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Matérias / Grande Fome

90 anos depois, a Grande Fome que deixou mortos na Ucrânia Soviética divide opiniões

Genocídio para alguns, calamidade para outros, o chamado Holodomor ainda é alvo de debate até mesmo entre estudiosos

Raphaela de Campos Mello Publicado em 28/05/2022, às 06h00

Uma das esculturas que relembram a 'Grande Fome' - Getty Images
Uma das esculturas que relembram a 'Grande Fome' - Getty Images

Um punhado de fubá barato, palha de trigo, folhas secas de urtiga e outras ervas daninhas arrancadas do solo inerte. Graças a esse regime alimentar improvisado às custas do desespero, a ucraniana Nina Karpenko, nascida em 1926, sobreviveu ao Holodomor, também conhecido como a Grande Fome. Ela tinha seis anos quando enfrentou o terrível período de 1932 e 1933 em sua terra natal.

Quando as aulas recomeçaram, dois terços das carteiras estavam vazias. Seus colegas ausentes tinham se unido aos 5 milhões de mortos (outras estimativas contabilizam até 8 milhões) pelo evento que integra a lista das tragédias mais cruéis da História.

Holodomor se origina das palavras em ucraniano holod (fome) e mor (praga ou morte). Ele foi o resultado da política de coletivização compulsória das propriedades rurais ucranianas – celeiro agrícola do leste europeu – e de outros países daquela região, introduzida no fim de 1929 pelo regime comunista soviético, então comandado por Joseph Stalin (1878-1953).

Como era de se esperar, boa parte dos fazendeiros ofereceu resistência ao decreto que os obrigaria a trabalhar em fazendas coletivas, as kolhosps. Eles eram os chamados kulaks, médios e grandes proprietários de terras que empregavam trabalhadores e detinham meios de produção.

Crédito: Wikimedia Commons

Porém, muitos agricultores pobres também se opuseram ao novo sistema. Então, na prática, o termo kulak ganhou conotação ideológica no sentido de denominar todos os homens e mulheres do campo contrários à coletivização das terras.

“Nesse processo, perderam suas propriedades, suas ferramentas e a possibilidade de trabalho. Essa fragilização de suas condições acabou atingindo-os diretamente também pela fome. Além disso, a repressão veio na forma de prisões, de deportações e de confisco dos grãos e dos animais”, conta Vinícius Liebel, Professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A questão agrária na Ucrânia era vital, pois a União Soviética utilizava a produção agrícola (especialmente a ucraniana) como moeda no mercado mundial para financiar suas indústrias.

Logo, a queda da produção em decorrência da perseguição aos kulaks ameaçava os planos de crescimento russos. “Quando ficou claro, no decorrer do ano de 1932, que era fisicamente impossível atingir a cota de requisição de grãos pelo Estado, Stalin, tomado pela fúria, ordenou o confisco de todos os estoques disponíveis, em nada importando as consequências para a população local”, sustenta Adam Ulam, Diretor do Russian Research Center da Universidade de Harvard.

A resistência

Apesar da repressão massiva, a resistência dos kulaks prosseguia. A certa altura, agentes do Partido Comunista varreram as aldeias e levaram tudo o que era comestível. “As pessoas não tinham nada a fazer a não ser morrer”, recorda Nina Karpenko. Tendo a inanição como desfecho de suas vidas, os camponeses ucranianos tampouco puderam migrar em busca de alimento, pois as autoridades soviéticas fecharam as fronteiras do país.

“Alguns historiadores apontam que a fome foi abertamente utilizada para dobrar os ucranianos à vontade soviética, especialmente a partir de 1932, e medidas como o fechamento de fronteiras e a suspensão de auxílios alimentícios para a Ucrânia são evidências disso”, aponta Liebel.

Registros da Grande Fome /Crédito: Divulgação

As possibilidades de sobrevivência nesse contexto desolador são ínfimas. Logo, a morte mostrou sua face por todos os lados. Aldeias inteiras foram dizimadas, ao ponto de lobos ocuparem as casas vazias. Cidades e estradas ficaram polvilhadas de cadáveres – gente que vagava a muito custo na esperança de encontrar alimento em algum lugar e, de repente, desabava, falecida.

Os corpos foram se acumulando a céu aberto porque os que permaneciam vivos não tinham forças para abrir covas e devolver os mortos à terra. Houve ainda inúmeros episódios de canibalismo. 

Uma carroça ia recolhendo os corpos ensanguentados dos animais rumo às fazendas coletivas. Os caçadores argumentavam que as peles dos bichos seriam úteis. Mas, chegando lá, passavam semanas intocados, apodrecendo.

O colapso da saúde mental em decorrência da fome extrema foi outra camada dessa tragédia. Com o passar do tempo, o discernimento e os afetos foram sumindo e dando lugar à luta voraz pela sobrevivência. Crianças foram abandonadas por suas famílias em porões e poços, quando não mortas por seus próprios pais, ensandecidos por vê-las definhar sem nada poderem fazer.

Genocídio: o debate

Contudo, não há consenso nem na academia nem na comunidade internacional quanto ao fato de o Holodomor ter sido um genocídio arquitetado propositalmente.

