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A saga traumática de Chris Sizemore, a mulher de 22 personalidades

Sizemore ficou famosa nos anos 1950 por sofrer de transtorno dissociativo. Suas diferentes faces se vestiam e até falavam de modos diferentes

Vanessa Centamori Publicado em 04/04/2020, às 09h00

Chris Sizemore, na velhice
Chris Sizemore, na velhice - Divulgação/ Youtube

A condição humana é fascinante e usa de mecanismos de defesa inusitados para fugir de situações de estresse insuportáveis. Isso já intrigava, no final do século 19, o emblemático criador da psicanálise, Sigmund Freud, que estudou processos dissociativos no que ele classificava como histeria. O psiquiatra começou a investigar então um quadro que hoje é conhecido como transtorno dissociativo de personalidade. 

Sob essa condição, é possível que alguém mude seu alter (personalidade), em determinadas situações difíceis de se lidar ou traumas sérios. Foi essa questão que Christine "Chris" Costner Sizemore combateu ao longo da vida. Para ela, era difícil controlar a própria mente: a moça vivia sob o comando de 22 personalidades diferentes. 

Estigma

O caso chamou a atenção nos anos 1950 e Sizemore tornou-se uma norte-americana famosa na época. Devido ao enorme preconceito envolvendo doenças mentais, a mulher foi retratada com o pseudônimo de Eva e sua história de vida foi publicada no livro As Três Faces de Eva, obra escrita pelos psiquiatras que a trataram. 

Chris Sizemore, na adolescência / Crédito: Divulgação / Youtube 

 

O livro vendeu centenas de milhares de cópias e inspirou um filme homônimo, lançado em 1957, dirigido pelo cineasta Nunnally Johnson. A atriz que representou Chris Sizemore, a norte-americana Joanne Woodward, ganhou até um Oscar pelo papel de protagonista. 

Com a divulgação do filme e receio dos estranhamentos e falta de compreensão alheia, Sizemore viveu anonimamente por muito tempo no estado da Virgínia do Norte, nos Estados Unidos. 

Até que em 1977, em resposta ao filme As Três Faces de Eva, ela lançou sua autobiografia, Eu sou Eva, na qual ela revela que não tinha apenas três, mas sim 22 personalidades, e narra a sua verdadeira história que a levou a desenvolver o transtorno dissociativo de personalidade. 

Um passado traumático 

Chris Sizemore nasceu no dia 4 de abril de 1927, no Condado de Edgefield, no estado norte-americano da Carolina do Sul. Desde muito cedo, sua mente já deu sinais de fragmentação, pois sua infância foi muito traumática, cheia de danos não só psicológicos, como físicos, e abusos sexuais. 

Chris Sizemore, na infância / Crédito: Divulgação / Youtube 

 

Tudo começou quando ela tinha dois anos de idade. A partir de então, a criança passou a ter mais de uma versão dela mesma. Uma série de incidentes adentraram a inocência da menina para que isso acontecesse. Entre eles, uma vez na qual ela testemunhou um homem sendo cortado pela metade com uma serra em um moinho de madeira. 

O pai de Sizemore trabalhava no moinho e também era médico. Certa vez, a mãe dela sofreu um acidente sangrento na cozinha e aquilo ficou na memória da filha, assim como quando ela viu um funeral de uma criança e um corpo sendo retirado de uma vala. 

Conforme foi ficando mais velha, Sizemore foi tendo cada vez mais fragmentações em sua personalidade. Ela foi punida por atos de desobediência, que nem se quer se recorda de ter cometido. É possível que uma de suas diferentes personalidades tenha atuado no momento.

Assim também ocorria com sua vida escolar. Em algumas provas difíceis, para as quais a menina tinha se preparado, outras personalidades assumiam o comando e ela simplesmente fracassava em responder as questões. Por isso, a garota jamais terminou o ensino médio. 

Uma pintura feita por uma das personalidades de Chris Sizemore / Crédito: Divulgação / Youtube 

 

Segundo sua autobiografia, em 1977, Sizemore viveu um romance com um homem bem sádico, que a espancava constantemente, o que pode ter agravado ainda mais o quadro do transtorno mental. 

Em busca de ajuda 

Quem tem transtorno dissociativo de personalidade pode apresentar uma faceta que é mais mais sedutora, enquanto outra que é extremamente tímida, e assim por diante. As personalidades se revezam conforme a situação e são geralmente administradas por um indivíduo central.

No caso de Sizemore, suas diferentes faces mudavam sempre que ela sentia uma dor de cabeça e sofria lapsos de memória. Por isso, em 1970, ela começou a se consultar então com um psiquiatra, o Dr. Thigpen.

Após seu primeiro casamento, a moça começou a alternar entre uma depressiva Eva White para uma garota festeira, que se chamava Eva Black. Também havia Jane, uma mulher bem sensível que se manifestava durante as sessões de terapia com o Dr. Thigpen.

Uma pintura feita por uma dapersonalidade obscura de Chris Sizemore / Crédito: Divulgação / Youtube 

 

Sizemore gostava de pintar quadros, enquanto estava sob o comando das diferentes personalidades. Surpreendentemente, ela nunca fez aulas de pintura, mas mesmo assim demonstrava um talento impressionante. Algumas de suas facetas não só produziam artes diferentes, como até tinham caligrafias distintas. 

Após Sizemore se divorciar e se casar com o eletricista Don Sizemore, parecia que as duas Evas e a Jane estavam cada vez menos recorrentes. Porém, outras personalidades, geralmente em grupos de três, começaram a surgir.

Os médicos que trataram Sizemore começaram a entender melhor sobre seu transtorno e viram que algumas das dissociações da moça sabiam dirigir, outras não; e cada uma delas se vestia e falava de modo diferente. 

Um auto-retrato de uma das personalidade de Chris Sizemore / Crédito: Divulgação / Youtube 

 

Uma melhora 

Quatro anos após o início do tratamento psiquiátrico, em 1974, Sizemore finalmente parou de ter suas dissociações. O que mais a ajudou foi o trabalho do psiquiatra Richard Kluft.

"Você não sabe o quão maravilhoso é ir para a cama de noite e saber que será você mesma que irá acordar no dia seguinte", relatou Sizemore, em uma entrevista ao Jornal The New York Post, em 1975. 

O marido da mulher de múltiplas personalidades, Don Sizemore, faleceu em 1992. Sizemore, por sua vez, morreu aos 89 anos de idade, após um ataque do coração, com apenas uma personalidade, no dia 24 de julho de 2016.


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