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Ação do homem e mudanças climáticas afetaram a fauna e a flora da região do Vale do Nilo

No fim do império, o Egito viveu um aumento de aridez, que trouxe redução de alimentos e Guerra Civil

Daniel Petrillo Publicado em 17/03/2022, às 14h05

Registro do Nilo
Registro do Nilo - drwdowin, via Pixabay

Muita gente acredita que os problemas ambientais são um fenômeno recente, relacionado à Revolução Industrial do fim do século. Mas, de acordo com pesquisa publicada na revista norte-americana PNAS, a relação conturbada entre homem e natureza tem raízes no início da civilização.

Ao analisar pinturas e artefatos artísticos do Antigo Egito, cientistas descobriram que a região do Vale do Nilo, hoje um imenso deserto, era muito parecida com o atual Quênia – savanas e pastagens abrigavam leões, girafas, hipopótamos e zebras. Das 37 espécies de mamíferos que existiam na região, apenas oito ainda estão por lá. O período do estudo abarca de 9750 a.C até hoje.

Crédito: Divulgação/Pixabay

A redução da fauna e da flora, acreditam os pesquisadores, está relacionada a ciclos de incremento da aridez e crescimento populacional. O estudo mapeou quatro grandes picos, o primeiro em 2860 a.C. e o último em 1850. Ainda que não existam conclusões definitivas, uma hipótese é que em cenários de mudanças climáticas as plantas crescem menos, o que leva a uma pressão alimentar em animais herbívoros.

Outra alternativa, que talvez reforce a primeira hipótese: sem grãos, os egípcios usaram a caça como alternativa alimentar. “Nosso estudo é a primeira análise de alta resolução dos impactos ecológicos nas mudança ambientais em escala de tempo milenares, e lança luz sobre acontecimentos históricos que moldaram as comunidades de animais modernos”, afirmou Justin Yeakel, um dos pesquisadores.

Primeiras cidades

O Vale do Rio Nilo já era habitado desde o Paleolítico, entre 2,5 milhões e 12 mil anos atrás. Em torno do sétimo milênio a.C, a agricultura e o pastoreio já eram praticados no delta do rio e começaram a se expandir em direção ao sul, seguindo as margens. Há cerca de 7 mil anos, durante o processo de formação do Deserto do Saara, populações nômades do norte da África e do Oriente Médio buscaram o Nilo e se fixaram no local, misturando-se a povos locais.

Registro de Abul-Simbel / Crédito: Pixabay

Tempos depois, começaram a surgir as primeiras cidades na região. O estudo começou de uma ideia do antropólogo e biólogo evolucionista Nathaniel Dominy e do ecólogo Justin Yeakel. Depois de visitarem uma exposição sobre o faraó Tutancâmon, eles ficaram impressionados com a variedade de representações de animais produzidas por artistas do Antigo Egito – e viram a oportunidade de usar as imagens como um importante instrumento de pesquisa.

“Uma das coisas mais marcantes foi a quantidade de detalhes e a abundância de representações de animais. Os artesãos egípcios eram observadores argutos do mundo natural. Por exemplo, os túmulos dos faraós eram ilustrados com representações de cenas de caça, oferecendo um vislumbre do mundo natural do período”, contou Yeakel.

“A quantidade de evidências paleontológicas, arqueológicas e históricas revelam um mundo muito diferente do que é visto hoje no Egito. Leões, cachorros selvagens, hienas, elefantes, girafas e gnus eram comuns.”

A dupla resolveu usar a técnica de análise dinâmica entre redes de predadores e presas. E chamaram para a tarefa o especialista em modelagem ecológica Mathias Pires. “A partir da relação entre predadores e presas pudemos visualizar toda a teia alimentar durante seis milênios”.

Segundo o estudo, os primeiros mamíferos extintos no Vale do Nilo foram os rinocerontes, os gnus-azuis, as zebras e as girafas, entre 9750 e 2860 a.C. No período, houve uma transição do clima africano, úmido e frio, pontuado por monções, para o primeiro período de aridez – com o desaparecimento de muitos herbívoros.

Entre os especialistas, existe o conceito de redundância ecológica – se uma espécie desaparecer, sua função não se perde, pois outros organismos desempenham papel parecido. Mas no Egito, à medida que o número de espécies diminuiu, uma das primeiras perdas foi a redundância ecológica.

“Havia várias espécies de gazelas e pequenos herbívoros, mas com o aumento da extinção, a perda desses animais teve efeito maior na estabilidade do sistema”, disse Yeakel. “Grandes mamíferos precisam de mais alimentos e têm períodos de gestação mais longos. Sempre que havia mudança no clima ou aumentava a caça, leões e rinocerontes estavam mais vulneráveis à extinção.”

Competição por espaço

De acordo com Yeakel, o colapso coincidiu com a intensificação da atividade humana. “A densidade populacional aumentou e a competição por espaço teve um grande impacto sobre os animais”, afirmou.

Entre 3100 e 2190 a.C., no chamado Antigo Império, a revolução agrícola e a divisão social do trabalho marcaram a ascensão da civilização egípcia. “Graças a uma administração centralizada bem desenvolvida, houve um aumento considerável da produtividade agrícola”, ressaltou o historiador Arnoldo Walter Doberstein. Justamente nesse período ocorreu a extinção de elefantes e leões do Vale do Nilo.

No final do Antigo Império, o Egito viveu um novo aumento da aridez – o fenômeno trouxe redução de alimentos e uma guerra civil. Os líderes regionais já não podiam contar com o faraó para ajudar em épocas de crise, e a consequente escassez de alimentos e as disputas políticas se transformaram em situações de fome.

“A resolução temporal sem precedentes desse conjunto de dados permite o exame de como os efeitos em cadeia do crescimento da população pode perturbar as comunidades de mamíferos”, revelou Yeakel. “Mostramos que as extinções não foram aleatórias, e que as mudanças desestabilizadoras na composição da comunidade coincidiram com eventos de aumento da aridez abruptos.”

O terceiro pico de aridificação ocorreu por volta de 1085 a.C. O período é associado ao colapso do Novo Império. Segundo o historiador Rainer Sousa, “no final do Novo Império, as disputas políticas entre os faraós e os sacerdotes foram responsáveis pelo enfraquecimento político da nação. Por volta de 1100 a.C., o império foi novamente dividido em Alto e Baixo Egito”.

De acordo com o estudo é nessa época que se veem extintos o antílope – registrado em desenhos no leste do Egito e também em paletas do período pré-dinástico – e o gamopersa, muito retratado durante a primeira dinastia e encontrado em cenas de caça até a 18ª dinastia.