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35 anos em condições preáciras: a triste história de Kaavan, o elefante mais solitário do mundo

O animal teve de viver em um zoológico tomado por condições insalubres — até ser ajudado por uma vencedora do Oscar, Emmy e Grammy

Wallacy Ferrari Publicado em 01/12/2020, às 10h58 - Atualizado às 12h29

Kaavan pressiona a cabeça contra a parede
Kaavan pressiona a cabeça contra a parede - Divulgação / Friends of Islamabad Zoo

Durante a década de 1970, a jovem Zain Zia, filha do então governante militar do Paquistão, Gen Ziaul Haq, ficou bestificada ao ver um curioso animal no filme indiano Haathi Mere Saathi.

Era um elefante, tal qual a garotinha rezava durante todas as noites por um. Em uma dessas ocasiões, o pai da garota ouviu a prece e, dias depois, a surpreendeu antes de ir para a escola levando um elefante para o 'quintal' de casa.

O presente não apenas foi muito comemorado, mas seria o início da estadia do pequeno Kaavan em solo paquistanês. O general havia arranjado o filhote gratuitamente no Orfanato de Elefantes Pinnawala (PEO), no Sri Lanka, de acordo com levantamento da BBC, como retribuição por apoiar o país militarmente.

Zain cresceu ao longo dos anos, compreendendo que, diferente da ficção, os bichos não correspondem aos impulsos emocionais dos seres humanos com tanta facilidade.

Com isso, o elefante passou a ter cada vez menos acompanhamento, tornando-se um custo indesejável para a família, além de ocupar muito espaço na casa. Com isso, em 1985, foi transferido para um zoológico em Islamabad, capital do país.

O elefante Kaavan passeia ao redor de lago artificial / Crédito: Divulgação/YouTube/BBC News

 

A saga

O zoológico de Marghuzar sofria com a má administração; construído sete anos antes da chegada de Kaavan, a desorganização fez com que o local se enchesse de atrações recreativas.

Barracas de comida tomavam o espaço que deveria ser reservado apenas aos animais. Para piorar, a organização voluntária Friends of Islamabad Zoo descobriu que não havia instalações veterinárias nem suprimentos médicos para os animais no local.

Kaavan, por sua vez, passava integralmente o seu tempo em uma área correspondente a meio campo de futebol, tendo uma pequena cabana com piso de concreto.

Os cuidadores não o banhavam, acreditando que suas entradas no lago artificial eram suficientes para a higiene, além da completa ausência de itens naturais, como árvores, troncos, arbustos ou pedras.

Durante o turno de funcionamento do parque, o elefante era cutucado pelo treinador com um gancho, de maneira que fosse para uma pequena gaiola de exposição, onde ficava bem próximo do público.

Novamente cutucado, ele foi treinado para arquear o tronco, de maneira que formasse uma cavidade para receber dinheiro da multidão que o assistia através das grades. Tinha uma vida trágica.

Kaavan ao lado do cuidador e da cantora Cher / Crédito: Divulgação/YouTube/BBC

 

O resgate

Apesar da rotina desgastante, a principal angústia de Kaavan ocorreu em 2012, com a morte da companheira Saheli. A elefanta o acompanhava desde 1990 e, de acordo com o zoológico, faleceu devido a um ataque cardíaco pelo clima quente.

Porém, o Friends of Islamabad Zoo teve acesso a uma versão diferente; a jovem elefanta não teve o gancha das garras esterilizados, sendo penetradas no fundo da pele e falecendo de choque séptico após uma gangrena.

Kaavan passou a apresentar um comportamento agressivo, além de ter problemas de saúde devido à dieta rica em açúcar. Sabendo disso, a cantora Cher, fundadora da ONG Free the Wild, iniciou uma batalha na justiça paquistanesa para a soltura do animal em seu habitat natural. A solicitação parou no Supremo Tribunal de Islamabad, que ordenou o fechamento permanente do zoológico.

O destino de Kaavan, no entanto, estava incerto. Cher então conseguiu garantir sua sobrevivência no Santuário de Vida Selvagem Kulen-Promtep, no Camboja. Com o auxílio da artista, o elefante pôde ser levado de avião ao outro país, tendo a nova casa garantida pelo resto de sua vida em novembro de 2020.


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