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Acidentes, contratempos e erros: Como dois astrônomos tentaram medir o planeta

Prevista para terminar em um ano, durante a euforia da Revolução Francesa, a expedição de uma dupla de cientistas enfrentou momentos conturbados

Redação Publicado em 02/11/2020, às 10h00

Jean-Baptiste Joseph Delambre (à esqu.) e Pierre-François-André Méchain (à dir.)
Jean-Baptiste Joseph Delambre (à esqu.) e Pierre-François-André Méchain (à dir.) - Wikimedia Commons

lardeada pelas ruas de Paris, a queda da coroa do rei estava mais próxima do que nunca. Três anos depois do estopim da Revolução Francesa, a Queda de Bastilha, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pareciam que, enfim, seriam colocados em prática.

No meio do turbilhão de discussões políticas e sociais, a França de 1792 tinha mais motivos para ficar de cabeça para baixo. Não havia, em toda a Europa, um sistema único de medidas de comprimento, peso e volume – o que atrapalhava o comércio e o desenvolvimento da economia.

A decapitação de Luís XVI /Crédito: Wikimedia Commons

 

Além disso, era uma desigualdade, uma injustiça. As medidas diferiam não só de nação para nação, mas também dentro de cada país. Só os franceses usavam cerca de 800 unidades de pesos e medidas, e muitas variavam conforme o humor de quem as aplicava.

Um terreno de 5 alqueires bastante fértil, por exemplo, poderia medir 6 nas contas de um espertinho. O novo pensamento científico não podia admitir tal imprecisão. Era chegada a hora de criar um sistema racional, único e permanente, como o novo Estado francês que se estava criando. Além disso, seria uma arma contra a injustiça e afirmaria a soberania da França na vanguarda da História.

A reforma dos pesos e medidas começou com a definição de uma unidade de comprimento: o metro. Volume, peso, área, todas as outras medidas seriam, então, relacionadas a ele. Mas como definir quanto mede um metro? As medidas do pé, do braço ou da polegada do rei já não serviam mais, já que os dias, para eles, estavam contados.

Sem falar que cada soberano tinha um tamanho e o novo sistema não poderia beneficiar um povo. Para achar um jeito de determinar quanto media 1 metro, os pensadores da Academia de Ciências de Paris passaram quatro anos quebrando a cabeça. Primeiro, discutiram a possibilidade de a medida ser extraída do comprimento do movimento de um pêndulo durante um segundo.

Como o movimento do pêndulo é sensível à gravidade e, assim, à latitude, o melhor lugar para a medição seria na linha do Equador. Mas os países cortados pelo paralelo de latitude zero eram distantes e pouco convidativos para a comunidade
científica do século 18.

Por isso os membros da Academia pensaram em fazer a medição do pêndulo ali mesmo, em Paris, o que foi logo descartado pelos outros países. A ideia do pêndulo foi enterrada de vez pelo físico francês Jean Charles de Borda.

O problema, disse ele, era que a técnica faria uma unidade fundamental (o comprimento do metro) depender de outra (1 segundo). E se algum dia as unidades de tempo tivessem de mudar?

A unidade de comprimento, além de fundamental, tinha que ser eterna – e independente. Por isso, a solução da Academia de Ciências foi vincular o metro a alguma medida da natureza. Nada mais simples. Mas a medida natural proposta pelos pensadores foi simplesmente o tamanho da Terra: o metro valeria a décima milionésima parte da distância entre o Polo Norte e o Equador.

Os cientistas acreditavam que esse valor resultaria em uma medida de comprimento parecida com a aune (cerca de 3 pés), usada em Paris e velha conhecida dos franceses. Depois de resolver as implicações técnicas e convencer a comunidade científica da Europa, os franceses decidiram medir a distância entre Barcelona, na Espanha, e Dunquerque, no norte da França, passando por Paris.

Saber a distância exata entre as duas cidades seria o bastante para, proporcionalmente, estabelecer a distância entre o Polo e o Equador. Agora era só arregaçar as mangas e sair às medições. E é aí que entram os heróis desta história: os astrônomos da Academia Jean-Baptiste Joseph Delambre (1749-1822) e Pierre-François-André Méchain (1744-1804).

A dupla recebeu a incumbência da medição do próprio rei Luís XVI (apenas quatro meses antes ser deposto). Delambre tomaria os números até Dunquerque e Méchain rumaria para o sul, até Barcelona. Para eles, era a chance de se consagrarem como os homens que estabeleceriam as medidas do futuro.

Prevista para terminar em um ano, a tarefa seria um feito maior que a descoberta de um cometa. Mas quando os dois saíram de Paris em suas carruagens, em junho de 1792, cada um com um ajudante e seus círculos repetidores de Borda (uma engenhoca utilizada para medir ângulos e calcular distâncias), não sabiam que enfrentariam toda ordem de azares e que só completariam aquela epopeia sete anos depois.

Aos trancos e barrancos

Os primeiros problemas foram causados pela natureza, diz o historiador Ken Alder, no livro A Medida de Todas as Coisas. Como seus equipamentos se guiavam pelos astros, eles precisavam de tempo bom. Então ficaram meses parados, apenas esperando a chuva passar.

Eles também dependiam de lugares elevados, pois de um ponto de observação tinham que enxergar o próximo. Em alguns lugares, simplesmente não havia um morro sequer, nem uma colinazinha, e assim a medição ia devagar, quase parando.

