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Acusada de bruxaria e morta na fogueira: a saga de Ursulina de Jesus

Em meados de 1754, a jovem foi considerada uma feiticeira logo depois que seu próprio marido a entregou ao júri inquisidor

Pamela Malva Publicado em 26/11/2020, às 19h00 - Atualizado às 21h32

Imagem meramente ilustrativa de bruxa em Salem
Imagem meramente ilustrativa de bruxa em Salem - Divulgação

Entre os séculos 15 e 17, a perseguição dos considerados hereges era bastante intensa em todo o mundo, mas principalmente na Europa. Com uma sociedade conservadora, todos que fugiam do padrão eram julgados por isso.

Não foi surpresa, então, quando a Caça às Bruxas começou, classificando as supostas feiticeiras como inimigas da comunidade e do próprio Estado. Violento, incisivo e com um forte caráter religioso, o movimento chegou no Brasil sem demora.

Foi por isso, inclusive, que diversas mulheres brasileiras sofreram com o processo inquisidor, que perseguia aquelas acusadas de feitiçaria. Uma das vítimas, tida como bruxa pela sociedade, foi a jovem Ursulina de Jesus.

Um dos julagementos de bruxaria ocorridos em Salem / Crédito: Divulgação

 

Perseguição institucional

Tamanha era a fixação da elite europeia pela Caça às Bruxas que um manual para a prática foi criado, em algum momento do final do século 15. Intitulado O Martelo das Bruxas, o livro foi escrito por Heinrich Kramer e James Sprenger.

De forma geral, o livro trazia ensinamentos sobre a perseguição aos hereges e, assim, acabou se disseminando pela Europa. O manual ainda foi usado pelos tribunais e acredita-se que tenha sido o responsável pela morte de mais de 100 mil pessoas.

Ainda que Ursulina de Jesus não tenha sido vítima direta do livro, ela logo se tornou uma das supostas bruxas criminalizadas pelo movimento impiedoso da época. E tudo porque seu marido não podia ter filhos.

Gravura de julgamento de uma suposta bruxa em Salem / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma magia sem fundamentos

O inferno na vida de Ursulina começou quando seu marido, Sebastiano de Jesus, descobriu que nunca seria pai, em meados dos anos 1750. Indignado, ele sabia que aquilo não era sua culpa e tentou encontrar por respostas.

Ignorando completamente a ideia de que poderia ser estéril, o homem colocou a culpa em sua esposa. Segundo ele, a jovem teria causado sua infertilidade através de um ritual que ela realizou, baseando-se em algum tipo de magia obscura.

Não demorou até que a história alarmasse a população de São Paulo, já que ninguém esperava ter uma bruxa como vizinha naquela época. Acusada de feitiçaria pelo próprio esposo, então, Ursulina foi para o tribunal inquisidor.

Imagem meramente ilustrativa de materiais usados na bruxaria / Crédito: Divulgação/Pixabay

 

Uma jovem apunhalada

Muito além da acusação, no entanto, o fator que realmente agravou a situação da jovem era a influência de Sebastiano. Pertencente aos grupos seletos da sociedade paulista na época, ele poderia fazer tudo aquilo que desejasse usando o próprio nome.

E como se a posição do homem na comunidade já não fosse o suficiente, ele ainda trazia uma carta secreta na manga. No dia do julgamento de Ursulina, Sebastiano surpreendeu a todos ao levar sua amante, Cesária, para depor contra sua esposa.

Em frente ao júri, que já não precisava de muitas provas para condenar uma mulher por bruxaria, a amante de Sebastiano confirmou a versão que o homem contava. Assim, Ursulina foi condenada por um crime que nunca aconteceu.

Gravura de mulheres acusadas de bruxaria sendo queimadas em praça pública / Crédito: Divulgação

 

O fim de uma vida

A condenação da suposta bruxa foi divulgada em meados de 1754. Pelos crimes de heresia e bruxaria, a mulher foi condenada à morte em praça pública — uma sentença bastante comum naquela época, principalmente nos casos dos considerados hereges.

Ursulina aguardou o dia de sua execução com paciência, já que ela não tinha mais nenhuma saída. Sem esperanças e apunhalada pelas costas, a mulher foi queimada viva, na frente de uma plateia que clamava por justiça, em São Paulo, ainda em 1754.

Assim, Ursulina ficou marcada na história do país como uma das brasileiras mortas durante a Caça às Bruxas. Junto dela, outras jovens também foram vítimas do movimento, como Mima Renard, Maria da Conceição e Isabel Pedrosa de Alvarenga.


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