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Incomodado com as origens judaicas de Jesus, Hitler criou uma versão nazista do clássico Noite Feliz

Cantada por mais de 2 bilhões de pessoas e considerada Patrimônio Cultural pela Unesco, a música que reflete o espírito natalino virou um louvor ao Führer

Fabio Previdelli Publicado em 18/12/2019, às 11h02

Festa de Natal para os funcionários da Chancelaria do Reich
Festa de Natal para os funcionários da Chancelaria do Reich - Getty Images

“Noite feliz, noite feliz. Ó senhor, Deus do amor”...

Os versos acima fazem parte de uma das músicas natalinas mais conhecidas do mundo, que já foi cantada por mais de 2 bilhões de pessoas no mundo e que desde 2011 figura na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco.

Traduzida para mais de 300 idiomas, o poema escrito pelo padre austríaco Joseph Mohr ganhou uma melodia em 24 de dezembro de 1818, quando o próprio Mohr convidou o organista Franz Xaver Gruber para compor o ritmo da letra que havia sido escrita por ele dois anos antes. Assim nascia ‘Stille Nacht, heilige Nacht’.

Naquela noite, a música foi executada pela primeira vez durante o serviço da igreja de São Nicolau em Oberndorf bei Salzburg, na Áustria. Neste período da história, a cidade de Salzburgo passava por um momento de grandes dificuldades.

O poema escrito pelo padre austríaco Joseph Mohr ganhou uma melodia em 24 de dezembro de 1818 / Crédito: Creative Commons

 

Durante as Guerras Napoleônicas, o então principado eclesiástico independente sofreu diversas ocupações. Como consequência, os conflitos geraram caos e fome, principalmente em 1816, quando ocorreu o chamado Ano Sem Verão — no qual as temperaturas extremamente baixas destruíram plantações na Europa e na América do Norte.

Para completar, no mesmo ano a cidade perdeu sua independência e foi anexada à Áustria. Em entrevista à BBC News em 2018, o curador da exposição ‘Silent Night 200 - The Story. The Message. The Present’, que ocorreu no museu de Salzburgo, explicou o contexto da canção: "As palavras deste cântico foram escritas nestas circunstâncias. Elas expressam uma ânsia por redenção e paz".

A canção superou essa particularidade local e se tornou sucesso em todo o mundo. Em um primeiro momento, a música se espalhou por meio de manuscritos pela região. Depois, ela foi levada para Zillertal — um vale em Tirol onde ela era cantada por corais — pelo construtor de órgão Carl Mauracher. A partir daí, ela se espalhou pela Alemanha, Europa e Estados Unidos.

Segundo Thomas Hochradner, chefe do Departamento de Musicologia da Universidade Mozarteum, na Áustria, e idealizador da exposição Silent Night 200: "O Cristianismo levou essa música para o mundo com missionários (protestantes e católicos). Ela virou acessível em muitas línguas e dialetos, tonando-se global".

Entretanto, a popularidade da canção não garantiu que as traduções continuassem completamente fiéis ao texto original. Se formos pensar na versão em português, essas “adaptações” podem ser percebidas logo no título da música. Conhecida por aqui como Noite Feliz, a canção original se chama ‘Noite Silenciosa’.

Além do mais, a versão tupiniquim também contém a frase “pobrezinho nasceu em Belém”, que não existe na original austríaco. "As chamadas traduções são novas poesias que tentam manter a mensagem do texto, mas precisam levar em conta o ritmo e as rimas (da língua)", explica Hochradner.

Mas apesar dessa tendência em manter a ideia original, nem sempre a versões carregavam em si a essência do Natal como uma festa de redenção, e a representatividade de Deus, Cristo e a fé.

Como prova disso, está a’ Weihnachtsringsendung’, a versão nazista do cântico. Afinal de contas, o regime de Hitler tinha um problema óbvio com o Natal: Jesus era judeu e o antissemitismo era o centro da ideologia nazista.

Assim, a equipe do Führer tentou reescrever a canção sem essas referências, transformando o cântico em um louvor a Hitler. Os primeiros versos da música ficaram assim:

"Tudo é calmo, tudo é esplendido Apenas o Chanceler fica em guarda O futuro da Alemanha para vigiar e proteger Guiando nossa nação certamente."

Os compositores

Nascido em 1792, em Salzburgo, Joseph Mohr tornou-se curador na pequena municipalidade de Mariapfarr, em 1815. No ano seguinte, ele escreveu o poema que ficou conhecido por todo o mundo. Já em 1817, ele foi transferido para Oberndorf bei Salzburg.

O organista Franz Xaver Gruber ficou responsável por compor a melodia do poema escrito por Joseph Mohr / Crédito: Getty Images

 

Lá, ele conheceu Franz Xaver Gruber — que nasceu em Hochburg em 1787 e que tocava órgão na igreja local — com o qual cultivou uma amizade por toda a vida. A dupla se tornou extremamente popular pela Áustria, que a cidade onde eles nasceram, trabalharam e morreram possuem memoriais e museus para homenageá-los.

"Os austríacos gostam e cantam a canção, principalmente em sua versão original, que difere um pouco daquela mais comum no mundo. É mais uma tradição do que orgulho", afirma Hochradner.

"Ela conta a história do nascimento de Jesus. Então é um cântico religioso ao mesmo tempo em que é para a paz no mundo”, conclui Husty.