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A misteriosa senhora da van: a melancólica e verdadeira história da sem-teto Mary Shepherd

O dramaturgo inglês Alan Bennett mal imaginava o que a idosa tinha passado quando ela estacionou seu veículo amarelo na frente da casa dele, na década de 1970

Vanessa Centamori Publicado em 30/08/2020, às 08h00

(Esq. A verdadeira Mary Sheperd; (Dir.) a atriz Maggie Smith no filme Lady In The Van (A Senhora da Van)
(Esq. A verdadeira Mary Sheperd; (Dir.) a atriz Maggie Smith no filme Lady In The Van (A Senhora da Van) - Wikimedia Commons/TriStar Pictures/Divulgação

Como chiclete em para-brisa, o principal incômodo que gruda na cabeça de todo escritor é sempre onde encontrar novo material. Quer dizer, onde achar inspiração para a próxima grande história?

Essa questão envolvente foi justamente a que atropelou o dramaturgo Alan Bennett nos anos 1970, em Londres. Mas, mal esperava Bennet que a bombástica narrativa que ele tanto procurava estava bem à porta de casa. E seria a história de uma senhora, que estacionou na vizinhança dele, em uma van amarela.

Daí nasceu uma amizade improvável, entre o homem de classe média e aquela idosa sem-teto. Rabugenta, Mary Shepherd empilhava sacolas plásticas em cima do seu automóvel. Sofria por falta de higiene, maltratava os vizinhos e reclamava da alegria das crianças. Mas isso não impediu que ela permanecesse por 15 anos morando em frente à casa do dramaturgo. 

A convivência com a senhora rendeu uma narrativa e tanto. Alan Bennett tornou a mulher inspiração para uma peça de teatro em 1999, com o título The Lady in the Van ( A dama da Van, em tradução livre). No ano seguinte, virou uma peça de rádio apresentada na BBC. E ainda, em 2015, o escritor escreveu o roteiro para o filme homônimo, que no Brasil chegou como A Senhora da Van.

A casa de Alan Bennetton, onde Mary Sheperd costumava estacionar / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Rotina 

Segundo contou ao The New York Post, Bennett observava Sheperd de sua janela, enquanto ele trabalhava. “Ela costumava ser incomodada pelas pessoas. Eu costumava sair e dizer [àquelas] pessoas para irem embora. Isso me distraiu do trabalho e aos poucos chegou ao ponto em que era mais difícil trabalhar do que deveria ser", relatou o escritor. 

A solução encontrada por ele para aliviar o incômodo foi convidá-la para sua garagem de quintal, onde a idosa não seria mais incomodada por ninguém. Foi assim a partir de 1974 até a morte da senhora, em 1989.

Se soubesse que a inquilina demoraria tanto para ir embora, Bennett admitiu que talvez não a tivesse deixado ela ficar por perto. “Era difícil gostar dela”, disse ele, cujo quintal ficou lotado de lixo e excrementos. “Ela nunca sorria, não tinha senso de humor, sua política era muito diferente da minha. . . E todas essas coisas a tornaram uma personalidade agressiva ”.

Para evitar grande transtorno, na maior parte do tempo, Sheperd ficava trancada na van imunda, escutando rádio, orando ou lendo panfletos políticos. Freiras chegavam ao local de vez em quando para entregar à senhora mais alimentos. Era uma forma de complementar a alimentação precária que a idosa podia comprar com sua Previdência Social.

O escritor e dramaturgo  Alan Bennett / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Triste fim 

No filme A Senhora da Van, Mary Shepherd é interpretada pela atriz Maggie Smith, que transmite um leve viés cômico, com tiradas ácidas e com bom humor. Porém, na vida real, a verdadeira senhora do quintal de Bennett não tinha nada de descontraída. Não falava nada sobre sua vida pessoal, por isso, muito de sua trajetória é um segredo. 

Até que no dia 28 de abril de 1989, aos 78 anos, a idosa foi encontrada morta em sua van. Uma assistente social achou Shepherd quando já era tarde para salvá-la. O motivo do óbito foi insuficiência cardíaca. A mulher de idade avançada foi enterrada em uma cova não identificada no cemitério Islington and St Pancras. 

Mary Sheperd / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Em busca do passado

Para sua surpresa, entre jornais velhos, frutas podres e pilhas descartadas, Alan Bennett achou no veículo de Mary Sheperd um bilhete. O envelope dizia na inscrição: “Sr. Bennett— se necessário”. 

Dentro estava o nome e o endereço do irmão da senhora. Com isso, o dramaturgo conseguiu contatar o familiar daquela mulher tão peculiar e enigmática. O sujeito contou ao autor vários detalhes sobre a vida de Sheperd. 

Ele descobriu que a dona era uma talentosa pianista e chegou a ser treinada pelo renomado maestro Alfred Cortot. Havia desistido da música para se tornar freira. No convento, foi forçada a abandonar seu amor pelo piano e a se concentrar na fé. 

Porém, durante a Segunda Guerra Mundial, Sheperd mudou de profissão e se tornou motorista de ambulâncias do Exército britânico. Com o fim do conflito, ela passou a viver com a mãe em Notting Hill. Foi aí que sua saúde mental piorou, após muitas brigas com a figura materna. 

A seguir, o irmão internou Mary Sheperd na clínica psiquiátrica Banstead Hospital. Após muitas fugas de instituições similares, finalmente a mulher recebeu alta. Depois, ocorreu o episódio que mudou para sempre a vida dela: ao dirigir sua van, Sheperd bateu o veículo em um motociclista, que morreu tragicamente no acidente. 

Embora não tivesse tido 100% de culpa pela morte, a senhora fugiu sem prestar socorro. Possivelmente sentindo-se culpada, passou a morar na perua amarela, estacionada na frente da casa de Bennett.

Em um artigo, o escritor escreve que sentiu saudades da idosa, por mais rabugenta que ela fosse. “De certo modo, sinto falta dela”, escrevia ele. “[Por um tempo], toda vez que eu ouvia a porta de uma van. . . Eu diria: 'Ah, aí está a Srta. Shepherd'. Mas a Srta. Shepherd não estava mais lá”.


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