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A impressionante reconstrução facial de Girolamo Fracastoro, o primeiro especialista em sífilis

A equipe de pesquisadores responsável pelo projeto conta à Aventuras na História que embora pouco conhecido, Girolamo foi pioneiro na identificação da doença

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 14/08/2021, às 08h00

A reconstrução facial de Girolamo Fracastoro, polímata italiano
A reconstrução facial de Girolamo Fracastoro, polímata italiano - Cícero Moraes

“Nenhuma outra doença abateu-se na Europa, a partir de 1490, com a violência alarmante como se manifestou a sífilis, a ponto de chamar a atenção de poetas, filósofos, médicos, astrônomos, que se dedicaram ao estudo e ao experimento de vários tratamentos para a cura desse mal”, explica Karine Simoni, pesquisadora da UFSC/PGET ao site Aventuras na História. 

Um desses médicos, — além de poeta, matemático e geógrafo — foi Girolamo Fracastoro. Mais tarde, ele seria considerado por estudiosos de doenças venéreas nos séculos 19 e 20 como pioneiro da identificação da sífilis, além de ter trazido contribuições importantes para a epidemiologia de maneira geral, com sua teoria sobre contágios de doenças..

Um projeto realizado pelo Ministério da Saúde, Coordenação Geral de Vigilância das Infecções Sexualmente Transmissíveis, em parceria com a UFRN, UFF, Unesco, Sociedade Brasileira de DST, Universidade de Coimbra (Portugal), entre outras instituições, realizará, em novembro deste ano, uma exposição sobre a sífilis e decidiu resgatar a história de Fracastoro, que, “apesar de toda sua contribuição para a sociedade, poucos conhecem sua história”, diz Thiago Petra, do Centro Cultural do Ministério da Saúde.

Petra afirma que “a proposta da exposição é explorar a parte científica e epidemiológica, mas trazer também a história por trás dessa doença e a produção artística de séculos sobre a sífilis”. Para o médico e pesquisador Mauro Romero, curador da exposição, esse projeto tem o objetivo de "desmistificar tabus e crenças e mobilizar a população para incorporar atitudes de prevenção e conhecer o tratamento". 

O principal resultado do projeto foi uma reconstrução da face de Girolamo Fracastoro através da modelagem 3D, realizada pelo designer Cícero Moraes, especializado em reconstrução facial forense, a partir de imagens produzidas por artistas do passado. Estátuas, pinturas, xilogravuras e outros materiais serviram como base para dar rosto à importante figura.

Descrevendo a sífilis

Pintura de Girolamo Fracastoro, de Ticiano , datando de 1528 / Crédito: National Gallery, Londres via Wikimedia Commons

 

“Quando a sífilis assolou a Europa e dali se espalhou para partes da Ásia e da África, a grande maioria das pessoas acreditava na doença como vingança de Deus aos lascivos e promíscuos, uma vez que estava claramente relacionada à atividade sexual, e o senso comum defendia que as mulheres eram as principais responsáveis pela transmissão”, explica Simoni.

A verdade era mais científica e menos moralista que isso. Fracastoro, assim, começou a estudar a doença cerca de 30 a 40 anos depois de ter se difundido pela Europa. Ele foi responsável por, além de entender a enfermidade, batizá-la, a partir de sua obra poética 'Syphilis sive de morbo gallico' ('Sífilis, ou a doença francesa', em português), publicada em 1530. 

Em um século marcado pelo Renascimento, o estudioso italiano “confluía em si o estudo da filosofia, das artes, das letras, das ciências”. Por isso, é possível dizer que, em seu poema, onde, de fato, cunhou o nome “sífilis”, ele deu duas explicações para seu surgimento. 

“Uma literária, baseada na história do pastor Sífilos, punido com a doença por maldição de Apolo, uma das divindades relacionadas ao sol, por ter adorado outra deidade; e outra científica, baseada na transmissão de partículas, interpretação deveras inovativa para a época, em que se acreditava na teoria do surgimento espontâneo das doenças”, destaca a pesquisadora.

Em uma linguagem mais neutra, ele não relaciona o nome da doença à nacionalidade, como estava sendo feito na época, — a sífilis era chamada de “mal francês”, “mal italiano”, “mal português”, — nem com a parte sexual do corpo afetada, “que inevitavelmente contribuiria para aumentar a estigmatização do doente”. 

Embora o médico tenha descrito a doença a partir de metáfora à priori na obra, ele retoma as ideias do poema, as amplia e reescreve o tema na roupagem de um tratado médico, 16 anos depois.

Ao longo de toda sua carreira, também, continuou produzindo volumes que apresentaram seu conceito de contágio e considerações sobre outras doenças do período, como febres, tuberculose, lepra, elefantíase, varíola, raiva e a peste. 

A reconstrução facial

Processos para desenvolvimento da reconstrução facial / Crédito: Cícero Moraes

 

Para os pesquisadores envolvidos no projeto, a importância de se recuperar a história de Girolamo Fracastoro é inseri-lo na memória coletiva devido às suas contribuições para a humanidade, que não tão conhecidas especialmente quando comparadas às dos grandes polímatas de sua época. 

Foi possível recuperar inúmeras representações artísticas do estudioso, entre pinturas à óleo, xilogravuras, estátuas de bronze, entre outras homenagens, que mostravam as interpretações dos próprios artistas de como eles imaginavam o importante médico e poeta italiano. 

Moraes explica que “as imagens em conjunto servem como um parâmetro de escultura volumétrica”. “Se por um lado o grande número de referências apresentou diversas faces com diferenças estruturais, por outro nos permitiu modelar um rosto a partir de uma média entre elas e manter características presentes em todas, como a verruga na porção nasal, os olhos sulcados e a barba protuberante”, ressalta.

Embora o número de imagens possibilitasse o conhecimento dos atributos marcantes do renascentista, arrematados pelo designer na reconstrução facial, grande parte era bidimensional. A reconstrução do rosto, por sua vez, é feita por meio de modelagem 3D. Cícero aponta que foi realizado um processo “simples e funcional” para ultrapassar esse contratempo.

Modelagem realizada para o projeto / Crédito: Cícero Moraes

 

“A posição dos olhos e dos lábios nos permite posicionar a câmera no local onde a mesma estaria para que uma foto capturasse a mesma pose do indivíduo desenhado. Como tínhamos pontos de vista levemente diferentes e um deles significativamente diferente, nos foi possível levantar informações tridimensionais de um conjunto de imagens bidimensionais”, diz o designer.

Segundo ele, mesmo que as representações não fossem totalmente compatíveis entre elas, a compatibilidade estrutural era o suficiente para formar as proporções da face dentro de um modelo “mediano”. 

Perguntado se a reconstrução se parece com o que Fracastoro teria sido na vida real, Moraes responde: “Não podemos saber com certeza se ficou totalmente compatível com a face real, dado o subjetivismo de cada artista que retratou o Fracastoro, mas certamente estamos dentro de uma média e buscamos respeitar ao máximo as estruturas compatíveis entre as obras”. 

Um estudo completo apresentando a reconstrução facial e a pesquisa ainda será finalizado pela equipe e submetido a um jornal científico internacional.

Os interessados na exposição podem entrar em contato com o Centro Cultural do Ministério da Saúde através do e-mail ccms@saude.gov.br


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