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Luta de Freddie Mercury contra a AIDS escancara a homofobia de sua época

Apesar da fama e idolatria, Mercury foi mais uma das vítimas da AIDS nos anos 80 que também teve que batalhar contra os estigmas da doença

Laurie Marhoefer Publicado em 24/04/2020, às 10h22

Freddie em show do Queen, em 1983
Freddie em show do Queen, em 1983 - Getty Images

Freddie Mercury foi uma das várias vítimas que a AIDS fez durante a década de 80 — o surto da doença, que vitimou homens e mulheres. Essas pessoas não foram vítimas somente da pandemia, mas também das falhas de seus próprios governos e do desprezo da sociedade.

No início dos anos 80, quando uma epidemia de HIV atingiu alguns centros populacionais nos EUA, no Reino Unido e em outros países, os governos quase não deram resposta à saúde pública.

Os médicos inicialmente notaram que o vírus agia em grupos de pessoas que já estavam estigmatizadas por outros inúmeros motivos: homens que fizeram sexo com homens, usuários de drogas e, devido ao racismo, haitianos e haitianos-americanos.

A preconceituosa resposta inicial dos profissionais da saúde indicava que muitas dessas pessoas estavam sendo alvo do vírus devido o que já havia de supostamente errado com elas. Os homossexuais, segundo o pensamento, estavam contraindo a doença como consequência dos comportamentos "arriscados", como ter muitos parceiros. 

O HIV não era, portanto, uma ameaça para a maioria das pessoas heterossexuais. A visão da profissão médica sobre o HIV era tão afetada pela ideia de ser uma doença intrinsecamente gay que, a princípio, eles chamaram o vírus de "GRID", sigla em inglês para "imunodeficiência relacionada a gays".

Esse foi um conhecimento falho, como sabemos agora. Especialmente na ausência de boas informações de saúde pública sobre como ter relações sexuais mais seguras, o risco de contrair qualquer infecção sexualmente transmissível aumenta quando você tem mais parceiros. 

No entanto, não havia nada em particular sobre sexo gay que causasse AIDS. Muitas pessoas heterossexuais tiveram vários parceiros nas décadas de 1970 e 1980, mas, inicialmente, por acaso, algumas comunidades de homens gays foram atingidas com força.

Os governos e as pessoas em geral deixaram silenciosamente os infectados com HIV à sorte. Por exemplo, dois anos depois da crise, o governo dos EUA gastou mais para chegar a solução de uma série de envenenamentos misteriosos em Chicago que mataram sete pessoas do que em pesquisas pela AIDS, que já havia matado centenas de pessoas nos Estados Unidos somente. 

O primeiro caso do HIV no Reino Unido, terra de Mercury, foi em 1981. Não houve teste para o vírus até 1985, e não existiu tratamento realmente eficaz até 1996. Em 1985, a primeira-ministra Margaret Thatcher tentou bloquear uma campanha de saúde pública que promove o sexo seguro; ela pensou que isso encorajaria os adolescentes a fazerem sexo e, alegou, eles não corriam risco de infecção.

Freddie e Jim Hutton, o parceiro que ficou o seu lado até os dias finais / Crédito: Divulgação

 

No total, foi uma resposta absurda à grande catástrofe de saúde pública de nosso tempo e a uma doença que mataria 36 milhões de pessoas em todo o mundo - números similares ao que morreram na Primeira Guerra Mundial.

Homofobia

Tudo isso deixou Mercury e outros homens em uma posição terrível. Sem informações de saúde pública e com as pesquisas atrasadas, eles foram desnecessariamente expostos ao vírus. Diagnosticado em 1987, Freddie não viveu o tempo suficiente para o desenvolvimento de um tratamento antirretroviral combinado (os coquetéis) que poderia ter salvado sua vida.

Ele enfrentou não apenas uma doença mortal, mas um preconceito estrondoso contra pessoas com HIV e AIDS. Dois anos antes de ser diagnosticado, uma pesquisa do Los Angeles Times descobriu que a maioria dos americanos queria colocar em quarentena pessoas HIV positivas; 42% queriam fechar bares gays. 

Enquanto Mercury lutava para continuar fazendo música, à medida que se tornava cada vez mais doente, o vocalista da então popular banda Skid Row, Sebastian Bach, usava uma camiseta que dizia: "Aids mata bichas pra valer".

Vocalista do Skid Row usando a controversa camiseta / Crédito: Divulgação

 

Freddie enfrentou uma homofobia desenfreada ao longo de sua vida — ele nunca se assumiu publicamente e é fácil entender o motivo. Em 1988, o Reino Unido aprovou uma lei anti-gay notória que declarou que a homossexualidade não deveria ser promovida e que casais do mesmo sexo tinham famílias “falsas”, não famílias reais. A lei permaneceu vigente por mais de uma década.

A cena do  movimento glam rock e da música disco tiveram seus momentos extravagantes, mas tudo se baseava em todos serem heterossexuais na vida real. David Bowie disse à imprensa que era gay em 1972 e depois recuou em 1983, dizendo que "o maior erro que eu já cometi" foi dizer à imprensa "que eu era bissexual".

O Village People (grupo pop dos anos 80) era único porque eles eram descaradamente orgulhosos, mas não foram um sucesso por causa disso. Eles foram um sucesso, porque o público hétero não percebia esse lado ou não queria saber. Muitas pessoas não se davam conta que YMCA fazia menção a cultura gay.

E assim foi com o Queen, quantos fãs de rock que lotaram estádios para vê-los tocar "We Are the Champions" sabiam que o cantor heróico não era apenas um deus do rock, mas também um ícone gay fabuloso? Não muitos.

Na década de 80, Mercury abandonou seu visual glam rock e cortou seu cabelo em um estilo popular na subcultura gay, vestindo uma jaqueta de couro preta e exibindo um bigode invejável e lindo. Muitos fãs odiaram. Os americanos costumavam jogar navalhas no palco, como um incentivo para que fizesse o bigode.

Uma semana depois de sua morte, o baterista Brian May e o guitarrista Roger Taylor (ambos do Queen) foram a um programa de televisão para contestar o que a mídia noticiava sobre o fim de sua vida e a contração de AIDS — que ele teria adquirido por conta das festas insanas que ele promovia, o que nunca foi verdade.


Laurie Marhoefer é professor de História na Universidade de Washington. Este artigo foi republicado no The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui


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