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A luta de Luiz Gama, o homem nascido livre e vendido como escravo

O jornalista, que ficou conhecido como maior abolicionista do Brasil, morreu alguns anos antes de ver seu sonho se concretizar

Penélope Coelho Publicado em 03/06/2020, às 17h01

Fotografia de Luiz Gonzaga Pinto da Gama
Fotografia de Luiz Gonzaga Pinto da Gama - Wikimedia Commons

A célebre frase “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”, foi dita por Luiz Gama. Homem negro que ganhou o título de advogado, sem nunca ter sido formado na área. Gama era chamado assim, por ter libertado muitos escravos, antes mesmo da abolição da escravatura ter acontecido no Brasil.

A trajetória de Luiz é composta por um misto de muita luta e perseverança. O menino nasceu livre, no dia 21 de junho de 1830, em Salvador, na Bahia. Filho de mãe africana livre, seu pai era fidalgo de origem portuguesa. Ainda menino, ele foi vendido pelo próprio pai como escravo, quando tinha somente dez anos, em 1840.

Luiz foi então levado para São Paulo como escravo, onde permaneceu analfabeto por um período. E mais uma vez, o homem iria passar por outro episódio de preconceito recorrente, dessa vez, foi rejeitado e colocado à venda novamente, por ser baiano. Na época, essa origem era algo que considerava o escravo como insubordinado demais para ser benquisto em São Paulo.

Aos 17 anos, Gama foi vendido novamente e dessa vez foi mandado para uma fazenda no interior do estado, foi lá que o futuro jornalista — que iria mudar a história de tantos outros negros aprendeu finalmente a escrever.

Esse viria a ser um de seus maiores talentos, que ele decidiu usar a seu favor para conseguir a sua liberdade de volta. O escritor sabia que sua condição era ilegal, por ter nascido livre, depois de aprender a ler e escrever, Luiz conseguiu batalhar para reconquistar sua liberdade, e assim o fez.

Gama, por volta de 1860 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ações abolicionistas

Desde que se tornou alfabetizado, o ativista descobriu nas palavras uma paixão. Em 1859, o baiano lançou uma coletânea de poemas repletos de sátiras. Na obra Intitulada Primeiras Trovas Burlescas, o autor já iniciou sua carreira efetuando críticas sociais e políticas sobre a sociedade brasileira, falando do seu ponto de vista de homem negro e ex-escravo.

Gama foi um dos raros intelectuais negros na época do Brasil escravocrata, ao iniciar sua carreira como jornalista, ele dava mais um passo importante em sua história, que viria influenciar a vida de muitos outros.

Em 1864, ele e o caricaturista Angelo Agostini fundam o primeiro jornal ilustrado de conteúdo humorístico de São Paulo, chamado de Diabo Coxo. Desde então, não parou mais no meio jornalístico, e trabalhou em diversos outros periódicos.

O jornal Diabo Coxo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Luiz pautava sua vida nas causas republicanas e abolicionistas, para isso, usava seu alcance nos jornais para denunciar erros judiciais cometidos por juízes na vida de pessoas negras e principalmente, escravos.

O jornalista autodidata conhecia muito bem as leis, e aproveitou de seus conhecimentos para denunciar o sistema escravocrata brasileiro, retirando diversos escravos dessa condição. Essas atitudes fizeram com que o escritor se tornasse um dos maiores líderes abolicionistas do Brasil.

O poeta conseguiu libertar muitos escravos que estavam em condições ilegais, defendendo aqueles que foram escravizados após a lei que proibiu o tráfico de navios negreiros, em 1850. Já que escravos trazidos para o Brasil depois dessa data eram considerados livres. A partir de então, Gama dedicou boa parte de sua vida para libertar essas pessoas, tudo isso de forma gratuita.

Legado

O jornalista dividia seu tempo entre suas poesias e a luta contra a escravidão. Mesmo que o intuito de sua luta fosse a causa negra, atuando na defesa de escravos e negros acusados de crime, ou, em busca da alforria desses homens, Luiz não se recusava a atender alguns pobres necessitados, mesmo que eles fossem brancos.

Uma das personalidades mais importantes para a história abolicionista do Brasil, não conseguiu viver para ver o fim da escravidão acontecer em seu país. Devido ao seu histórico de diabetes, o autor faleceu em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos, seis anos antes da assinatura da Lei Áurea.

Mesmo sem a formação de advogado, defender os negros foi seu maior feito. Em 2015, sua importância jurídica foi finalmente reconhecida pela Ordem dos Advogados do Brasil, que concederam a Gama, o título de advogado.

Em 2018, mais um reconhecimento para o poeta: o recebimento do título de Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil, além de ter seu nome inscrito no livro dos heróis da pátria.

Mesmo depois de todo o sofrimento, preconceito e traumas vividos, Luiz conseguiu achar um motivo para continuar com seu propósito pela liberdade negra no país. O escritor tinha a convicção de que os negros deveriam ser livres, e para tal, ele não poupou esforços. O legado de Luiz Gama foi imprescindível para a história da abolição escravocrata no país e jamais será esquecido.


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