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Abandonado, vendido como escravo e adotado por lobos: a intensa trajetória de Marcos Rodríguez Pantoja

Aos sete anos, o espanhol foi rejeitado pela sua família e, sozinho, precisou buscar abrigo nas montanhas

Alana Sousa Publicado em 03/07/2020, às 11h00

Cena do filme Entre lobos (2010)
Cena do filme Entre lobos (2010) - Divulgação/Wanda Vision

São muitas as histórias de crianças que foram criadas por animais, algumas delas sendo verdadeiras, como a de John Ssebunya, um menino que se perdeu na floresta e foi criado por macacos; e outras, no mínimo, de origem duvidosa, como de Kamala e Amala, as irmãs que supostamente teriam sido criadas por lobos na Índia, mas que hoje acredita-se ter sido algo inventado para conseguir dinheiro.

Ainda temos a história de ficção mais famosa de todas: Mogli. O menino que fora criado na floresta em meio aos animais, longe da civilização humana, clássico da Disney. Desde sempre, quando um caso desses é descoberto, a atenção da mídia e de curiosos está voltada para os desdobramentos da história. Foi assim também com Marcos Rodríguez Pantoja, o garoto que viveu entre os lobos.

O menino lobo

Com apenas três anos perdeu a mãe, o novo casamento do pai lhe rendeu diversos abusos, mas o maior ainda estava por vir. Em 1953, seu pai o vendeu como escravo para um pastor eremita. Logo após a morte do homem, a criança, com então sete anos, se viu sozinha e teve que fazer de tudo para sobreviver. Marcos, que vivia nos arredores de Serra Morena, na Espanha, seguiu para as montanhas, uma das principais do país, repleta de animais selvagens.

Serra Morena / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em entrevista ao antropólogo Gabriel Janer Manila, que estudou seu caso anos mais tarde, Pantoja afirmou que bebia leite de cabra, comia raízes no café da manhã e passava a maior parte de seu tempo com lobos. O detalhe mais peculiar de sua trajetória foi o que tornou o espanhol conhecido no mundo todo como Menino Lobo.

Foram 11 anos na floresta, até que, no ano de 1965, dois guardas florestais o encontraram e, contra sua vontade, o levaram de volta para a sociedade amarrado e amordaçado, enquanto o jovem selvagem uivava sem parar. Um tempo depois, em 1976, Manila mostrou interesse em estudar o caso do menino lobo, Rodríguez concordou e cedeu uma entrevista.

Sobre uma de suas primeiras noites nas montanhas, o espanhol lembrou: “Eu roubei um pedaço de carne deles e, de repente: gritos. A mãe tirou da minha boca, rosnando para mim. Eu pensei que ela ia me matar, mas não. Me deu um pedaço, me lambeu e me enrolou com ela. Hoje, essa é a única mãe que reconheço”.

Com o passar do tempo ele perdeu completamente os hábitos humanos, ao invés da fala sua comunicação passou a ser apenas uivos e latidos. Aos poucos ele conta que aprendeu a entender os outros animais. “Os animais me orientaram sobre o que comer. O que eles comeram, eu comi”, falou à BBC em 2013.

Marcos Pantoja / Crédito: Divulgação/ Antonio Heredia

 

De volta para a sociedade

Jovem, já com 19 anos, Marcos teve dificuldade em se readaptar a vida entre humanos. Primeiramente, foi internado no Hospital de Convalecientes da Fundação Vallejo, em Madri. Lá as freiras lhe ensinaram a falar novamente, andar de pé e se vestir.

Quando seu pai foi encontrado pelas autoridades espanholas — que nem pensaram em denunciar o homem pelo que havia feito —, ele o rejeitou novamente. O menino lobo precisou trabalhar para conseguir viver, o que não foi fácil. Pantoja contou que foi enganado e, até mesmo, vendeu drogas sem seu conhecimento. Cansado das decepções, decidiu se mudar, foi viver em Málaga, uma cidade da Espanha.

Apesar de Rodríguez tentar manter sua história e sua identidade em anonimato, em 2010 o filme Entre Lobos, com direção de Gerardo Olivares, foi lançado. Trazendo toda a sua instigante saga à tona.

Requisitado para dar entrevistas em vários programas de televisão, Marcos sempre se mostrou pouco à vontade com a exposição que ganhara, preferindo a vida mais calma e, preferencialmente no campo. Chegou a dizer, em 2018, que estava decepcionado com a natureza humana e desejava poder voltar às montanhas.

Cena do filme Entre lobos (2010) / Crédito: Divulgação/Wanda Vision

 

Sem poder estar com sua família de origem, Marcos encontrou conforto em um policial aposentado que sempre lhe mostrou carinho. Manuel Barandela Losada permaneceu em contato com Pantoja até morrer, o menino lobo chamava-o de chefe e o considerava como sua família.

Hoje, aos 74 anos, Marcos Rodríguez Pantoja vive recluso, recebendo ajuda financeira de uma família holandesa. Em algumas ocasiões aceita convites para dar palestras e relembrar sua experiência na floresta. Mesmo com a grande vontade de retornar para a vida selvagem, o crescido menino lobo afirma: “continuarei onde estou”.


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