Muitos historiadores ainda não estão convencidos de que a morte dos ucranianos pela fome tenha sido intencional, premeditada. Todos concordam que foi uma tragédia humanitária, mas sem a certeza da intenção de matar, existe uma cautela para defini-lo como genocídio”, sublinha o professor.

Anne Applebaum, autora de A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia (ed. Record), integra o rol de estudiosos que tratam do Holodomor como um genocídio inquestionável.

“Stalin não procurou matar todos os ucranianos, e nem todos os ucranianos resistiram. Ao contrário, alguns deles colaboraram, tanto ativa quanto passivamente, com o projeto soviético. Porém, Stalin procurou eliminar fisicamente os ucranianos mais ativos e engajados, rurais e citadinos. Ele compreendeu as consequências da fome e das simultâneas ondas de prisões em massa na Ucrânia enquanto elas ocorriam”, defende a pesquisadora.

Anne faz uma ressalva importante para situar a nomenclatura mais acertada para o que aconteceu em 1932 e 1933 na Ucrânia. “Naquela época, não havia uma palavra que pudesse ter sido empregada para descrever o ataque patrocinado pelo Estado contra um grupo étnico ou nação, nem lei internacional alguma para defini-lo como um tipo específico de crime. Todavia, a partir do momento em que o termo ‘genocídio’ passou a ser usado no fim da década de 1940, muitos procuraram aplicá-lo à fome e aos expurgos que a acompanharam na Ucrânia. Seus esforços foram complicados naquele tempo, e ainda o são, pelas diversas interpretações da palavra ‘genocídio’ — na acepção legal e moral, em vez da histórica —, bem como pela política complicada e em constante mudança na Rússia e na Ucrânia”, ela observa.

O polonês Raphael Lemkin (1900-1959), acadêmico do Direito e judeu interessado em refletir mais a fundo sobre os massacres perpetrados contra grupos nacionais, religiosos ou raciais, foi o pai da palavra genocídio — fusão do grego genos, que significa raça ou nação, com o sufixo cídio, derivado do latim e relativo a matar.

O intelectual a apresentou ao mundo em 1944, na obra Axis Rule in Occupied Europe: Laws of Occupation – Analysis of Government – Proposals for Redress (Regra do Eixo na Europa Ocupada: Leis de Ocupação – Análise do Governo – Propostas de Reparação, em tradução livre).

De acordo com ele, genocídio diz respeito não apenas à aniquilação de toda uma nação como também à soma de diferentes ações com o intuito de extinguir os fundamentos da vida de grupos nacionais, com o propósito de exterminá-los. Num ensaio de 1953, intitulado Genocídio Soviético na Ucrânia, Lemkin classifica a sovietização da Ucrânia e a Grande Fome como tal.

Crédito: Wikimedia Commons

“Trata-se de um caso de genocídio, de destruição, não só de indivíduos, mas de uma cultura e de uma nação”, ele atestou. Entretanto, na prática, o termo foi incorporado aos documentos oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU) da seguinte forma: extermínio físico de um grupo étnico inteiro, de maneira semelhante ao Holocausto. Daí a dificuldade de enquadrar o Holodomor nessa categoria.

Testemunho do horror

Temos ainda que considerar os esforços empreendidos pela URSS para apagar os rastros da Grande Fome. Arquivos locais foram incinerados; registros de mortes, desvinculados da inanição; dados de recenseamentos públicos, alterados. Os próprios ucranianos temiam abordar o ocorrido pelo risco de sofrerem represálias.

“Entre 1933 e 1991, a URSS simplesmente se recusou a reconhecer que alguma vez tivesse havido qualquer tipo de fome”, denuncia Anne. Porém, houve quem viu, sofreu e sobreviveu para espalhar a história.

Testemunha ocular da desgraça que se abateu sobre a Ucrânia em 1932 e 1933, Miron Dolot, pseudônimo cunhado pelo jornalista e professor ucraniano radicado nos Estados Unidos, Simon Starow (1916-1998), atrela a Grande Fome a uma política antinacionalista. É dele a obra Holodomor: O Holocausto Esquecido (ed. Vide Editorial), publicada em 1985 e posteriormente usada por uma comissão especial criada pelo governo de Ronald Regan para investigar as atrocidades infligidas pelo governo soviético naquele período.

“Junto com a política de coletivização, Moscou havia iniciado em 1929 uma campanha de larga escala contra qualquer coisa que pudesse conferir à Ucrânia a identidade de uma nação em separado, começando pela destruição das organizações científicas e culturais ucranianas, e finalizando com a prisão, execução ou banimento para campos de concentração de todos aqueles que ousaram erguer suas vozes em defesa da autodeterminação ucraniana”, ele escreveu.

Na visão de Liebel, as coisas se misturaram bastante naquele período. Por um lado, havia em boa parte da população ucraniana desconfiança em relação à ideologia soviética, à origem urbana dos organizadores, ao princípio econômico e, claro, ao autoritarismo evidente na imposição relativa às propriedades rurais. Por outro lado, o sentimento nacionalista, como defende Dolot, contribuiu para inflamar a reação ao poderio russo.