O pior, porém, foi atravessar a França em pleno furor revolucionário. Por todo o país, multidões gritavam lemas contra os aristocratas, atacavam suas residências e prendiam quem parecesse um engomadinho de Versalhes.

A queda da bastilha /Crédito: Wikimedia Commons

 

Delambre, o astrônomo que rumou para o norte, era detido a cada cidade por que passava. Como foi o rei quem assinou a autorização da epopeia, os documentos do astrônomo não tinham mais valor quando a monarquia caiu.

Funcionavam pior que um passaporte vencido, já que mostrar papéis com o visto do rei deposto era como assinar uma condenação. Delambre passou o aperto mais grave em Saint-Denis, dois meses depois de partir de Paris: foi preso pelos revolucionários acusado de não compartilhar com os novos ideais.

Na praça da cidade, diante de 800 voluntários reunidos para lutar contra o exército prussiano que seguiria a Paris para tentar restabelecer o rei, ele ficou horas explicando que não era aristocrata, tampouco espião dos prussianos. Depois disso, Delambre resolveu só avançar após receber dos governantes revolucionários um visto que garantisse sua segurança.

Fizeram mais: recomendaram às autoridades locais que auxiliassem os astrônomos durante a viagem. A padronização das medidas era de interesse do novo poder. Enquanto Delambre prosseguia aos trancos e barrancos no norte, Méchain estava trabalhando a todo vapor rumo a Barcelona.

Em apenas três meses, ele já havia completado quase metade do caminho. Mas sua sorte estava para mudar. Em maio de 1793, ao visitar uma estação de bombeamento de água nos arredores de Barcelona, foi atingido por uma barra de ferro que esmagou suas costelas, fraturou-lhe a clavícula e o deixou com o peito afundado.

Teve que ficar seis meses de cama, e mesmo depois da recuperação não pôde ir muito longe. O rei Luís XVI havia sido executado e a França, declarado guerra contra a Espanha. Nesse período, Méchain foi proibido de deixar o país: os espanhóis achavam que suas medições poderiam ajudar os inimigos.

A má sorte do astrônomo havia começado. O esforço de guerra esvaziou os cofres franceses e os primeiros ventos da revolução haviam mudado. Era a época do terror (a fase mais radical da revolução) e o novo governo se questionava se a expedição valia mesmo a pena.

Será que não existia um modo mais rápido e menos dispendioso de se chegar ao metro? Cansados de esperar, os revolucionários resolveram acelerar as coisas. No dia 1º de agosto de 1793, aprovaram uma lei estabelecendo um metro provisório e dando um prazo de um ano para o povo se adaptar ao novo padrão.

A ideia agora era chegar a essa medida sem depender do trabalho demorado e caro dos acadêmicos. O governo extinguiu a Academia de Ciências de Paris e o esforçado Delambre chegou a receber uma carta da recém-constituída Comissão de Pesos e Medidas avisando que seria substituído.

Mais uma vez, teve que usar seus dotes de retórica para convencer a todos de que sua presença era imprescindível para a finalização da expedição. Isolado do outro lado dos Pirineus, Méchain mal sabia o que estava acontecendo. Ele não fôra expulso, pois os membros do governo temiam que isso o fizesse procurar asilo na Espanha e levar com ele seus preciosos dados e equipamentos. Mas permanecia ocioso após haver concluído seu trabalho no país.

Falha encoberta

Obcecado por seu trabalho, Méchain aproveitou o tempo livre para tirar medidas de latitude de seu hotel, em Barcelona. Ele passou todo o inverno de 1793 tomando medidas dos astros – foram 910 leituras estrelares, cada uma com dez repetições ou mais, chegando a um marco incrível de 10 mil observações.

Depois disso, comparou os dados obtidos no hotel aos resultados de uma estação anterior, no sul da França. As novas verificações provariam que Méchain continuava a ser um dos mais meticulosos e exigentes cientistas de seu tempo – mas também que não era infalível. Méchain achou um erro.

O pior é que os cálculos errados já haviam sido mandados para Paris. Apesar de ser conhecido como um cientista metódico e obcecado pela exatidão, Méchain resolveu varrer o erro para baixo do tapete: a primeira medida do metro estava condenada à imprecisão. A falha resultou em um metro 0,229 milímetro menor que o correto pouco menos que a espessura dessas páginas.

Méchain prorrogou ao máximo a entrega dos resultados finais e só deu o trabalho por concluído em março de 1799. Mas era tarde demais. A Comissão de Pesos e Medidas da França já havia oficializado o Sistema Métrico e o país comemorava a tão justa e apropriada medida, saudada como uma contribuição universal.

Méchain, porém, continuou arrasado pelo seu erro e pelo remorso. Escreveu a Delambre dizendo não ser digno da glória que ambos alcançaram. Quatro anos depois da expedição, ele resolveu voltar para a Espanha para refazer todos os seus cálculos. Lá, contraiu malária e morreu em 1804.

Alguns anos depois, seu erro foi, enfim, descoberto por Delambre, que tampouco levou a história adiante. Que mal poderia haver em ser o metro um pouco menor do que ele deveria ser? Afinal o novo padrão rapidamente havia se estendido pela Europa e começava a ganhar o mundo.

A tão custosa medida do metro, referência do padrão usado hoje por 95% da população mundial, já havia sido imortalizada em uma barra de platina. E o metro jamais mediria a décima milionésima parte da distância entre o Polo Norte e o Equador.