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Acusada de bruxaria e vítima de um assassinato: Maria Perpétua, a feiticeira de Ilhabela

Conheça a portuguesa que sofreu com as queixas dos moradores zangados da Ilhabela do século 19 e deu origem ao nome de praia

Vanessa Centamori Publicado em 08/08/2020, às 08h00

Retrato de Maria Perpétua Calafate de Souza
Retrato de Maria Perpétua Calafate de Souza - Wikimedia Commons

Maria Perpétua Calafate de Souza era uma senhora de engenho portuguesa e seu começo de vida nada tinha de assustador ou tenebroso. No início, ela era apenas uma mulher comum, que vivia em Portugal na década de 1790. Só que tudo foi de mal a pior a partir de um episódio inicial — a morte do marido dela, o escrivão João Rodrigues da Siqueira. 

A dama, que tinha se casado muito jovem, estava acostumada com a rotina de casada, mas passou a ser viúva. Com a viuvez, também veio uma grande mudança: ela se mudou para o Brasil Colônia, para onde embarcou em direção à Ilha de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Foi lá que a portuguesa deixou o passado de lado.

Vida na ilha

Maria se casou novamente, desta vez com o Sr. Antônio José Lisboa de Souza, um oficial militar aposentado, com quem ela teve um filho. Outra novidade em sua vida é que ela começou a empreender em um negócio secreto — e com fama de sombrio

“Sua fama como feiticeira aumentava a cada dia, atraindo forasteiros que iam até o povoado em busca de suas previsões. Até que, em 1812, foi acusada de bruxaria”, conta a historiadora Caroline Dias, que pesquisa a Inquisição no Brasil.

Perpétua acumulou fortuna fazendo adivinhações como cartomante. Vendia amuletos e poções supostamente mágicas que prometiam resolver problemas dos seus clientes. Eles eram, em sua maioria, marinheiros de navios mercantes e negreiros que atracavam na Ilha de São Sebastião para se abastecerem. Forasteiros de todas as partes vinham até a mulher, que logo ganhou fama de bruxa

O feitiço se quebra 

Os dias de trabalho de Maria Perpétua como cartomante logo seriam interrompidos quando moradores da ilha ficaram zangados por frequentar o mesmo lugar que uma mulher que poderia ser "bruxa".

Incomodados com a situação, os residentes mandaram cartas até Portugal para exigir que ela fosse presa. A denúncia formal ocorreu por volta de 1812. Entre os denunciantes estavam um padre e um comerciante de escravos muito importante na região, conhecido como capitão Domingos.

Página do processo por bruxaria contra Maria Perpétua / Crédito: Domínio Público 

 

Desentendimentos 

As acusações caíram em Perpétua, sobretudo porque a mulher estava envolvida em alguns conflitos envolvendo o capitão. Uma das escravizadas do indivíduo poderoso, Joana, tinha se desentendido com a cartomante de modo bem sério. Alguns dias depois, a moça adoeceu e faleceu. 

O caso foi considerado uma artimanha das feitiçarias de Maria. Então o capitão Domingos resolveu se reunir com outros moradores e prestar queixa. Naquela época a perda de escravos era algo muito afrontoso para um senhor de engenho, já que eles eram vistos como bens materiais.

Por isso, o acontecimento chegou aos olhos do governador da capitania de São Paulo daquela época. Devido ao período de tempo aproximado sobre o que se sabe da vida de Maria Perpétua, o líder no período era Francisco Meneses ou talvez Francisco da Câmara, já que o último o sucedeu após a morte do antecessor, naquele ano de 1812. 

Fato é que a a casa de Perpétua foi inspecionada pelas autoridades do governo local. Os registros dizem que foram encontrados apetrechos de magia e até uma orelha humana seca. O material macabro estava em um livro com dezenas de anotações, contendo simpatias e o que pareciam ser feitiçarias. 

Praia da Feiticeira / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Fim trágico 

Maria Perpétua foi presa em uma cadeia de São Vicente. Foi, entretanto, liberada um tempo depois. Por mais que muitos a condenassem, ela teve apoio de algumas pessoas, pois a nobre rica tinha grande influência na região. Isso foi o suficiente para que a mulher ficasse livre. 

Ainda assim, várias outras denúncias voltaram a ocorrer. Mas não foi por causa das ameaças que Maria teve seu fim trágico. Ela foi vítima, na verdade, de violência doméstica. O crime aconteceu em 22 de outubro de 1817 e foi bastante brutal: ao ser golpeada com uma faca, a mulher teve uma hemorragia. Sangue jorrou. 

A lenda

Curiosamente, em referência à história da suposta dona de poderes mágicos, uma das praias de Ilhabela hoje é chamada de Praia da Feiticeira. E por isso, a mulher ainda ocupa o imaginário de quem frequenta a praia e dos habitantes da bela ilha.

Uma lenda local conta que, com medo de ser esfaqueada pelo cônjuge, Maria Perpétua teria voltado para uma mata antes de morrer. Lá, ela teria enterrado sua fortuna com o auxílio de escravos.

Para evitar que revelassem o segredo acerca do dinheiro, teria matado a todos e voltado sozinha, podendo ter até sobrevivido aos golpes de faca e envelhecido louca. Visto isso, os itens preciosos que teriam sido abandonados por Perpétua ainda estariam enterrados. Mas, claro, esse trecho da história é somente parte de um bom e velho imaginário assombrado.


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