Boshin: A última guerra dos samurais

Há 150 anos, uma guerra entre samurais com fuzis, canhões e navios a vapor consolidou o Japão como um país moderno unificado. Era o fim de quase 700 anos de feudalismo e o começo de uma grande potência

sexta 4 maio, 2018
Tokugawa Yoshinobu a caminho de Edo
Tokugawa Yoshinobu a caminho de Edo Foto:Wikimedia Commons

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O Japão nasceu há 150 anos, em 1868. Ou melhor: o Japão, país unificado, com um governo central moderno, só surgiu então. Antes disso, cada região era controlada por seu daimiô, seu senhor feudal, que tinha autonomia em quase tudo, menos guerra, no que respondia ao xogum – e, na prática, não havia guerra fazia dois séculos e meio. Tóquio chamava-se Edo e era a sede do domínio dos Tokugawa. O arquipélago havia atravessado 221 anos de quase total isolamento do mundo.

Com a Guerra de Boshin, um sistema de governo e de vida ruiu. O imperador, em geral uma figura apenas simbólica desde o século 11, voltou a ter poder e passou a aceitar, de bom grado, as novidades trazidas pelo resto do globo – um caso que, veremos adiante, não é sem ironia. Os mais expressivos representantes da velha ordem, os samurais, seriam extintos. Era o fim de uma era.

O dilema colonial

Foi Matthew C. Perry, almirante britânico a serviço do presidente americano Millard Fillmore, que forçou o fim do sakoku, o “fechamento”, política isolacionista que vinha desde 1633. O país não tinha comércio exterior e não aceitava visitantes.

Perry tinha ordens para estabelecer contato diplomático – custasse o que custasse. Fez isso em duas visitas nada amistosas, realizadas em 1853 e 1854. Posicionou seu esquadrão armado com canhões, primeiro na baía de Edo (futura Tóquio) e depois perto da atual Yokohama. E “pediu” para aceitarem sua visita, sob óbvia ameaça militar. Conseguiu o que parecia impossível: que os japoneses assinassem um tratado comercial, o primeiro de vários. Começou então um período de grande tensão, em que as lideranças se viam forçadas a aceitar os diplomatas e mercadores ocidentais.

Quem assinava era o xogum. Suserano de todos os daimiôs, não era rei ou primeiro-ministro, estava mais para generalíssimo. O cargo era concedido pelo imperador, e o poder dos imperadores não ia além da formalidade dessa concessão.

E o xogum, ironicamente, devia seu poder ao Ocidente. Séculos antes, o Japão havia travado diálogo com o outro lado do mundo. Foi em 1543, com a visita de três marinheiros portugueses à ilha de Tanegashima, apresentando aos japoneses as armas de fogo ocidentais, que seriam produzidas massivamente pelos japoneses, ganhando o mesmo nome do local do contato. Seria com os arcabuzes tanegashima que o Japão seria unificado, nas seis décadas seguintes, com o poder terminando nas mãos da família Tokugawa. Temendo que esse poder lhe escapasse – e preocupado com a pregação missionária cristã -, o xogum Tokugawa Iemitsu, que assumiu o poder em 1623, proibiu o contato com estrangeiros, inclusive a construção de navios oceânicos, e as armas de fogo, que ficaram guardadas em seu arsenal, para o caso de uma guerra externa. A exceção eram alguns poucos comerciantes holandeses, que eram admitidos num porto só, Nagasaki. Graças a eles, o Japão tinha uma vaga ideia de que estava ficando para trás.

Tensões se acumulam

E também tinham uma ideia do que os aguardava. A poderosa China travara uma guerra com os britânicos ao tentar impedir a epidemia de ópio, vendido pelos europeus. O resultado foi ser forçada a assinar o Tratado de Nanquim, fazendo concessões impensáveis para o país que chamava (e chama) a si prórpio de Zhonghuá, o Império do Centro (do mundo).

Samurai em vestes típicas e com katana na cintura apontando um fuzil de repetição moderno Reprodução

No início da década de 1860, o xogum tentava se equilibrar na corda bamba da modernização estrangeira, ganhar os avanços sem entregar o país. “Entre a população, antes da abertura forçada, havia um intenso interesse a respeito do Ocidente. Mas uma parcela menor, ainda que muito influente, era xenofóbica e não queria nenhum tipo de contato com o mundo exterior”, afirma David Howell, professor de história japonesa na Universidade Harvard.

Em 1862, o comerciante britânico Charles Lennox foi morto com espadas e lanças porque chegou perto demais da comitiva do nobre Shimazu Hisamitsu, demonstrando o que foi visto como desrespeito aos samurais – e samurais tinham o direito por lei de matar quem os desrespeitasse. Kagoshima foi bombardeada pela Marinha britânica, e o governo foi forçado a pagar uma indenização.

Quebrando a tradicional passividade do cargo, o imperador Komei, no trono desde 1846, deu uma ordem. Em 1863, ele decretou que os bárbaros deveriam ser todos expulsos. O xogum não mexeu uma palha para colocar o comando em prática. E, certamente, nem tinha condições.