“A ideia da nação ucraniana estava, sim, presente, e o nacionalismo é uma ideologia ou um sentimento que é reavivado sempre que uma crise se aproxima de um Estado nacional”, avalia o docente.

Apesar da virulência russa, seria insustentável para os planos de prosperidade da URSS manter o celeiro do leste muito aquém de sua capacidade produtiva. Por razões estratégicas, era preciso reconsiderar o bloqueio ao sustento humano na Ucrânia para que se pudesse contar com a mão de obra campestre.

Então, em maio de 1933, passou a circular pelos gabinetes do regime soviético uma diretriz que orientava os servidores do partido, membros dos tribunais e procuradores a suspenderem o exílio em massa dos camponeses, além de reduzirem o número de detenções e de presídios, àquela altura, abarrotados de oponentes.

O objetivo era o de abrandar o regime rural dali por diante. Como consequência, gradualmente, os ucranianos foram deixando de perecer. “No fim de maio de 1933, a fome amainou. Acabou a inanição em massa. Verduras e frutas estavam disponíveis em abundância para todos que fossem capazes de sair e procurar por eles. Além disso, as autoridades precisavam de trabalhadores para as fazendas e elas não tinham outra escolha senão a de fornecer aos membros que trabalhavam no kolhosp rações alimentares suficientes para sustentar sua existência”, recorda Dolot.

Segundo ele, esqueletos forrados com uma réstia de pele se arrastavam até às fazendas coletivas na tentativa de encontrar algo para comer: um pedaço de pão e uma concha ou duas de trigo-sarraceno ou de papa de painço.

Incapacitados tinham de contar com a misericórdia de parentes e amigos, pois não serviam mais ao trabalho braçal. Embora a possibilidade de comer novamente fosse animadora, ela também era traiçoeira. Organismos debilitados ao extremo e “esquecidos” da função digestiva podem tornar a ingestão de qualquer alimento, mesmo que seja um vegetal fresco, fatal.

Foi o que se passou com muitos ucranianos. Apesar de exaurido, Dolot conseguiu terminar seus estudos numa vila vizinha, já que a escola de sua comunidade fora fechada. E de lá fugiu.

“Não consigo me lembrar da data com exatidão, mas continua sendo o dia mais importante da minha vida”, confessa. Em seguida, formou-se professor, lutou na Segunda Guerra Mundial, passou por um campo de prisioneiros alemão e residiu na Alemanha Ocidental antes de se enraizar nos Estados Unidos. “A minha mãe e o meu
irmão, que sofreram comigo, que partilharam comigo seu último pedacinho de pão, e aos quais eu devo a minha sobrevivência, permaneceram na vila. Eles não tinham outra escolha senão a de continuar trabalhando na fazenda coletiva. A Segunda Guerra Mundial nos separou e o que lhes aconteceu depois eu não sei”, lamenta.

A ajuda que não chegou

Ucranianos expatriados tentaram denunciar ao mundo os horrores que atingiam seus compatriotas. Em maio de 1933, foi criado o Conselho Nacional Ucraniano, que planejou e organizou protestos de rua em Winnipeg, Canadá, e enviou carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt. O documento relatava as atrocidades e incluía depoimentos de vítimas.

Ucranianos residentes em várias cidades europeias também criaram comitês de ação para denunciar a fome e enviar ajuda aos flagelados. Infelizmente, tiveram pouco sucesso.

O Vaticano também foi informado do que se passava em solo ucraniano. Duas cartas anônimas chegaram até o conhecimento do papa Pio XI, que ordenou a publicação de ambas no jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano.

Uma delas descrevia o seguinte cenário: “À noite, ou mesmo com o dia claro, não era possível levar pão para casa sem escondê-lo. Os famintos paravam essas pessoas e tiravam o pão de suas mãos, e às vezes ainda as mordiam ou as feriam com facas. Nunca vi gente com faces tão esquálidas e selvagens, e corpos tão pequenos envoltos em farrapos”.

No entanto, a Santa Sé se dividiu entre os que eram favoráveis ao envio de ajuda humanitária à Ucrânia e os que pregavam cautela e discrição em nome da diplomacia. A posição do segundo grupo preponderou.

A Inglaterra também se absteve de qualquer interferência. “O governo britânico não só não ofereceu ajuda como desencorajou ativamente os diversos esforços independentes para conseguir alimentos para os famintos em 1933, alegando que o governo soviético se opunha a tais esforços e, por conseguinte, era ingênuo fazê-los”, relata Anne.

Não haveria como um evento dessa magnitude não impactar as gerações seguintes, acirrando rivalidades e orientando posicionamentos. Para Liebel, a memória da fome deixou marcas profundas na coletividade ucraniana, assim como as medidas soviéticas de repressão.

“Ao mesmo tempo que conformou boa parte da população quanto ao domínio soviético, fez com que outros vivessem uma resistência que os levou a colaborar com os nazistas quando o território foi dominado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Pode-se dizer ainda que fomentou no subterrâneo um nacionalismo ucraniano que permaneceu vivo durante toda a Guerra Fria e que só encontrou campo para se manifestar após a queda da URSS, em 1991.”