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A lenda urbana do baralho: a polêmica em torno das cartas de Yu-Gi-Oh! nos anos 2000

Uma mistura de ignorância cultural, intolerância religiosa e sensacionalismo fizeram milhares de pessoas acreditarem que o cardgame do anime era, na realidade, um baralho satânico e ocultista

Fabio Previdelli Publicado em 23/01/2021, às 10h00

Yugi segurando uma carta do Mago Negro
Yugi segurando uma carta do Mago Negro - Divulgação

Nos anos 2000, ao lado de Pokémon e Dragon Ball-Z, Yu-Gi-Oh! se tornou um dos maiores animes da TV Globinho. Adaptado do mangá de Kazuki Takahashi, a produção se tornou muito mais que uma série animada televisiva, ganhando jogos de video game e, pincipalmente, cartas físicas, que eram usadas, em muitas ocasiões, em acirradas disputas de bater bafo.  

Porém, todo o sucesso do desenho por aqui quase foi por água abaixo após uma polêmica que mesclou a ignorância cultural, intolerância religiosa e o sensacionalismo barato da televisão brasileira.  

Tudo começou quando membros de igrejas evangélicas começaram a afirmar que os card games de Yo-Gi-Oh! nada mais eram do que um baralho satânico, segundo explica matéria publicada pelo Omelete. Parte disso ocorreu porque o jogo utilizava, entre outras coisas, personagens em forma de monstros que ainda dispunham de armadilhas e feitiços. 

Gilberto Barros foi um dos principais responsáveis, na TV, por disseminar informações falsas sobre o jogo / Crédito: Divulgação

 

Assim, logo a fama endiabrada do jogo ganhou repercussão televisava. O primeiro que denunciou tal impureza no cards foi o apresentador Gilberto Silva, o Leão, em seu programa Boa Noite Brasil, exibido, na época, pela TV Bandeirantes.  

Em quase uma semana, Leão passou a fazer ataques diários ao desenho, o ligando ao ocultismo e, bizarramente, à Yakuza, a máfia japonesa. 

Pronto, foi a gota d’água para muitos pais e mães se convenceram que o jogo não passava de um ritual macabro, fazendo com que seus filhos jogassem fora qualquer coisa associada a Yugi e seus amigos.

A histeria era tanta que, para não correr o risco de que o demônio adentrasse em vossas casas, muitas famílias colocaram fogo nas cardgames de seus filhos.  

A paranoia dos pais era tão grande que até mesmo as crianças passaram a se convencer da maluquice, passando longe de figuras como o Mago Negro e o poderosíssimo Exódia, e abandonando de vez o horário da TV Globinho, onde o desenho era exibido.  

Satanic Panic 

Engana-se, porém, quem pensa que esses surtos coletivos foram exclusividade do Brasil, embora o país apresente um histórico bem extenso disso. A Xuxa e o boneco do Fofão que o digam.  

Nos Estados Unidos, por exemplo, o movimento de censura e demonização das coisas já foi bem popular nos anos 1970 e 1980, com jogos violentos, músicas de rock e diversas outras coisas sendo consideradas ‘assuntos do diabo’. O movimento é conhecido, ainda hoje, como “Satanic Panic”. 

Apesar de presente na mente de quem viveu tudo isso por aqui, nos anos 2000, os registros da polêmica envolvendo as cartas de Yu-Gi-Oh! são, quase que, esquecidos na internet, muito em virtude da falta de meios que armazenaram essa memória bisonha.  

Apesar dessa lorota, a marca Yo-Gi-Oh! não chegou a receber nenhuma proibição por aqui, mesmo tendo gente jurando de pé junto que, no Japão, um monstro do jogo teria ganhado vida e comido um jogador.  

O fato é que, depois de um tempo, o assunto morreu e o desenho voltou a ganhar a popularidade que tanto merecia. A história poderia ter se tornado só mais um daqueles causos que poucos acreditam, mas, recentemente, o próprio Gilberto Barros fez questão de comentar o assunto em seu canal do YouTube, a TV Leão.  

“Eu tive culpa, mas não tanta culpa. As pessoas não entenderam o recado que eu quis dar”, explica Gilberto. "Foi tudo de coração, um movimento para melhorar a juventude e as crianças do Brasil."


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