Chamados de bárbaros, europeus eram ameaçados e civis desarmados foram atacados – grupos de samurais mataram 11 marujos franceses em Sakai, em 8 de março de 1868 e, duas semanas depois, atacaram o embaixador britânico Harry Parkes, que escapou com vida em três diferentes ocasiões, sempre graças à ação de seus guarda-costas contra samurais armados com espadas.

A queda da casa Tokugawa

A guerra parecia iminente. Só não começou antes porque, num curto período de tempo entre o fim de 1866 e o início de 1867, morreram o imperador, Komei, e o xogum Tokugawa Iemochi. Komei foi sucedido por seu filho de 14 anos, Mutsuhito – que, após sua própria morte, dentro da tradição japonesa, assumiria o nome histórico de Meiji (em vida, Komei era chamado Osahito).

Já a morte do xogum deu início a uma transição mais violenta: o sucessor, Tokugawa Yoshinobu, renunciaria antes do fim de 1867, concluindo os 265 anos de controle da família Tokugawa do regime militarista. Aproveitando-se da confusão, o imperador retomou as tentativas de seu pai em reclamar para si o poder nacional. Tornar-se um monarca real, não nominal.

A essa altura, a questão dos estrangeiros havia se tornado mero pretexto. Ambos os lados queriam o mesmo: o poder, pela via das armas ocidentais. Naquele momento, durante toda a guerra e seu governo, a Era Meiji, o imperador agia influenciado pelos clãs Chosu, Satsuma e Tosa, que liderariam o combate. “O imperador Meiji fez o que lhe foi dito”, afirma Anne Walthall, professora de história japonesa da Universidade da Califórnia.

Samurais em vestes tradicionais, portando armas de fogo e feridos por elas na Batalha de Ueno Reprodução

Ao renunciar, Tokugawa Yoshinobu esperava assumir uma posição de peso no governo do novo imperador. Não foi o que aconteceu. Os nobres adversários dele conseguiram que a casa Tokugawa fosse declarada extinta – para isso, membros dos clãs que governavam Choshu e Satsuma chegaram a invadir o palácio imperial, em Quioto, para ditar decretos que Meiji assinara. Em Edo, a partir de onde os Tokugawa governavam, o castelo do clã chegou a ser cercado e tudo em volta, queimado. Daí para a guerra foi um passo.

O xogunato tinha tudo para se sair melhor. Ainda contava com o apoio de boa parte das regiões que formavam o país, com seus nobres e seus exércitos de samurais. Em 27 de janeiro, suas forças atacaram a entrada sul de Quioto. Eram 15 mil homens contra os 5 mil soldados dos líderes de Choshu e Satsuma.

Mas os homens de Choshu e Satsuma estavam mais bem armados, com rifles Minié e quatro canhões Armstrong. No segundo dia de batalha, o imperador enviou sua bandeira para ser hasteada entre os soldados que defendiam Quioto. Foi quando surgiu, oficialmente, o exército imperial. O gesto era inédito, porque, tradicionalmente, era o xogunato que controlava todas as forças militares do país. Sentindo-se incapaz, moralmente, de lutar contra seu próprio imperador, o xogun que havia acabado de renunciar, Tokugawa Yoshinobu, se retirou do campo de batalha. Boa parte dos soldados o seguiu, e o que parecia uma vitória certa para o xogunato acabou representando a primeira vitória militar dos aliados do imperador.

Canhões e samurais

A deserção do xogum não impediria que seus aliados travassem a Guerra do Ano do Dragão (é o que quer dizer Boshin). Ela se estenderia por 17 meses, entre janeiro de 1868 e junho de 1869.

Engana-se quem está imaginando um conflito de samurais com espadas contra exércitos modernos. Ao longo do conflito, ambos os lados apostaram na modernização do arsenal, no começo cheio de katanas e dos arcabuzes do sécuo 16.

No início, o Exército imperial contava com armamentos mais modernos, em especial o já citado fuzil Minié, fabricado na França. Eram armas superiores se comparadas aos fuzis alemães Gewehr, usados pelos adversários. Feitos na Inglaterra, os canhões Armstrong do imperador eram carregados pela culatra, o que era muito mais rápido que o método tradicional, pela boca, e seu cano era raiado, como o de um fuzil, fazendo a bala sair girando, aumentando em muito a precisão. Os homens do xogum ainda dependiam principalmente de canhões de madeira medievais, que ficavam imprestáveis depois de disparar três vezes.

Nos últimos meses, samurais e soldados comuns (chamados ashigaru) portavam ícones do faroeste: fuzis de repetição Spencer e revólveres Smith & Wesson.

