em 25/05/2021, às 16h00

João Carlos Martins
João Carlos Martins - Ale Catan

Pouco antes da conversa marcada por telefone, o maestro João Carlos Martins se acomoda no banco posicionado na frente de seu piano. Com luvas biônicas em suas mãos, o músico encosta os dedos nas teclas e escuta as primeiras notas saírem do instrumento, tão harmônicas quanto as que ele tocou pela primeira vez, aos 8 anos.

No dia da entrevista, contudo, ele já conta com a voz da experiência, conquistada após décadas de apresentações e uma carreira internacional. São mais de 6 mil programas, como ele chama, tocando na frente de plateias robustas, lotadas de amantes da música clássica. Não é difícil, então, perder a noção do tempo.

Do outro lado do telefone, ele parece estar sorridente. Com a experiência de quem já deu centenas de entrevistas, ele faz suas saudações e conta, com exclusividade para o site da Aventuras na História, um pouco sobre seus mais de 70 anos de carreira.

Um menino sonhador

“Tudo começou em 1898, quando meu pai nasceu”, conta o maestro. Quando menino, o português José era apaixonado pelo piano, mas após um acidente que lhe tirou um dedo, nunca mais pode tocar. Assim, transferiu o sonho para os seus três filhos. “Em 1948, quando eu tinha 8 anos de idade, meu pai comprou um piano”, lembrou João.

Foi assim que a trajetória do maestro no mundo da música ganhou vida. “Eu comecei a estudar e seis meses depois ganhei um concurso tocando obras de Bach. Daí pareceu que eu levava o jeito mesmo. Aos 13 anos comecei a carreira nacional e aos 18 anos comecei a internacional. Tinha que ser”, reflete o artista nascido em São Paulo.

O maestro ainda na infância /Crédito: Arquivo pessoal

É dessa época, inclusive, que vem uma das memórias mais vívidas de sua carreira. “Era a minha estreia oficial em São Paulo. Eu tinha 13 anos e foi um programa longo”, recorda o pianista. “Ali estavam todos os grandes pianistas da época, compositores, todos me assistindo. Então eu vi que realmente era meu destino.”

Os obstáculos de uma carreira

Junto com a estreia internacional, João Carlos também descobriu ter Distonia Focal, condição que lhe garantia movimentos involuntários. Não seria a doença, contudo, que iria afastar o maestro de seu sonho. Assim, ele aprendeu a driblar o próprio cérebro.

“Como de manhã, quando acordava, eu estava muito bem, eu passei a dormir cinco ou seis horas antes dos concertos”, narra João Carlos. “E o público nunca percebeu que eu tinha essa doença. Mas depois eu tive um acidente periférico e meu nervo no braço direito teve de ser operado.” Era apenas mais um obstáculo a ser enfrentado.

“Para você ter uma noção”, o maestro narra, categórico, “foram 24 operações que eu tive que fazer na vida para manter meu sonho”. Acontece que, sempre muito positivo, ele nunca deixou de acreditar na “trajetória da esperança”. Mesmo após interromper a carreira duas vezes por culpa da Distonia, ele nunca desistiu.

A ciência e a música

Hoje, aos 80 anos, João Carlos já conta com a ajuda de luvas biônicas para conseguir tocar. “Com elas, eu pude encostar os 10 dedos no teclado novamente, depois de 22 anos”, lembra o maestro. Dono de uma confiança enorme na ciência, inclusive, o pianista uniu seus obstáculos com algumas de suas maiores ambições.

João Carlos Martins durante espetáculo /Crédito: Fernando Mucci

 

Assim, ele lançou uma campanha mundial, cujo objetivo é ajudar cientistas a encontrar uma cura para a Distonia. “Essa campanha vai culminar no dia 19 de novembro de 2022, quando eu vou celebrar os 60 anos da minha estreia no Carnegie Hall”, revela, orgulhoso. “Tenho certeza que vamos descobrir a cura e eu garanto minha presença.”

“No piano, cada nota tem que transmitir emoção para o público”, narra João Carlos. “Então essa é a minha luta: tentar unir o corpo e a alma através da arte, da ciência e da esperança. É uma missão de vida, é muito mais do que um objetivo. Hoje, aos 80 anos, quero mostrar para outros idosos que você sempre pode ter esperança no amanhã.”

A luva de João Carlos Martins /Crédito: Karim Kahn

 

O dia de um maestro

“Eu acordo de manhã e a primeira coisa que eu faço é abrir o jornal para ver se meu nome está no obituário”, brinca o pianista. “Se não estiver, eu já peço dois ovos fritos, faço quarenta minutos de ginástica e vou para a luta.” E foi com esse pensamento que ele criou programas para encontrar novos talentos, além de continuar tocando.

“Eu sempre acreditei que iria atingir um ponto diferenciado. Mas acho que se eu não tivesse todas as adversidades, eu não teria forjado a minha personalidade”, reflete. “Se, mesmo depois de todos os obstáculos, eu comecei uma carreira como maestro, é porque eu posso dizer que a música venceu na minha vida.”

Com documentários, peças de teatro, exposições e um filme sobre sua vida, João Carlos está se adaptando às novas tecnologias e lembra que foi Alexandre Nero quem o apresentou ao Instagram. Com a chegada da pandemia, o maestro também teve de enfrentar a saudade das plateias, mas viu o momento como um novo desafio.

 
 
 
 
 
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Novos costumes

“Você tem que usar a criatividade”, narra, pontuando as transmissões ao vivo que já fez na quarentena, período que mantém a mesma mentalidade, apesar de se apresentar pela internet. “Toda vez que eu entro no palco, eu sempre digo para orquestra e para mim mesmo que aquele será o concerto mais importante da minha vida”, revela o maestro.

Após perder grandes amigos durante a pandemia, como a atriz Eva Wilma, falecida em 15 de maio de 2021, o maestro tem certeza que, em momentos de crise, é a música que “une nações, gerações e explica que Deus existe”. E ele espera que, depois que tudo passar, nós tenhamos “um mundo mais humano e mais solidário”.

Por enquanto, o veterano João Carlos Martins se lembra da última promessa que fez para seu pai antes dele morrer, em 2000, aos 102 anos. “Eu prometi que ia fazer de tudo para tentar deixar um legado. Estou fazendo o possível para cumprir a promessa. Se eu vou conseguir, eu não sei. Mas que eu vou lutar por isso, eu vou.”


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