No mar, embarcações antigas, tradicionais, de madeira, passaram a coexistir com encouraçados a vapor. Nesse setor, os dois lados estavam em paridade – por isso, várias das principais vitórias do xogunato aconteceram no mar. Por sua vez, o império adquiriu o Kotetsu (literalmente “encouraçado”), um antigo navio fabricado na França e que pertencera aos confederados americanos. Havia sido utilizado durante a Guerra Civil dos Estados Unidos e se mostraria decisivo na Batalha da Baía de Hakodate, um marco da vitória das forças imperiais japonesas.

O imperador Meiji recebendo a Constituição Japonesa na câmara do novo Palácio Imperial, em 11 de fevereiro de 1889 Reprodução

Os uniformes dão uma ideia da situação do país: alguns samurais, de ambos os lados, usavam seus uniformes tradicionais, coloridas armaduras de ferro esmaltado, portando espadas curvadas e lanças, enquanto outros, nos mesmos exércitos, adotavam roupas ocidentais, em geral calças e camisas de algodão azul escuro. Do lado imperial, o uso de vestuário ocidentalizado era acrescido, no caso dos oficiais, de perucas compridas nas cores branca, preta ou vermelha, de acordo com a região de onde o militar vinha. Os capacetes dos soldados podiam ser cônicos, de diferentes alturas, ou arredondados, ou mesmo substituídos por faixas.

Manobras diplomáticas

No dia 28 de janeiro de 1868, enquanto acontencia a retirada em Quioto, o xogunato vencia a batalha naval de Awa. E convencia os ministros dos países estrangeiros, reunidos no porto neutro de Hyogo, a apoiar o antigo sistema de governo. Afinal, o imperador anterior já tinha manifestado o desejo de expulsar os estrangeiros, e Meiji podia fazer o mesmo. Demoraria alguns meses para o imperador conseguir uma vitória diplomática e convencer o mundo exterior a apoiar seu governo. Enquanto isso, o xogunato se mantinha na luta, na expectativa de que os franceses mandassem reforço militar. Mas os estrangeiros se manteriam distantes do conflito: Inglaterra e França vendiam armas e mantinham oficiais como consultores. Mas não tomaram partido. Assinaram um termo concordando com a não intervenção.

A primeira etapa da Guerra Boshin acabou rapidamente. Em 4 de julho de 1868, depois de apenas seis meses de conflito, Saigo Takamori venceu a Batalha de Ueno, um último esforço do xogunato para manter o controle sobre os arredores de Edo. A partir dali, por um ano, o Japão se dividiu em dois. Isolados, os representantes do xogunato se isolaram em Hokkaido, onde chegaram a formar uma república. O restante do país, em geral, aderiu ao imperador. Mas a vitória final só aconteceria meses depois, com a derrota da República de Ezo.

Essa fase contou com momentos dramáticos. Em Aizu, hoje um distrito de Fukushima, 15 mil combatentes cercaram o Castelo Tsuruga, onde ficava instalado um grupo de byakkotai, o batalhão dos Tigres Brancos. Eram 300 jovens samurais, de no máximo 17 anos. Formavam uma força de reserva, mas 20 deles se viram isolados dentro do castelo depois que as forças do xogunato se dispersaram na Batalha do Passo Bonari. Depois de um mês de cerco, em outubro de 1868, os byakkotai receberam a proposta de se render e sair pacificamente. Preferiram a morte e cometeram suicídio coletivo.

Nasce um império

Em 26 de outubro de 1868, já na segunda fase da guerra, Edo foi rebatizada como Tóquio e transformada em capital, enquanto o imperador renegociava os acordos comerciais do passado. Era o início oficial da Era Meiji.

Ilustração de uma rua com prédios ao estilo ocidental, feitos de tijolos, em Ginza, Tóquio, em 1872 Reprodução

Restava exterminar a república rebelde. Não foi difícil. Mal armado e cercado por samurais que faziam questão de lutar com espadas ou os velhos arcabuzes tanegashima, o presidente Enemoto Takeaki sofreu uma série de derrotas militares, até que acabou cercado e se rendeu ao perder a Batalha de Hokkaido, em 26 de junho de 1869 – data que marca o fim da Guerra Boshin.

O imperador havia vencido, com relativamente poucos mortos: em torno de 3.500, para uma movimentação de tropas envolvendo cerca de 120 mil pessoas.

Em 1873, o imperador aboliu a classe dos samurais. Foram rebatizados de shizoku (“famílias guerreiras”), perderam o direito de portar armas em público e de matar civis que os ofendessem. Os ex-samurais assumiram funções no Exército moderno ou se dedicaram a outras profissões, como professores. Em 1877, uma revolta de ex-samurais seria liderada por Saigo Takamori, um grande general da facção imperial na Guerra Boshin. Que não era um tradicionalista: só havia rompido com o governo por achar que mais verba era necessária para a modernização do exército. A Revolta de Satsuma iria de 29 de janeiro até 24 de setembro de 1877, quando Takamori decidiu cometer seppuku, o suicídio ritual. Seria o último suspiro do samurai. E do Japão antigo.

Tiago Cordeiro

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